BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - A tendência dos votos já é clara pouco mais de uma hora e meia após o fechamento das urnas na Colômbia, neste domingo (31): o apadrinhado de Gustavo Petro vai enfrentar o ultradireitista Abelardo de la Espriella no segundo turno da corrida pela Presidência, no próximo dia 21 de junho.

Com mais de 97% das mesas apuradas na contagem prévia, Espriella tem 43,7% dos votos, e Iván Cepeda, 40,9% ?ambos longe de conseguir 50% dos eleitores mais um voto, a condição necessária para encerrar a corrida na primeira votação, de acordo com a lei colombiana.

Embora esteja no segundo turno, o resultado prévio tem gosto de derrota para Cepeda, que liderou as pesquisas de intenção de voto durante toda a campanha.

Um levantamento da empresa Invamer divulgado na semana passada, por exemplo, colocava o senador na liderança com 44,6% das intenções de voto. Em seguida, vinha Espriella, com 31,6%, e a representante da direita tradicional, Paloma Valencia, com 14%. A margem de erro do levantamento é de três pontos percentuais.

As últimas pesquisas já mostravam que a popularidade do ultradireitista vinha crescendo. Ele saiu de 21,5% das intenções de voto na Invamer do final de abril para 31,6% na penúltima semana de maio, quando os levantamentos deixaram de ser publicados, de acordo com as regras colombianas.

As urnas fecharam às 16h locais (18h em Brasília), como previsto, após uma jornada eleitoral sem grandes percalços. Incidentes pontuais incluem prisões por supostos crimes eleitorais e um inquérito aberto contra o ministro do Trabalho, Antonio Sanguino, para investigar um discurso por possível envolvimento indevido no pleito.

As mais graves ocorrências foram em Caquetá e Guaviare, onde houve explosões perto de locais de votação, sem causar feridos. As localidades ficam na Amazônia colombiana, região que vive uma semana de tensão. Nos últimos dias, cerca de 50 supostos dissidentes foram mortos em Guaviare durante confrontos entre dois grupos armados, em uma mostra da crise de segurança que o país vive.

Levando em conta o clima da campanha do pleito, um dos mais polarizados e violentos dos últimos anos, o saldo do dia foi positivo. Os três principais candidatos relataram ameaças de morte ao longo dos últimos meses, e todos tinham um aparato de segurança especial para comícios.

A votação ocorre um ano após o então pré-candidato de direita Miguel Uribe ser alvo de um atentado a bala durante um comício em Bogotá. O político, cuja mãe foi uma jornalista sequestrada e morta por ordem de Pablo Escobar na década de 1990, morreu dois meses depois em decorrência dos ferimentos.

A violência não deu trégua nos meses seguintes, em uma mostra da crise de segurança que a Colômbia vive. Na semana passada, o senador Alexander López também sofreu um ataque a balas na rodovia que liga Popayán a Cali, conhecida pela presença de grupos criminosos e, em fevereiro, a senadora indígena Aida Quilcué, candidata a vice-presidente na chapa de Cepeda, foi sequestrada por um grupo armado e liberada horas depois.

A criminalidade parece responder a uma nova forma de atuação dos grupos armados do país, dez anos após o acordo com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Embora ainda contem com o fato de que a Colômbia é o principal produtor de cocaína do mundo, essas facções já diversificaram as suas atividades com garimpo, contrabando de migrantes, tráfico de madeira e sequestro ?esse último, um crime que triplicou ao longo do mandato de Petro, com uma explosão em 2025.

O cenário explica o apelo do discurso de Espriella, um advogado que nunca ocupou nenhum cargo eletivo e promete liberar o porte de armas, acabar com o tribunal criado pelo acordo de paz e construir megaprisões onde os detentos seriam alimentados apenas "com pão e água".

A inspiração é clara e aparece inclusive no visual adotado pelo candidato: barba cuidadosamente alinhada e boné característicos de Nayib Bukele, presidente que governa El Salvador com um estado de exceção há quase quatro anos e transformou o Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo), onde os presos não veem a luz do sol, na maior peça de propaganda da sua gestão.

Apesar da retórica dura contra o crime, o candidato ficou famoso pelos inusuais clientes de seu escritório de advocacia. Passaram por ali estrelas do futebol, paramilitares, narcotraficantes e o empresário Alex Saab, ex-ministro da Indústria e da Produção Nacional da Venezuela e suposto laranja do ditador Nicolás Maduro.

"Hoje se define a liberdade, a democracia e o futuro da Colômbia. Vamos derrotar a tirania no primeiro turno", afirmou Espriella ao votar em Barranquilla. A ideia é a mesma que Cepeda vinha defendendo: pedir votos sob o argumento de que a corrida deveria ser resolvida já neste domingo.

O senador, no entanto, foi mais contido ao depositar seu voto, em Bogotá. "Pela vida e pela democracia", afirmou, em uma clara alusão ao risco às instituições que representa Espriella, em sua visão.

Formado em filosofia na Universidade de Sófia, na Bulgária, o candidato foi representante na Câmara antes de alcançar o cargo de senador, que ocupa atualmente, e pode ser considerado o oposto da figura de Espriella.

O político é filho de Manuel Cepeda, morto em agosto de 1994, um mês após assumir como senador pelo Partido Comunista Colombiano e em um contexto de assassinatos em série de membros da esquerda no país. O episódio é central na trajetória do candidato, conhecido pela calma e por ser articulador de diversos esforços para a paz no país ?incluindo o da Paz Total de Petro, que consistia em negociar com os grupos dissidentes das Farc após os acordos de paz.

Ainda não se sabe como Cepeda vai reagir a um embate com a ultradireita. Durante toda a sua vida, o político se opôs à direita tradicional do país, encarnada na figura de Álvaro Uribe ?foi a partir de um embate com o candidato no Senado que o ex-presidente foi condenado a 12 anos de prisão, um caso que ainda cabe recurso.

Sua adversária natural seria Paloma Valencia, que há anos tenta ser o rosto do uribismo, mas acabou em terceiro lugar. "A nossa política não é a do espetáculo, das alianças criminosas", afirmou, em referência ao estilo barulhento de Espriella ao votar em Bogota neste domingo. "A nossa campanha representa os valores éticos e morais de que a Colômbia precisa."