SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai discutir, em seu encontro com o americano Donald Trump nesta quinta-feira (7), a proposta brasileira para cooperação em segurança pública, que inclui colaboração no combate ao tráfico de armas e lavagem de dinheiro. Também pode estar em discussão a cooperação com terceiros países da região.

A proposta foi apresentada por integrantes do governo brasileiro a seus contrapartes americanos em abril. Além disso, na pauta do encontro entre os dois chefes de Estado estarão as investigações da seção 301 que o governo Trump abriu contra o Brasil e podem resultar em sanções e tarifas contra o país. Do lado americano, os temas prioritários devem ser a exploração de minerais críticos no Brasil e a atuação das big tech americanas no país.

Trump e Lula devem almoçar na capital americana, Washington. Não se espera a assinatura de acordos.

O encontro entre os dois presidentes começou a ser discutido no final do ano passado e estava programado para março. Na semana passada, após comunicação da Casa Branca com o governo brasileiro, a visita foi finalmente agendada para esta semana.

O governo Trump havia proposto que o Brasil recebesse em prisões brasileiras os estrangeiros capturados nos EUA, tal como faz El Salvador em sua penitenciária de alta segurança Cecot, conforme revelou a Folha de S.Paulo. A ideia foi rechaçada pelo governo brasileiro. A cooperação seria o grande anúncio da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao americano Donald Trump.

Os EUA também queriam que o Brasil apresentasse um plano para acabar com o PCC, o Comando Vermelho, o Hezbollah e as organizações criminosas chinesas em solo brasileiro.

O governo Trump pedia ainda que o Brasil compartilhasse com autoridades americanas informações, incluindo dados biométricos, de estrangeiros buscando refúgio e refugiados no país. Isso seria parte de medidas para combater a criminalidade transnacional e bloquear a imigração em massa passando por portos e fronteiras brasileiros.

As demandas americanas eram uma contraproposta ao plano de cooperação apresentado pelo presidente Lula em telefonema a Trump no ano passado ?que também selou a trégua das tensões entre os dois países em decorrência do tarifaço.

O Brasil havia proposto um plano de combate ao crime transnacional com quatro pontos principais. Um deles era cooperação para combater a lavagem de dinheiro, mirando criminosos brasileiros que transferem recursos para empresas de fachada no estado de Delaware, espécie de paraíso fiscal nos EUA.

A proposta também incluía o bloqueio de ativos nos EUA provenientes de recursos ilícitos de brasileiros que cometeram crimes no Brasil, com aumento de cooperação entre a Receita Federal e o Internal Revenue Service; a colaboração entre autoridades alfandegárias, com aperto da fiscalização no tráfico de armas que abastecem facções como CV e PCC; e intensificar o intercâmbio de informações sobre transações em criptoativos.

As demandas americanas não foram aceitas pela gestão Lula, que apresentou uma nova proposta em abril.

O governo brasileiro tenta evitar que os EUA anunciem a designação do CV e do PCC como organizações terroristas. Na visão do governo Lula, a designação abriria brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro. O governo teme ainda a exploração política do tema pelos bolsonaristas durante a campanha eleitoral.

Em relação a minerais críticos, o Brasil já afirmou a autoridades americanas que não aceita nenhum acordo que preveja exclusividade de fornecimento e que não inclua processamento das commodities em solo brasileiro. Lula deve ressaltar a Trump que o Brasil se reserva o direito de regulamentar o setor de minerais críticos, com possíveis cláusulas de restrição a exportação de determinados minerais e "screening" de investimentos.

Em relação às investigações comerciais dos EUA sobre o Brasil, cuja conclusão deve se dar nas próximas semanas, o objetivo do Brasil é ter o presidente Lula argumentando, em nível de chefes de Estado, porque o país não deveria ser alvo de sanções.

Em julho do ano passado, os EUA anunciaram abertura de investigação com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 foi instaurada pelo USTR em julho de 2025, como uma das medidas anunciadas por Trump em reação ao que o republicano classificou como uma "caça às bruxas" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O governo americano incluiu no processo investigações sobre práticas em diferentes frentes: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; a regulamentação das Big tech pelo Supremo Tribunal Federal, tarifas "injustas ou preferenciais"; leis anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal.

Os alvos vão desde queixas antigas de Washington, como as tarifas brasileiras sobre a importação de etanol, até o Pix ?empresas americanas de cartão de crédito alegam que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema de pagamento instantâneo, o que o governo Lula nega.

Lula pretende transmitir a Trump a mensagem de que, em relação às Big Tech, regulamentações como o ECA Digital, a decisão do STF sobre o Marco Civil que aumenta a responsabilidade das plataformas e, eventualmente, a lei de misoginia, não seriam discriminatórias contra empresas americanas, pois seriam aplicadas a qualquer empresa do setor que atue no Brasil.

Além da apuração aberta em 2025, o Brasil entrou na mira de outra ação do USTR, iniciada neste ano, para analisar se produtos fabricados com trabalho forçado estão entrando no mercado americano.

Esse processo avalia práticas em cerca de 60 países e foi lançado poucas semanas após a decisão da Suprema Corte que derrubou o tarifaço. Segundo especialistas, o objetivo dos EUA é mirar no comércio de parceiros com a China.

O plano do governo Trump é que essa segunda investigação tenha tramitação acelerada e que as conclusões do USTR sejam publicadas em prazo mais curto do que o período tradicional, de cerca de um ano.