LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - Depois da "Revolução Verde" iraniana de 2009, quando milhares de cidadãos saíram às ruas para protestar contra a fraude eleitoral que culminou na reeleição do linha-dura Mahmoud Ahmadinejad, multiplicaram-se nos últimos anos os movimentos contra o regime.

O bombardeio dos Estados Unidos e Israel ao Irã, em 28 de fevereiro, pode ter colocado um freio nessa crescente de mobilizações, de acordo com o escritor e jornalista português Ricardo Alexandre, que acaba de lançar um livro sobre o país.

"Um dos efeitos dessa guerra é reduzir o espaço dos movimentos das mulheres, dos jovens e dos trabalhadores", disse à Folha de S.Paulo o autor de "Tudo sobre o Irão" ("Irão" é a grafia portuguesa para "Irã"). A obra é resultado de pesquisa bibliográfica exaustiva e centenas de entrevistas, muitas delas in loco, realizadas ao longo dos últimos vinte anos, e não tem ainda data prevista de lançamento no Brasil.

"Antes de 28 de fevereiro havia uma defasagem muito grande entre os anseios da população, especialmente a população mais jovem, qualificada e tecnologicamente atualizada, que tem um determinado tipo de expectativas e hábitos de consumo, face ao que é uma interpretação muito conservadora da lei e dos costumes", afirma Alexandre. "Isso provoca inevitavelmente choques."

O Irã que emerge do livro é, assim, um paradoxo. De um lado, uma ditadura teocrática feroz. De outro, uma tradição cultural milenar, uma classe média com alto nível de educação e uma sociedade civil diversa e mobilizada.

Uma cena da série israelense "Teerã", cujo último capítulo, coincidentemente, subiu na plataforma na véspera do bombardeio de 28 de fevereiro, mostra uma rave regada a bebida alcoólica e drogas pesadas na periferia da capital iraniana. O livro de Alexandre mostra que a cena, aparentemente inverossímil, pode ter se baseado em fatos reais.

"Os jovens iranianos não deixam de produzir música pop em circunstâncias adversas, e apelam ao engenho e à criatividade para driblar as leis e as restrições", diz Alexandre. "Há também espaços alternativos onde é possível exercer liberdade artística e de costumes."

O autor dedica especial atenção ao movimento das mulheres, que se intensificou depois da morte de Mahsa Amini, em setembro de 2022. Amini era uma mulher de 22 anos que foi presa por não usar de forma correta o hijab, o véu que cobre a cabeça das muçulmanas. Na cadeia, foi espancada até a morte, segundo denúncias de outras mulheres e do irmão da vítima. O relatório oficial da polícia minimizou a violência e atribuiu a morte a um ataque cardíaco.

"Depois da morte de Mahsa Amini, muitas mulheres pararam de usar a cabeça coberta, principalmente nas grandes cidades", diz Alexandre. Segundo ele, são comuns no país avanços e recuos em políticas repressivas. "A lei fecha os olhos, vira a cara para o lado e deixa passar muitas coisas quando lhe convém. Mas a autoridade pode voltar a aplicar a lei quando quiser, sempre há essa nuance".

Alexandre mostra no livro que há profissões que são praticamente vedadas às mulheres, principalmente nas áreas de ciências exatas e engenharia. Ele afirma que elas não são formalmente proibidas de exercê-las, mas não são selecionadas em processos seletivos e concursos.

Com base na obra de John Ghazvinian, autor americano de origem iraniana, o livro mergulha na história do relacionamento entre Irã e EUA. "Havia quase um fascínio mútuo entre iranianos e americanos nos séculos 18 e 19", afirma Alexandre.

Para Alexandre, essa admiração antiga, embora abalada, pode abrir um caminho diplomático de entendimento numa conjuntura em que haja moderados dos dois lados. Segundo ele, isso ocorreu recentemente quando Barack Obama governava os EUA, e Hassan Rouhani era presidente do Irã.

"Se Obama tivesse sido rápido em levantar sanções, e se as condições de vida dos iranianos tivessem melhorado em função de um acordo com os EUA, talvez os iranianos percebessem que a abertura para o Ocidente era o caminho", diz Alexandre. "Os americanos também poderiam ter apostado, em vez de bombas, em fomentar grupos de oposição democrática como fizeram muitas vezes em outros países ao longo do século 20".

Para o autor, enquanto durar o regime dos aiatolás, Israel sempre será um complicador na relação entre o Irã e o Ocidente. "Eu acho que é um erro por parte dos dirigentes iranianos, ao longo do tempo, terem dito e reiterado esse desejo de destruir o Estado de Israel. Muita gente no país não pensa assim", diz Alexandre.

"O discurso de aniquilação de Israel leva a um beco sem saída. Israel fica sempre com argumentos para destruir o país que deseja a sua destruição."