SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ministro da Segurança Nacional de Israel, o extremista Itamar Ben-Gvir, publicou um vídeo nesta quarta-feira (20) que mostra ativistas com as mãos amarradas e a testa apoiada no chão, em uma embarcação militar, enquanto o hino nacional israelense é reproduzido em volume alto. O grupo integrava uma flotilha com destino à Faixa de Gaza, interceptada pelas forças de Tel Aviv no mar Mediterrâneo.
A gravação também mostra os detidos já em território israelense. Em um dos trechos, Ben-Gvir aparece agitando uma bandeira de seu país. A publicação é acompanhada das legendas "Bem-vindos a Israel" e "É assim que aceitamos os apoiadores do terrorismo".
A gravação motivou reações duras dentro e fora de Israel. O ministro das Relações Exteriores israelense, Gideon Saar, criticou a divulgação do vídeo e acusou Ben-Gvir de prejudicar a imagem internacional do país. "Você conscientemente causou danos ao nosso Estado com essa exibição vergonhosa ?e não foi a primeira vez", escreveu o chanceler, acrescentando que o material compromete esforços diplomáticos e militares conduzidos após a interceptação do grupo.
Já o premiê Binyamin Netanyahu disse ter ordenado a deportação dos ativistas, mas afirmou que "a maneira como Ben Gvir lidou com eles não está de acordo com os valores e normas de Israel".
Os cerca de 430 integrantes da flotilha com destino a Gaza, interceptada pelas forças de Tel Aviv no mar Mediterrâneo, começaram a ser transferidos nesta quarta para o território de Israel, onde permanecem detidos antes da deportação. Quatro brasileiros estão no grupo.
Segundo o Ministério das Relações Exteriores de Israel, os ativistas foram retirados de suas embarcações e levados para navios israelenses após a interceptação, ocorrida na costa do Chipre.
A mais recente flotilha era composta por quase 50 barcos e havia partido do sul da Turquia na quinta-feira (14) da semana passada passada. Os organizadores afirmam que a missão tinha como objetivo levar ajuda humanitária ao território palestino e desafiar o bloqueio naval mantido por Israel.
Na segunda (18), os ativistas anunciaram que forças de Israel haviam começado a subir a bordo das embarcações. Vídeos divulgados em seguida mostram militares israelenses disparando contra ao menos dois barcos. Tel Aviv afirmou que suas forças fizeram apenas "disparos de advertência".
Esta foi a terceira tentativa do grupo, em um ano, de alcançar a Faixa de Gaza por via marítima. Missões anteriores também foram interceptadas por Israel em águas internacionais.
Netanyahu classificou a iniciativa de mais um "projeto mal-intencionado". O governo israelense afirma que não permitirá violações do bloqueio naval imposto ao território palestino.
Segundo os organizadores da flotilha, os participantes são de 40 países. Entre eles estão parlamentares, jornalistas e ativistas internacionais. Os brasileiros Beatriz Moreira, militante do Movimento de Atingido por Barragens; Ariadne Teles, advogada de direitos humanos e coordenadora da Global Sumud Brasil; Thainara Rogério, desenvolvedora de software, nascida no Brasil e cidadã espanhola; e Cássio Pelegrini, médico pediatra, estão no grupo.
A organização israelense de direitos humanos Adalah divulgou que os ativistas foram levados ao porto de Ashdod, no sul de Israel, e mantidos sob custódia enquanto advogados tentavam obter acesso jurídico aos detidos. Ainda de acordo com os organizadores, os ativistas deveriam ser transferidos para a prisão de Ketziot, localizada no deserto do Negev.
O Ministério das Relações Exteriores da Itália confirmou que havia cidadãos italianos a bordo, incluindo um parlamentar e um jornalista. Já a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, classificou de inaceitável o tratamento dado aos ativistas detidos.
O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, também criticou a operação israelense. Segundo ele, cidadãos de seu país estão entre os detidos. "Qual é a base legal para essas prisões?", questionou. "Se houver conflito, Israel pode apreender e deter embarcações de terceiros países? Deter nossos cidadãos por razões não justificadas pelo direito internacional é excessivo e desumano."
Os organizadores da flotilha dizem que Gaza continua enfrentando escassez de alimentos, medicamentos e suprimentos básicos, apesar do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos entre Israel e o Hamas, em vigor desde outubro de 2025. Entidades humanitárias afirmam que a entrada de ajuda ainda permanece insuficiente.
O Hamas, aliás, também criticou as imagens divulgadas por Ben-Gvi. "Nós afirmamos que as cenas de tortura e humilhação orquestradas pelo ministro sionista fascista e criminoso, (Itamar) Ben-Gvir, durante a prisão de ativistas da Flotilha Global Sumud, são uma expressão da depravação moral e do sadismo que governam a mentalidade dos líderes da entidade inimiga criminosa (Israel)", escreveu o grupo terrorista em comunicado.
Israel, por sua vez, nega restringir o fornecimento de suprimentos aos moradores do território palestino. O país mantém controle de 60% da Faixa de Gaza desde o cessar-fogo, enquanto o Hamas domina uma pequena faixa litorânea.
A guerra em Gaza começou após os ataques do Hamas contra Israel em outubro de 2023. Desde então, a maior parte dos mais de 2 milhões de habitantes do território palestino foi deslocada. Muitos vivem em prédios destruídos, tendas improvisadas ou acampamentos erguidos sobre os escombros deixados pelos combates.
