WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Ramadan Sabra, 28, tinha planos. Formado em engenharia, esse jovem palestino da Faixa de Gaza já atuava em sua área e complementava a renda trabalhando em um restaurante. Nas horas vagas, jogava futebol e sonhava em viajar para o exterior. Até que, em outubro de 2023, veio a guerra entre Israel e Hamas.
Sua família teve de deixar a casa e foi viver em tendas de refugiados na praia. Pelejavam para conseguir o que comer entre os frequentes ataques aéreos. Um dos bombardeios feriu seu pé esquerdo e, sem tratamento adequado, os médicos tiveram que amputá-lo. "Naquele momento, minha vida parou", diz Sabra à Folha.
Essa história se tornou recorrente em Gaza. A Organização Mundial da Saúde estima que 5.000 pessoas perderam ao menos um membro desde o início do conflito, que matou mais de 70 mil palestinos. A situação é agravada pelo bloqueio israelense que dificulta a entrada de materiais essenciais à produção de próteses, incluindo o gesso.
Israel menciona questões relacionadas à segurança e considera o gesso um "material de duplo uso", argumentando que possui potencial militar, podendo ser usado por grupos armados. Tel Aviv também impede a entrada do papamóvel que o papa Francisco pediu, em sua herança, que fosse transformado em clínica ambulante e enviado para atender as crianças de Gaza.
"Hoje, a infraestrutura médica é incapaz de atender à demanda", diz Pat Griffiths. Porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, ele estava em Gaza quando conversou com a reportagem. Descreveu "quilômetros e mais quilômetros de destruição" repletos de "blocos de concreto destroçados" e "metal retorcido". "Pessoas com deficiência, incluindo as que perderam membros, estão especialmente vulneráveis."
Organizações humanitárias têm listas de espera para próteses. Mas, sem gesso, a fila anda devagar ?e ameaça parar. A crise é especialmente severa para quem perdeu um braço, com maior escassez. Sabra teve, por assim dizer, a sorte de receber um dos poucos membros artificiais disponíveis.
"Voltei a andar, passo a passo. Tento me adaptar ao novo pé, mas ainda tenho alguma dificuldade de movimento", conta. O sonho do futebol, porém, permanece impossível. Planeja sair de Gaza para buscar um tratamento mais adequado. Por ora, isso é inviável: as fronteiras estão fechadas, com raras exceções.
Com quase todos os hospitais de Gaza danificados ou inoperantes, as opções locais são limitadas. A situação melhorou desde o cessar-fogo de outubro do ano passado, pois agora é possível trazer equipamentos de apoio como muletas e cadeiras de roda. Com a entrada de gesso restrita, porém, os especialistas não conseguem fazer moldes para novas próteses.
Funcionários de organizações humanitárias improvisam como podem. No sul do território palestino, por exemplo, um marceneiro usa pedaços de madeira para fazer muletas provisórias, segundo a reportagem ouviu. Mas o desafio prossegue. "A restrição à entrada de material aleija o sistema de saúde", diz Griffiths.
Hoje, uma das únicas alternativas é recorrer ao Centro de Pólio e Membros Artificiais, que atua em Gaza há quase 50 anos. "Recebemos centenas de novos casos todos os meses", diz o porta-voz Hosny Mohanna. "Às vezes, temos de reciclar componentes ou recorrer a alternativas de baixa qualidade."
Os pacientes têm de ser acompanhados com frequência por fisioterapeutas e psicólogos. Isso vale, em especial, para as crianças. Seus corpos ainda estão em desenvolvimento e, por isso, requerem ajustes e trocas de próteses. "É um desafio social de longo prazo", afirma.
A guerra remonta a 7 de outubro de 2023. Naquele dia, a facção palestina terrorista Hamas fez um atentado contra Israel, deixando 1.200 mortos. Em resposta, Tel Aviv iniciou uma intensa campanha de bombardeios contra Gaza. Diversas organizações e governos internacionais ?incluindo o Brasil? acusam Israel de cometer genocídio, o que o país nega.
Esse conflito também mudou a vida de Aseel. Ela contava os dias para seu casamento, planejado a despeito de tudo. Um bombardeio israelense, porém, atingiu a tenda onde ela estava refugiada com sua família. Na manhã seguinte, Aseel sentia tanta dor em uma das pernas que, diante da falta de tratamento, pediu aos médicos que a amputassem.
Ela foi amparada pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que divulgou sua história na semana passada sem informar a idade nem o sobrenome. Após a reabilitação, Aseel soube que receberia uma prótese e que poderia voltar a andar. Disse que foi, até aquele momento, o momento mais feliz de sua vida.
Segundo o relato da organização internacional, Aseel seguiu adiante com os planos do casamento, mesmo com o medo de que a prótese caísse durante a cerimônia. Depois de muito treino, pôde dançar com o noivo. O casal vive hoje em um campo de refugiados.
