WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Alex Sinclair entrou em um café na região central de Israel. Vestia um quipá, espécie de chapéu usado por homens judeus para expressar sua religiosidade. Não havia nada de incomum. A não ser pelas duas bandeiras estampadas no quipá -a de Israel e a da Palestina.
Um homem passou e, indignado, reclamou da vestimenta. Sinclair não deu ouvidos. "Cinco minutos depois, a polícia entrou e me deteve", diz ele à Folha. Passou meia hora na delegacia. Devolveram o quipá quando, por fim, o soltaram. Mas tinham cortado a parte com a bandeira da Palestina.
O episódio, ocorrido no último dia 20, repercutiu em Israel. Não pela gravidade do ocorrido em si, mas pelo simbolismo. A imagem do quipá com a bandeira da Palestina mutilada gerou um intenso debate público, com destaque nos principais jornais, como o Haaretz e o Jerusalem Post.
"O que aconteceu comigo mostra o quanto a polícia foi politizada nos últimos anos em Israel", diz Sinclair.
Apesar de não haver uma lei explícita contra o uso de bandeiras palestinas, as forças de segurança por vezes interpretam o símbolo como uma incitação à violência. Palestinos também sofrem essas restrições ao usarem melancias como símbolo, uma vez que a fruta tem cores parecidas com as da bandeira (preto, branco, vermelho e verde).
Sinclair, 53, nasceu em Londres e se mudou para Israel em 1997. Leciona na Universidade Hebraica, uma das instituições mais prestigiosas do país, e presta consultoria a organizações filantrópicas.
Descreve-se em dois eixos. "Sou uma pessoa religiosa de esquerda e acredito no direito dos judeus à autodeterminação e na sua conexão com esta terra", diz. "Mas também acredito que os palestinos têm uma conexão com esta terra e que a solução de dois Estados é a única saída."
A chamada solução de dois Estados é uma ideia que circula há décadas, propondo um Estado para os israelenses e outro para os palestinos, com o objetivo de encerrar o ciclo de violência. Essa possibilidade, no entanto, está cada vez mais remota. Entre outras razões, porque o governo de Israel tem expandido seus assentamentos na Cisjordânia, considerados ilegais pela comunidade internacional. Hoje, os palestinos controlam apenas trechos de um território fragmentado e não contíguo.
Sinclair quis que seu quipá refletisse sua religiosidade, seu comprometimento com Israel e seu apoio aos palestinos. Não existia tal quipá no mercado. "Não é um produto muito cobiçado", brinca. Há 20 anos, encomendou o acessório sob medida em Jerusalém, com as bandeiras.
Segundo ele, o quipá suscitou reações variadas em duas décadas. Algumas delas incluíam desconhecidos dizendo coisas como "você enlouqueceu?" ou "você está usando a bandeira dos nossos inimigos???"
Seus amigos, inclusive, disseram-lhe, com o tempo, que não gostavam da vestimenta. "Tudo bem, não espero que todo o mundo concorde comigo", afirma. "Mas, por isso, tivemos conversas complexas e importantes, e eu senti que passaram a me entender um pouco melhor."
A situação mudou nos últimos anos, sugere. Em especial, desde que Itamar Ben-Gvir entrou para o governo de Binyamin Netanyahu, ocupando, desde 2022, a pasta da Segurança Nacional. "Israel está cada vez mais à direita religiosa e se tornando fascista", diz Sinclair. "Acho que ainda não chegamos lá, só que estamos caminhando nessa direção."
Ben-Gvir emergiu de correntes ultranacionalistas de direita. Chegou a fazer parte do movimento kahanista, que defendia, entre outras coisas, que apenas judeus pudessem votar em Israel. Ben-Gvir também foi criticado por manter, durante anos, um retrato de Baruch Goldstein em casa -homem que matou 29 palestinos em um atentado em Hebron, em 1994.
Sinclair diz, dessa maneira, que o conflito não é entre israelenses e palestinos, e sim entre moderados e extremistas de ambos os lados. "A maior parte está interessada na paz e na convivência, e vamos vencer."
No meio-tempo, Sinclair afirma que pretende aproveitar toda a atenção dada à sua detenção para falar mais sobre a sua ideologia. "Quero trazer o holofote sobre aquilo em que acredito ser o melhor para o futuro deste país", diz.
Estuda, agora, tomar medidas legais contra a polícia. À imprensa a corporação disse que investiga o ocorrido. "Durante o tratamento da ocorrência, o indivíduo foi levado à delegacia, onde, após esclarecimentos, acabou liberado. Como uma denúncia foi apresentada à Divisão de Investigações Internas da Polícia, vinculada ao Ministério da Justiça, não é possível fornecer mais detalhes neste momento", disseram as autoridades em resposta à BBC.
O professor afirma ainda que planeja voltar à mesma loja onde, há 20 anos, encomendou seu quipá com as duas bandeiras.
