SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Uma nova exposição do Musée d'Orsay, na França, tenta solucionar alguns dos capítulos mais obscuros do saque de obras de arte promovido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A iniciativa reúne pinturas que podem ter sido roubadas ou vendidas sob pressão durante o conflito e cuja origem ainda permanece cercada de dúvidas.

Batizada de "Who Owns These Works?" ("Quem é dono dessas obras?"), a mostra foi criada com um objetivo incomum. Segundo o mundo, o intuito é localizar possíveis herdeiros das famílias que perderam obras de arte durante a ocupação nazista na Europa.

Obras sem dono definido há décadas. O Museu d'Orsay, conhecido por abrigar uma das maiores coleções impressionistas do mundo, possui atualmente 225 obras classificadas na França como "MNR" ("Musées Nationaux Récupération"). Essas peças foram recuperadas após a guerra, mas nunca tiveram seus proprietários identificados oficialmente.

Na nova exposição, 13 dessas obras estão em exibição em sistema rotativo. Algumas foram posicionadas entre painéis de vidro para que os visitantes possam observar não apenas a frente, mas também o verso das pinturas, onde etiquetas, carimbos e inscrições podem ajudar a reconstruir a trajetória percorrida pelas peças durante a guerra.

Entre os casos que mais chamam atenção está a pintura "O Jantar no Baile", de Edgar Degas. A obra foi comprada em 1919 pelo colecionador judeu Fernand Ochsé, morto em Auschwitz em 1944. Depois disso, a trajetória da pintura se torna incerta. "O que não sabemos é como ela passou do Sr. Ochsé para o Sr. Coutot. Foi uma venda forçada?", indagou François Blanchetière, curador do Museu d'Orsay, ao The New York Times.

Mercado de arte virou alvo dos nazistas. Segundo pesquisadores do museu, o regime nazista utilizou seu enorme poder econômico para comprar, confiscar e transferir obras de arte pela Europa ocupada. Muitas peças pertenciam a colecionadores judeus perseguidos durante o Holocausto.

"No momento em que os nazistas chegaram aos territórios ocupados, eles tinham um enorme poder de compra. Eles se lançaram sobre o mercado. Havia uma enorme sede tanto pelos bens de colecionadores judeus quanto por aquisições para expandir os museus alemães", disse Ines Rotermund-Reynard, chefe de pesquisa de procedência do Museu d'Orsay, à Associated Press.

A exposição inclui ainda um retrato do artista belga Alfred Stevens adquirido "para Hitler" em 1942. Além de uma paisagem atribuída a Paul Cézanne que chegou a ter sua autenticidade questionada após retornar à França no pós-guerra.

Mais de 100 mil artefatos culturais foram saqueados da França durante a guerra. Cerca de 60 mil acabaram recuperados posteriormente e aproximadamente 45 mil foram devolvidos aos donos originais. Ainda assim, milhares de peças permaneceram sem identificação definitiva.

Nas últimas décadas, museus europeus passaram a ampliar os esforços de restituição. O próprio Louvre abriu em 2018 salas dedicadas exclusivamente a obras saqueadas pelos nazistas. Em 2024, duas pinturas roubadas de uma família judia durante a ocupação alemã foram finalmente devolvidas aos descendentes, que decidiram doá-las novamente ao Louvre.

Durante muito tempo, a administração simplesmente esperou que os beneficiários reivindicassem uma determinada obra de arte. Agora, tentamos estudar a origem das obras e identificar quem foi despojado naquela época Thierry Bajou, curador do Ministério da Cultura da França, ao The Times em 2018

Exposição pode ajudar famílias a reconhecer peças. O Museu d'Orsay afirma que a exposição continuará sendo atualizada conforme novas informações surgirem. Atualmente, seis especialistas trabalham exclusivamente na investigação da origem das obras restantes.

Para alguns visitantes, a mostra também funciona como um memorial silencioso das famílias destruídas pela guerra. "Você passa a vida inteira ignorando essas legendas. Agora eu vou lê-las", afirmou Daniel Lévy, visitante da exposição, à Associated Press. "Minha avó perdeu alguns familiares nos campos de concentração. Algumas dessas pinturas provavelmente estavam penduradas em casas como a dela."