MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Em sua primeira encíclica, dedicada à inteligência artificial, o papa Leão 14 alertou para os riscos dos seus efeitos sobre o trabalho e novas formas de escravidão, sobre guerras e um colonialismo "de rosto inédito", sobre a desinformação e a dependência digital.

O pontífice pediu que os católicos permaneçam "fiéis à verdade", que invistam em educação digital, que cuidem das relações com "presença física" e priorizem a justiça e a paz. Da comunidade internacional cobrou "quadros jurídicos adequados" e "vigilância independente". E instigou a classe política a agir para "reduzir a velocidade onde tudo se acelera".

Chamada de "Magnifica humanitas" (humanidade magnífica, em latim), o texto de 245 parágrafos foi publicado nesta segunda-feira (25) pelo Vaticano, pouco mais de um ano depois da eleição do americano Robert Prevost, 70. Seu subtítulo é "sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial."

"Desarmar a IA significa subtraí-la à lógica da competição armada, que hoje não é apenas militar, mas também econômica e cognitiva", escreveu Leão 14. "[Desarmar] não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano. Significa retirá-la dos monopólios, torná-la discutível, contestável e, portanto, habitável."

Encíclicas são textos aprofundados sobre temas escolhidos pelo papa. Direcionadas a todos os católicos ?hoje cerca de 1,4 bilhão?, são consideradas uma indicação das prioridades do pontificado.

O texto está organizado em cinco capítulos, além de introdução e conclusão, e contextualiza o tema da IA sob o ponto de vista teológico e da Doutrina Social da Igreja, centrada nos princípios do bem comum. "Nas escolhas relativas a fluxos econômicos e plataformas digitais, na gestão dos dados e dos algoritmos, não se pode permitir que poucos sujeitos orientem sozinhos os processos", diz.

Para o papa, o mercado de trabalho é uma das áreas mais expostas a riscos. "É desejável que a tecnologia alivie o homem de trabalhos pesados, repetitivos ou perigosos", afirma. "Porém, o princípio geral deve continuar a ser a proteção dos postos de trabalho e do papel insubstituível da pessoa. O objetivo de maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrifiquem sistematicamente o emprego."

Ao citar "novas formas de escravidão", afirma que parte significativa do funcionamento da economia digital é baseada no "trabalho silencioso" de pessoas que realizam "atividades pouco visíveis", como "etiquetagem de dados, moderação de conteúdos e treino de modelos". Em muitos casos, "são jovens, majoritariamente mulheres, que trabalham arduamente por uma remuneração mínima".

"Os corpos dessas pessoas ficam marcados, feridos e desgastados para que o fluxo computacional possa continuar ininterruptamente", diz. "Essa realidade desafia profundamente a consciência moral de nosso tempo."

O papa também reconhece que a Igreja Católica não condenou veementemente a escravidão transatlântica até o século 19 e fez um pedido de desculpas pessoal. "Isso constitui uma ferida na memória cristã", escreveu ele. "Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão."

O papa aborda o uso da IA em conflitos, nos quais atua com fator de aceleração. "A guerra visível é acompanhada por formas híbridas: ataques cibernéticos, manipulação da informação, campanhas de influência, automatização de decisões estratégicas", escreveu. O risco é que a técnica, "dissociada da ética e da responsabilidade", torne mais rápida e impessoal "a decisão sobre a vida e a morte".

A paz é um dos temas centrais desse início de pontificado e, nas últimas semanas, motivou atritos entre o papa e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu vice, J. D. Vance. "A guerra não é só combatida, mas também preparada culturalmente através de narrativas simplistas, lógicas de amigo-inimigo, desinformação e medo", diz Leão 14.

"Hoje, mais do que nunca, é importante reafirmar que foi superada a teoria da ?guerra justa?, invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra. (...) Para enfrentar os conflitos, a humanidade dispõe de instrumentos muito mais eficazes (...), como o diálogo, a diplomacia e o perdão."

Leão 14 fala de um colonialismo de "rosto inédito", em novas "terras raras do poder". "Inteiros territórios, sobretudo aqueles com menor relevância geopolítica e maior fragilidade estrutural, são atualmente atravessados por uma nova lógica de extração: a dos fluxos sanitários, perfis epidemiológicos, mapas genéticos e dados demográficos."

Tudo isso para, segundo ele, "desenvolver modelos preditivos, orientar estratégias de investimento, antecipar crises e, sobretudo, selecionar quem e o que importa".

O documento dá ênfase aos impactos da IA na comunicação, setor em que age como "poderoso multiplicador" de desinformação. "Ferramentas que poderiam favorecer o debate e a participação são frequentemente utilizadas para construir narrativas distorcidas e anular as distinções entre o verdadeiro e o falso, misturando dados e opiniões", afirma o papa.

Para ele, "só a busca partilhada da verdade factual, assumida como bem comum, pode dar origem a uma correta comunicação". E destaca o papel do jornalismo. Promover uma "ecologia da comunicação", diz, "implica o reforço dos organismos intermédios, um jornalismo sério e espaços de debate onde prevaleçam a argumentação e a averiguação, em vez da reação impulsiva".

Nas conclusões, Leão 14 pede que os fiéis cuidem das relações presenciais. "O coração humano conserva uma necessidade inalienável de proximidade. Convido a preservar os lugares e os momentos em que a presença física continua a ser decisiva: a mesa partilhada, a comunidade cristã que se reúne, a visita a quem está só, o serviço aos pobres."

E defende a educação para a vida digital, ajudando os mais jovens a reconhecer riscos. "Educar as novas gerações para acreditarem que a evolução das tecnologias não segue um percurso inevitável, mas que pode ser orientada pela responsabilidade pessoal e coletiva", diz o documento.

Nesta segunda, o papa rompeu com a tradição do Vaticano e participou pessoalmente da apresentação da encíclica, na sala do Sínodo, no Vaticano. Antes, esse tipo de documento costumava reunir somente cardeais e outros especialistas.

Falando em inglês, ele disse que a Igreja era chamada, em momentos importantes da história, a decifrar "coisas novas" à luz do Evangelho e da dignidade humana. Há 135 anos, Leão 13 escreveu a encíclica "Rerum novarum" (das coisas novas), em que defendia melhores condições para trabalhadores no contexto da Revolução Industrial. Foi a primeira encíclica social da história.

"Hoje, enfrentamos uma transformação de magnitude parecida, com consequências talvez até maiores", afirmou o papa. "A inteligência artificial já impacta muitas áreas de nossas vidas e influencia decisões que moldam a convivência humana. Ela também está mudando drasticamente a forma como a guerra é travada."

Além de cardeais integrantes da Cúria Romana, estava presente no evento Christopher Olah, cofundador da Anthropic (EUA), uma das principais startups de IA do mundo, dona do chatbot Claude. A empresa está em disputa com o Pentágono, nos EUA, sobre o uso de suas ferramentas para fins militares.

Em seu discurso na apresentação da encíclica, Olah afirmou que existe "uma possibilidade real" de a IA substituir o trabalho humano "em larga escala". "Se isso acontecer, apoiar aqueles que forem substituídos será um imperativo moral de proporções históricas", disse. "Todo laboratório de IA de ponta... opera dentro de um conjunto de incentivos e restrições que às vezes podem entrar em conflito com a prática correta", acrescentou.

O empresário ainda saudou o engajamento da Igreja com a tecnologia. "As questões levantadas pela IA são maiores do que a comunidade de pesquisa em IA", disse, ao pedir "críticos sérios e ponderados" que possam desafiar as empresas e ajudar a direcionar a criação de novos sistemas em uma direção positiva.

Olah destacou três áreas que, segundo ele, exigem atenção urgente: o risco de perdas generalizadas de empregos, a necessidade de garantir que os benefícios da IA sejam estendidos globalmente e a questão ainda não resolvida de como interpretar o comportamento cada vez mais complexo e, por vezes, opaco dos sistemas. "O desenvolvimento da IA está concentrado em um punhado de nações ricas. Como podemos garantir que os ganhos da IA sejam compartilhados globalmente?", questionou.

Antes da publicação da "Magnifica humanitas", o tema da IA vinha sendo mencionado frequentemente por Leão. Durante viagem ao continente africano, em abril, afirmou que o avanço dessa tecnologia poderia alimentar "conflitos, medo e violência".

Na última sexta (22), disse que, com a tecnologia, "experimentamos um eclipse do sentido do que significa ser humano". Dias antes, havia aprovado a criação da Comissão Interdicasterial sobre a IA, para a troca informações sobre o tema dentro da Santa Sé.

O tema da inteligência artificial começou a ganhar atenção do Vaticano ainda sob Francisco. Em 2020, foi lançado o Apelo de Roma pela Ética na IA, documento que tentava atrair governos e empresas para o compromisso de uma responsabilidade coletiva no uso da tecnologia.

Em 2024, Francisco foi o primeiro pontífice a participar de uma reunião de cúpula do G7. Seu discurso teve como tema justamente a IA. Para ele, era preciso que seu desenvolvimento fosse rigorosamente supervisionado para preservar a vida e a dignidade humana.