BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Friedrich Merz completa um ano no cargo de primeiro-ministro da Alemanha nesta quarta-feira (6) em rota de colisão com Donald Trump. Fosse esse seu único problema, estaria de bom tamanho. Recordes de impopularidade, uma coalizão de governo cada vez mais frágil e populistas em ascensão desafiam o conservador de 70 anos.

"Vou ter de explicar e esclarecer ainda mais. Explicar, explicar, explicar", disse Merz em entrevista à revista Der Spiegel, na semana passada. "Em uma democracia, é preciso conquistar a adesão das pessoas." Até aqui, não está fácil.

De acordo com as últimas pesquisas de opinião, apenas 11% dos eleitores se dizem satisfeitos com o trabalho do governo Merz. Em julho do ano passado, eram 38%. Entre os insatisfeitos, o número subiu de 58% para 87% no mesmo período. Segundo analistas, é a pior avaliação de um premiê na história recente da Alemanha.

Até então, o título cabia a Olaf Scholz, social-democrata que antecedeu Merz, também com uma coalizão de governo recheada de disputas internas. Agora, apenas 11% dos ouvidos pelo Instituto Forsa, neste mês, consideram o trabalho do atual gabinete melhor do que o do anterior.

Como Scholz, Merz convive com os ministros da área econômica às turras. Katherina Reiche, ex-executiva do setor de gás e do partido do premiê, a CDU, vem externando seus atritos com Larks Klingbeil, ministro das Finanças, mas também vice-primeiro-ministro e líder do SPD, a sigla trabalhista que permite a Merz ter maioria no Parlamento.

"Três partidos diferentes estão tentando cumprir um mandato comum para governar. Isso não é exatamente fácil. Mas já fizemos progressos significativos", afirmou Merz à Spiegel, colocando na conta a CSU, legenda conservadora da Baviera, que compõe o grupo parlamentar democrata-cristão. Aqui também o discurso do primeiro-ministro se choca com a realidade.

Merz se elegeu prometendo uma série de reformas, muitas das quais estão longe de consenso na coalizão. Reiche e Klingbeil, por exemplo, discutem uma nova política de segurança energética que caminha para contratar mais usinas de gás, pelo lado da conservadora, e mais subsídios à energia verde, posição do social-democrata.

Especialistas da área defendem qualquer coisa pelo meio, mais racional e com menos dispêndio público, objetivo que provavelmente será sacrificado para acomodar os ânimos dentro da coalizão. Processos parecidos se repetem em outras áreas carentes de modernização ou deficitárias, como previdência e saúde pública.

Advogado que trocou a política pelo mercado financeiro por quase duas décadas -e ficou milionário-, Merz chegou a tolerar até conversas sobre taxar grandes fortunas durante um desses esforços de acomodação. Também levantou a voz em uma discussão com Klingbeil, episódio que minimizou nos últimos dias.

Fazer a coalizão funcionar é um imperativo para o primeiro-ministro. Além da impopularidade do governo, as pesquisas mostram que uma nova eleição alçaria a Alternativa para a Alemanha (AfD), a sigla de ultradireita do país, à maior bancada do Parlamento. Tudo isso a despeito de a legenda não ter proposta para o principal problema da Alemanha, a situação econômica, de acordo com 66% dos eleitores.

Segundo o último levantamento, a AfD consolidou-se na liderança das preferências, com 27%, contra apenas 22% de CDU/CSU. Ainda é um empate técnico, mas no limite da margem de erro (2,5% para mais ou para menos). E já é quase uma inversão do que ocorreu na eleição federal, em fevereiro de 2025.

Situação ainda pior experimenta o parceiro de coalizão, o SPD. De vencedor da eleição federal de 2021, com Scholz, os sociais-democratas amargam agora uma quarta colocação nas preferências, com 12%, atrás dos Verdes, que têm 16%. A situação é tal que alguns analistas já vislumbram uma aproximação dos conservadores com o partido ambientalista, a despeito das enormes diferenças programáticas.

Duas eleições regionais em setembro, em que a AfD concorre como favorita, podem aumentar ainda mais a pressão política sobre Merz, acossado também por uma tempestade perfeita no cenário internacional.

No flanco em que se notabilizou no último ano, com mensagens duras para uma Europa que não vê mais a Alemanha com o tamanho de antes, Merz, em questão de dias, complicou-se com uma frase dita a alunos de uma escola secundária.

"Os americanos aparentemente não têm uma estratégia. Uma nação inteira está sendo humilhada pela liderança iraniana", disse em Marsberg, durante um debate. Trump reagiu, afirmando que Merz não sabia do que estava falando. Foi além, anunciando a retirada de 5.000 soldados dos EUA da Alemanha, algo já esperado, mas também uma sobretarifa de 25% nas exportações da União Europeia para o mercado americano.

Setores da indústria alemã, montadoras à frente, um dos setores mais dependentes das vendas para o mercado americano, pediram imediata contenção para as partes. Merz entendeu rapidamente que o recado só seria ouvido por ele. Em uma manobra de última hora, afirmou que Trump tinha razão pelo fato de a UE ainda não ter aprovado o acordo que congelaria a tarifa dos principais produtos em 15%.

"Por natureza, sou uma pessoa muito franca. Digo o que considero certo e aceito que isso possa gerar debates controversos. No entanto, também percebo que essa forma de me expressar causa desconforto em um público extremamente sensível", afirmou Merz, dias antes da retaliação da Casa Branca.

Respondia a uma pergunta sobre escolha de palavras, em que o comentário negativo sobre Belém, que igualmente viralizou, foi usado como exemplo. "Mesmo assim, não pretendo mudar minha maneira de ser", disse Merz.

Franqueza que pode funcionar no mercado de negócios, mas que, em política, pode custar caro, como descreveu um cientista político ao Financial Times.