NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - Em meio às galerias de arte espalhadas pelo bairro de Tribeca, em Nova York, um letreiro chama a atenção. Está escrito: "Sala Memorial de Leitura Donald Trump e Jeffrey Epstein". Pessoas se enfileiram na porta, apresentam um QR Code e entram no local.

A exposição temporária reúne pilhas de documentos que ocupam prateleiras do chão ao teto. São 3,5 milhões de páginas de arquivos liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA sobre Jeffrey Epstein ? o financista condenado por abuso sexual que morreu em 2019 em uma prisão federal.

O projeto é uma iniciativa do Institute for Primary Facts, organização sem fins lucrativos sediada em Washington que atua em defesa da transparência pública. Para visitar a exposição, é necessário fazer um cadastro no site, e o endereço exato ?por razões de segurança? só é enviado 24 horas antes do horário agendado.

"Estamos sentados em uma sala com mais de 7 toneladas de evidências de um dos piores crimes da história americana", afirmou David Garrett, fundador do instituto, em entrevista à Folha. Segundo ele, a exposição nasceu da percepção de que os documentos divulgados pelo governo não receberam a atenção pública que mereciam.

O objetivo declarado é duplo: pressionar o governo americano a divulgar mais informações sobre o caso e dar visibilidade à relação entre o financista e Trump. Por isso, além das cópias dos documentos expostas no local, há uma longa linha do tempo que retrata a relação entre os dois.

"As pessoas veem fotos de Trump e Epstein nas notícias, mas não têm o contexto", disse Garrett. "Aqui conseguem entender a dimensão dessa convivência."

Segundo ele, "Donald Trump e Jeffrey Epstein levaram vidas notavelmente semelhantes e foram amigos por décadas". "A única diferença é que um deles morreu na prisão e o outro é o presidente", afirmou.

Nas paredes, estão expostos momentos como o encontro entre Epstein e Trump em 1987, quando se tornaram vizinhos em Palm Beach, na Flórida. Em entrevista à New York Magazine, Trump afirmou conhecer Epstein havia 15 anos. "É muito divertido estar com ele", disse na época.

Segundo relatos publicados pela imprensa americana, Trump teria rompido relações com o financista em 2007, após Epstein supostamente se comportar de maneira inadequada com uma adolescente em Mar-a-Lago, resort do presidente na Flórida. Documentos indicam que Epstein teve sua associação ao clube encerrada naquele ano.

Trump, por sua vez, já declarou em diversas ocasiões que rompeu relações com Epstein antes de as acusações virem à tona e nega qualquer envolvimento nos crimes atribuídos ao financista.

A exposição conta com uma ala dedicada às vítimas, com velas acesas em homenagem a elas. No andar inferior, sofás e um painel convidam os visitantes a registrar o que sentiram ao passar pelo espaço.

Garrett critica duramente o Departamento de Justiça, acusando-o de ter agido de forma irresponsável ao liberar parte dos arquivos sem ocultar adequadamente os nomes das vítimas ?enquanto teria preservado a identidade de possíveis cúmplices e testemunhas. "O Departamento de Justiça alcançou seu objetivo de tornar impossível para a imprensa ou para o público buscar uma responsabilização real", afirmou.

Por isso, o acesso direto aos documentos completos é restrito. Apenas jornalistas, membros do Congresso e advogados das vítimas podem consultá-los integralmente, em horários específicos ? medida que, segundo os organizadores, busca proteger dados pessoais expostos pelo governo.

O discurso dos organizadores vai além do caso criminal e assume tom político explícito. Para Garrett, a falta de transparência sobre os arquivos representa um risco estrutural para a democracia americana. "A corrupção é o que transforma democracias em autocracias", disse.

A exposição permanece em Nova York até 21 de maio. Em seguida, os organizadores planejam levá-la a outras cidades, como Washington.