MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - A tensão das últimas semanas entre Estados Unidos e Vaticano marca o começo de uma nova fase no papado de Leão 14, que completa um ano nesta sexta-feira (8).

Depois de meses iniciais cautelosos, o primeiro pontífice nascido nos EUA mudou o tom gradualmente desde o início deste ano, reagindo de forma cada vez mais direta às ações da Casa Branca. Como efeito, atraiu as ofensas do presidente Donald Trump, às quais o papa tem respondido, sem ceder.

O movimento posicionou Leão 14 como a autoridade mundial com maior poder de crítica ao americano.

Para tentar baixar a temperatura das relações, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, pediu para ser recebido no Vaticano. Encontrou, nesta quinta-feira (7), o papa e o cardeal Pietro Parolin, seu homólogo.

Em nota, a Santa Sé afirmou que foi "renovado o compromisso comum de cultivar boas relações bilaterais" e que, entre os temas tratados, estiveram os "países marcados pela guerra" e a necessidade de trabalhar pela paz, sem detalhes.

A audiência aconteceu quase um mês depois de Trump fazer um ataque sem precedentes ao papa, a quem chamou de "fraco" e "terrível para a política externa". Horas depois, o pontífice rebateu, dizendo que não tinha medo do governo americano e que iria continuar a pregar contra a guerra.

Nesta semana, Trump voltou a criticá-lo. "O papa está colocando em perigo muitos católicos", disse, insinuando que o pontífice concorda com armas nucleares iranianas, o que nunca aconteceu. O papa novamente respondeu. "Se alguém quer me criticar por anunciar o Evangelho, que o faça com a verdade. A Igreja há anos fala contra todas as armas nucleares."

Para Massimo Faggioli, especialista em teologia e estudos religiosos, "a tensão com Trump fez o papado ganhar uma cara diferente, uma face que estava um pouco na sombra antes". "Esse é um segundo início para o pontificado", resume à Folha o professor da Universidade Villanova, nos EUA, onde o papa estudou matemática nos anos 1970.

"Agora estamos entendendo melhor o que está em jogo, o que significa ter o primeiro papa americano. Estamos nos dando conta do quanto é complexo e delicado", diz.

Nos primeiros meses de seu pontificado, Robert Prevost, 70, era definido por vaticanistas como reservado e prudente. Alguns se queixavam aos sussurros da dificuldade de extrair manchetes de suas declarações, um evidente contraste com o antecessor Francisco.

A mudança começou no início deste ano, quando o cenário geopolítico sofreu novo grau de deterioração. Em janeiro, houve o ataque dos EUA na Venezuela, com a captura do ditador Nicolás Maduro. Em fevereiro, EUA e Israel atacaram o Irã, com consequências para além do Oriente Médio.

Ao comentar os fatos, Leão 14 foi se tornando mais incisivo. Um dia depois da operação militar no Irã, disse aos fiéis na praça São Pedro que a estabilidade e a paz não se construíam com "ameaças recíprocas, nem com armas".

Logo depois da Páscoa, uma fala informal a jornalistas foi um ponto de inflexão. Leão 14 chamou de "inaceitável" a ameaça de Trump de destruir uma "civilização inteira", referindo-se ao Irã. O papa ainda sugeriu que os cidadãos se comunicassem com congressistas e autoridades para dizer que eram contra a guerra. Dias depois, veio a ira do presidente.

Para o professor Faggioli, o episódio é histórico porque vai além de um confronto entre duas personalidades. "É um choque entre duas visões de Igreja, de cristianismo, entre duas potências diversas. Quando o linguajar dos EUA usa Deus para legitimar guerras, o Vaticano precisa dizer alguma coisa", afirma.

Que os apelos pela paz fossem ser uma prioridade do papa estava claro desde as primeiras palavras depois de eleito pelos cardeais, em meio a conflitos em Gaza e na Ucrânia. Logo após a fumaça branca, Prevost abriu seu discurso pregando uma "paz desarmada e desarmante".

Mais tarde, ecoando Francisco, também se posicionou sobre imigração, diante da repressão violenta de agentes federais dos EUA contra estrangeiros. "Estão sendo adotadas medidas cada vez mais desumanas, inclusive celebradas politicamente", disse em outubro.

Na semana passada, em outro gesto anti-Trump, nomeou Evelio Menjivar-Ayala, de El Salvador, como bispo de Wheeling-Charleston, nos EUA. O religioso entrou de forma ilegal no país quando era jovem, dentro do porta-malas de um carro.

O fato de Prevost ser americano embaralha as ações de parte do clero dos EUA, em especial a ala mais conservadora, que fez ferrenha oposição a Francisco. Leão 14 é menos atacável não só por ser conterrâneo mas porque suas ações até agora são menos liberais e disruptivas dos que as do antecessor.

Leão 14 voltou a morar no Palácio Apostólico, como faziam os papas antes do argentino, que viveu em uma casa de hospedagem dentro do Vaticano. Na Sexta-feira Santa, retomou gesto de Paulo 6o de carregar a cruz durante todo o percurso da via crucis. Em outubro, permitiu que uma missa em latim fosse celebrada na basílica de São Pedro.

"Leão foi muito eficaz ao reunir em torno de si os bispos americanos. E empurrou os conservadores mais radicais para um ângulo. Agora eles são menos numerosos e mais isolados", avalia o professor.

Ao mesmo tempo, parece disposto a consolidar movimentos iniciados por Francisco, como o processo sinodal e alguma abertura à comunidade LGBTQIA+, ainda que já tenha declarado não ter intenção de alterar a doutrina da Igreja.

Além da paz, outra prioridade é a união da Igreja. Um feito significativo foi a convocação de dois consistórios, reuniões formais do papa com cardeais para discutir decisões e rumos da Igreja, um realizado em janeiro, o próximo marcado para junho. "Estou aqui para escutar", disse ele, em janeiro.

"Leão 14 quer ser apoiado. Ele quer criar consenso em torno de si e governar com menos rupturas dramáticas", diz Faggioli, que lança em breve o livro "Leão 14 e a Igreja Global ? União e Paz", nos EUA e na Itália. "Ele não quer ser um papa carismático como Francisco ou João Paulo 2o, quer ser um papa de governo."

Para as próximas semanas, espera-se a publicação da sua primeira encíclica, documento sobre questões doutrinárias, que deve abordar a inteligência artificial, tema que pode acrescentar ruídos na relação com os EUA. E a intensificação de sua agenda de viagens, com paradas na Itália e na Espanha. Em junho, vai às ilhas Canárias, importante rota de imigração rumo à Europa.

Depois, a Lampedusa, ilha italiana marcada por naufrágios trágicos de imigrantes. Diante do atual embate com a Casa Branca, a data parece ter sido escolhida a dedo: 4 de julho, dia em que os EUA vão celebrar os 250 anos de sua independência.