WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - James Fishback, 31, gosta de provocar e de surfar a onda da polêmica. Com apreço por debates, tem despertado interesse entre jovens conservadores da Flórida, onde quer se tornar o candidato republicano ao governo e chegar ao cargo hoje ocupado por Ron DeSantis, que encerra o segundo mandato neste ano.
Mas é um outsider controverso que, mesmo no início da campanha, já acumula acusações de racismo e de antissemitismo.
Além de episódios e falas problemáticas, recebeu elogio de figuras da extrema direita como Nick Fuentes, neonazista e racista declarado, e Andrew Tate, um dos principais influenciadores redpill (movimento conspiracionista e masculinista da ultradireita), que disse que Fishback tem seu voto.
Entre as polêmicas em que o republicano já se colocou estão as constantes referências ao rival dentro do partido, Byron Donalds ?que é negro?, como "escravo". A declaração gerou repúdio imediato e acusações de racismo. Ele rejeita a interpretação e insiste que o termo é político, não racial: para ele, Donalds seria "escravo" de empresas ligadas a setores pró-Israel e a interesses imobiliários e corporativos.
"Se ele fosse branco, eu o chamaria de escravo. Não é questão de raça, é questão de escravidão", disse Fishback à reportagem em um hotel cinco estrelas em Washington.
Donalds não respondeu diretamente às declarações. Ele afirmou à imprensa americana que vencerá as eleições e lembrou o apoio do presidente Donald Trump.
Fishback também foi acusado de usar o termo "goyslop", gíria conspiratória de origem antissemita que acusa falsamente judeus de produzir conteúdo ou produtos de baixa qualidade para manipular o público, ao falar sobre merenda escolar.
A imprensa americana a descreveu como um "apito de cachorro": aparentemente inofensiva para o público geral, mas carregada de conotação antissemita para quem conhece o código. Ele rejeita a acusação e se descreve como "a pessoa menos antissemita" que conhece.
Embora figure atrás nas pesquisas dentro do partido e seja considerado um azarão, ele diz acreditar que a fórmula para avançar é relativamente simples: vencer o debate ?"basta eu ter uma boa noite de sono"? e comparecer pessoalmente aos 67 condados do estado. Faltando apenas um terço dos condados para visitar, Fishback passou alguns dias desta semana na capital americana.
"Você vai me perguntar por que estou concorrendo na Flórida, mas vim a Washington para advogar contra a guerra do Irã?", inicia a conversa, repetindo um discurso que já usou em outras entrevistas, inclusive em frente ao Capitólio.
Na capital, ele afirma ter se encontrado com pessoas "de todos os tipos" para protestar contra o avanço da guerra. Trata-se de uma posição incomum dentro do partido, mas que dialoga com o público jovem que vem conquistando.
Segundo levantamento da NPR/NBC News e do instituto Marist, a geração Z registra a menor taxa de aprovação para o conflito no Oriente Médio entre as faixas etárias ?24%, contra 36% entre millennials, e 39% entre baby boomers. Fishback aposta que esse ceticismo em relação à guerra se traduz em base eleitoral.
Entre esses jovens conservadores, Fishback ecoa discursos da machosfera (comunidades online misóginas) com discursos sobre "masculinidade em crise" e papéis tradicionais de gênero. É celebrado como alguém capaz de "restaurar a energia masculina" e os valores de família.
Como um governador conseguiria agir sobre questões de comportamento e cultura? "A única forma de revigorar a energia masculina é com guaraná e farofa", ironiza ele, que, antes de apostar na vida política, viveu seis meses no Rio de Janeiro, há dez anos, e fala português.
"Não posso passar uma lei para tornar as pessoas mais masculinas, mas posso trabalhar com as escolas para combater a narrativa de que homens ou pessoas brancas são a fonte de todos os problemas, ou de que negros estão inevitavelmente condenados à opressão e à prisão", afirma.
Para ilustrar, recorre ao Brasil: "É como ir a uma favela do Rio de Janeiro e dizer que todos estão condenados à pobreza".
Questionado se enfrentar essas desigualdades não implicaria também reconhecer o peso da história, Fishback admite que os EUA têm um histórico de discriminação, mas sustenta que isso "ficou no passado". "Não há lei hoje que favoreça um grupo sobre outro."
A afirmação é contestada por especialistas, que apontam que desigualdades estruturais persistem mesmo na ausência de discriminação legal explícita.
Para o público feminino, a abordagem é igualmente controversa. No ano passado, entrou no Tinder para apresentar suas propostas às eleitoras.
"Foram 4.000 matches, mais do que eu tinha na época da faculdade", compara. O perfil foi derrubado pela plataforma dois dias depois. Ele é contra o direito ao aborto, que chama de assassinato, e defende que mulheres tenham filhos mais cedo, em linha com a agenda natalista promovida por grupos como a Heritage Foundation, que advoga por políticas de recuperação da taxa de natalidade nos EUA.
"Me ressinto de políticos republicanos que pedem para mulheres 'se explicarem' sobre gravidez. Se uma mulher de 20 anos está grávida, não vou criticar; vou oferecer recursos: fórmula infantil, comida de bebê, cuidado pré-natal", diz ele.
A postura, no entanto, coexiste com declarações de tom mais agressivo. Fishback defende um "imposto do pecado" para plataformas como o OnlyFans com o objetivo declarado de torná-las economicamente inviáveis. "Não quero mulheres no meu estado sendo objetificadas e exploradas vendendo seus corpos na internet. A melhor forma de parar isso é aumentar os impostos no OnlyFans a um nível proibitivo", afirmou.
Em entrevistas anteriores, chegou a dizer que "as putas vão ter de pagar impostos", uma declaração contestada por trabalhadoras da plataforma nos EUA.
Questionado se essas posições estão ligadas ao objetivo de aumentar a taxa de natalidade do estado, confirma sem hesitar: "Mulheres deveriam ter filhos cedo e com frequência. O relógio biológico é real. Quero encorajar as mulheres a casarem, e para isso a vida na Flórida precisa ser acessível."
Demógrafos alertam que políticas natalistas baseadas em pressão sobre mulheres jovens tendem a ampliar desigualdades de gênero e renda sem necessariamente reverter quedas na natalidade.
Fishback também tem propostas anti-imigração: quer banir o visto de trabalho temporário para profissionais qualificados, que diz serem responsáveis por tirar empregos dos americanos. Na disputa em um estado com grande população latina, afirma não temer perda de votos: "Imigrantes legais concordariam". Critica o ICE não pela dureza no trato com imigrantes, mas pela suposta ineficiência. E defende deportações mais amplas, ainda que diga que podem ser conduzidas "com dignidade".
Apesar das alianças com a extrema direita, parece querer vestir um verniz moderado. Não se incomoda com comparações a Zohran Mamdani, prefeito eleito em Nova York pelo campo progressista. "Afinal, ele venceu as eleições", diz Fishback, que elenca pontos em comum sem modéstia: "Temos cerca de 30 anos, somos bonitos e estamos dispostos a focar o custo de vida".
As diferenças, porém, são substantivas: "Ele vai ser mais a favor do envolvimento do governo; eu vou querer tirar o governo de muitas das indústrias que estão impedindo o crescimento." E aproveita para alfinetar os correligionários: "A maioria dos republicanos em Washington quer postar mensagens maldosas, ir à Fox News e reclamar da Kamala Harris. Eu quero trabalhar com qualquer um".
