LIMA, PERU (FOLHAPRESS) - Pela quarta vez consecutiva, Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000), chega ao segundo turno das eleições presidenciais do Peru ?desta vez, para competir com o herdeiro de um projeto político oposto ao do seu pai, o do ex-presidente Pedro Castillo.

A administradora de empresas enfrentará o psicólogo Roberto Sánchez, um ex-ministro do professor rural preso por tentar um autogolpe em 2022. O resultado foi revelado apenas nesta terça-feira (12), mais de um mês após o primeiro turno e a 26 dias da rodada definitiva, que será no dia 7 de junho.

Quem tinha uma preferência precisou acompanhar a contagem voto a voto. O terceiro colocado, Rafael López Aliaga, começou a apuração se encaminhando para o segundo turno, mas logo nos primeiros dias foi ultrapassado por Sánchez, que terminou com menos de 0,2% dos votos na frente.

O arranjo final é uma reedição das eleições de 2021, quando Castillo foi eleito presidente após derrotar Keiko. Na ocasião, o antifujimorismo foi suficiente para eleger o adversário da candidata, mas não para mantê-lo no poder ?no ano seguinte, Castillo tentou dar um autogolpe para se livrar de uma destituição do Congresso, mas acabou preso.

A demora da apuração coroou uma jornada eleitoral repleta de percalços. No primeiro turno, os problemas no pleito obrigaram as autoridades a atrasar em uma hora o fechamento das urnas e reabrir, na segunda, os 13 centros de votação na região metropolitana de Lima que haviam permanecido fechados na véspera por falta de material eleitoral, afetando mais de 50 mil eleitores.

Os número de votos, embora pequeno diante da população, importavam no contexto de alta fragmentação do país e proximidade entre o segundo e o terceiro colocados.

O caos na votação foi o pretexto que faltava para Aliaga, um ultradireitista que pretendia ser o Trump peruano, denunciar uma fraude no pleito que ainda não conseguiu provar. "Dou 24 horas para declarar esta fraude eleitoral absolutamente nula e sem efeito", afirmou o político a centenas de apoiadores que, convocados por ele, reuniram-se em frente ao Conselho Nacional de Eleições dias depois das eleições.

Uma declaração preliminar dos observadores da União Europeia não menciona fraude e afirma que os órgãos eleitorais "demonstraram um firme compromisso com a transparência e a neutralidade" e "mostraram sua determinação em fortalecer a confiança do público e dos candidatos no processo eleitoral".

A população foi às urnas em meio a uma crise que já alçou nove políticos à cadeira presidencial em uma década, alguns deles por apenas alguns meses. Apesar do exercício de sobrevivência no qual a Presidência do Peru se transformou diante de um Congresso fortalecido, 35 candidatos tentaram ser os novos líderes do país neste fim de semana.

A presença de Keiko no segundo turno não foi uma surpresa ?além de Castillo em 2021, a ultradireitista já enfrentou o banqueiro Pedro Pablo Kuczynski em 2016 e o ex-militar Ollanta Humala em 2011. Em nenhum momento, porém, a sua ascendência pareceu tão providencial para a conjuntura do país.

A taxa de homicídio no Peru duplicou em dez anos, chegando a 10,7 a cada 100 mil habitantes em 2025 e fazendo a violência virar o principal problema do país para mais da metade da população, que saiu às ruas para protestar contra a falta de segurança no ano passado.

"São os peruanos que mais desejam uma política linha dura como a que meu pai implementou", afirmou a candidata em entrevista divulgada na véspera do pleito pelo Canal N . "O tempo está colocando as coisas em seu lugar e, hoje, quando o Peru sangra pelos delinquentes e os extorsionistas, o que pedem é um Fujimori. Aqui estou!", continuou, no mesmo tom, à agência de notícias AFP.

As duas falas mostram a sua nova estratégia nesta quarta campanha: abraçar completamente o legado do pai, em vez de tergiversar sobre o político condenado a 25 anos de prisão por crimes de corrupção e violações de direitos humanos. Seu dia da votação do primeiro turno, aliás, começou no túmulo de Fujimori.

Morto em 2024 em casa após receber um indulto humanitário, o ditador é lembrado pelo combate às guerrilhas Sendero Luminoso e Movimento Revolucionário Túpac Amaru após um autogolpe, em 1992. A repressão do regime incluiu pelo menos dois massacres envolvendo civis.

Keiko pretende resgatar a política de tribunais com "juízes sem rosto", medida usada por seu pai nos anos de 1990 que levou à prisão de centenas de inocentes, de acordo com organizações de direitos humanos. Ela prometeu ainda construir mais prisões e, assim como seu pai, sair da Corte Interamericana de Direitos Humanos ?a mesma que rejeitou a decisão do Tribunal Constitucional do Peru de libertar o ditador em 2023.

"Propomos política linha dura, resolução absoluta para controlar as fronteiras, retomar o controle das prisões, retomar as buscas, fazer com que os presos e detentos trabalhem para obter sua comida, reintegrar juízes sem rosto e, com isso, teremos que deixar a corte", disse a candidata no início de abril.

Keiko também absorveu a agenda anti-imigração, repaginando o radicalismo de seu pai para a ultradireita do século 21. "Expulsaremos os cidadãos sem documentos", afirmou ela, que é neta de imigrantes japoneses, à AFP. A comunidade venezuelana no Peru, a mais numerosa do país, conta com 1,6 milhão de pessoas ?14% sem residência autorizada.

Pesa contra ela, no entanto, o protagonismo que assumiu no Congresso, uma instituição rejeitada por 87% da população, de acordo com uma pesquisa do Instituto de Estudos Peruanos, e frequentemente apontada como responsável pelo caos político que o país vive com a destituição em série de presidentes.

Mesmo diante desse Legislativo hipertrofiado que deu pouca margem de manobra para Castillo, Sánchez, adversário de Keiko, apostou em uma campanha na qual emula seu padrinho político ?inclusive usando o típico sombreiro pelo qual o sindicalista ficou conhecido.

O candidato foi o único ministro a sobreviver no gabinete do ex-presidente nos menos de dois anos que durou seu mandato. Todo o restante acabou substituído nas diversas trocas realizadas pelo governo para tentar se manter no poder em meio à instabilidade política.

Em um comício no centro histórico de Lima no início de abril, no qual chegou a cavalo, Sánchez prometeu libertar Castillo, a quem chama de preso político, caso chegue ao poder. "A direita golpista nunca o deixou governar", continuou, em referência ao que chama de "pacto mafioso" entre a direita e a "esquerda traidora" no Congresso.

"Irmãos e irmãs, cabe ao movimento popular, ao povo do Peru de todas as origens, assumir a tarefa histórica de restaurar a democracia, apoiando um projeto político que busca democratizar a riqueza de nossa nação e transformar a educação e a saúde em direitos fundamentais", completou ele no comício.

O candidato promete a "refundação da pátria" com uma nova Constituição, um Estado plurinacional com maior autonomia para as regiões e o aumento do controle estatal sobre recursos naturais, embora essa possibilidade seja remota no cenário atual da política peruana.

A posse do vencedor deve ocorrer em julho.