SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A inteligência dos EUA avalia que o tempo para o Irã conseguir construir uma arma nuclear não mudou desde o verão passado, apesar de ataques dos EUA e de Israel, segundo fontes da agência de notícias Reuters.
A avaliação americana indica que a campanha militar não alterou de forma relevante o cronograma do programa nuclear iraniano. Mesmo após dois meses de guerra iniciada, em parte, pelo presidente Donald Trump com o objetivo declarado de impedir Teerã de obter uma bomba, analistas mantiveram a estimativa anterior, de acordo com três fontes.
Relatórios de inteligência apontam que atrasar de verdade o programa pode depender do destino do urânio altamente enriquecido que ainda restaria no país. A leitura é que seria necessário destruir ou remover o estoque remanescente de material, num cenário em que parte das instalações foi atingida, mas o material nuclear pode ter permanecido protegido.
Antes da guerra de 12 dias em junho do ano passado, órgãos americanos estimavam que o Irã poderia montar uma bomba em três a seis meses. Depois dos ataques daquele mês contra os complexos nucleares de Natanz, Fordow e Isfahan, a estimativa passou para cerca de nove meses a um ano, disseram fontes familiarizadas com as avaliações.
A Agência Internacional de Energia Atômica não conseguiu verificar o paradeiro de cerca de 440 kg de urânio enriquecido a 60%. A agência avalia que o estoque total de urânio altamente enriquecido poderia ser suficiente para dez bombas, caso fosse enriquecido ainda mais.
Casa Branca, no entanto, tem afirmado que a ofensiva enfraqueceu a infraestrutura de defesa do Irã e reforça o objetivo de impedir uma arma nuclear. "Enquanto a Operação Martelo da Meia-Noite destruiu as instalações nucleares do Irã, a Operação Fúria Épica aproveitou esse sucesso para dizimar a base industrial de defesa do Irã, que antes servia como escudo protetor em sua busca por armas nucleares", disse a porta-voz Olivia Wales.
Fontes ouvidas pela Reuters atribuem o quadro ao foco dos ataques mais recentes, que miraram sobretudo alvos militares convencionais e a liderança iraniana. Israel atingiu instalações nucleares importantes, mas parte da campanha dos EUA teria se concentrado em capacidades militares e na base industrial de defesa do país.
Analistas também apontam limitações para atingir rapidamente alvos nucleares considerados decisivos. "Pelo que sabemos, o Irã ainda possui todo o seu material nuclear", afirmou Eric Brewer, ex-analista sênior da inteligência americana e hoje vice-presidente do programa de estudos de materiais nucleares da Nuclear Threat Initiative.
A avaliação é que o material pode estar protegido em estruturas subterrâneas profundas. "Esse material provavelmente está localizado em depósitos subterrâneos profundos, onde as munições americanas não conseguem penetrar.", completou Brewer.
Autoridades americanas discutem opções de alto risco para prejudicar mais o programa, incluindo operações terrestres. Entre as hipóteses citadas por fontes está uma incursão para recuperar urânio altamente enriquecido que seria mantido em túneis no complexo de Isfahan.
O Irã nega buscar armas nucleares, e a inteligência dos EUA e a AIEA dizem que o país interrompeu o desenvolvimento de uma ogiva em 2003. Ainda assim, especialistas e Israel sustentam que Teerã teria preservado partes essenciais do programa de forma sigilosa.
Assassinatos de cientistas nucleares iranianos podem aumentar a incerteza sobre a capacidade de Teerã de construir uma bomba funcional. "Acho que todos concordam que o conhecimento não pode ser bombardeado, mas o saber-fazer certamente pode ser destruído", disse David Albright, ex-inspetor nuclear da ONU e diretor do Instituto para Ciência e Segurança Internacional.
