BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Milhares de pessoas vestindo a camisa amarela da seleção se reúnem em um comício para ouvir seu candidato discursar. Ele acaba de passar para o segundo turno das eleições após derrotar o adversário de esquerda, surpreendendo analistas que o consideravam inadequado demais para ser levado a sério. Atrás do palco, um telão exibe imagens do político prestando continência.

A cena ocorreu neste domingo (31) em Barranquilla. Foi ali que o advogado Abelardo de la Espriella comemorou a vantagem de quase três pontos percentuais sobre o veterano Iván Cepeda, candidato apoiado pelo presidente Gustavo Petro, contrariando o que indicavam as principais pesquisas de intenção de voto para este primeiro turno.

Assim como ele, uma multidão usava a tradicional camisa da Colômbia, amarela, com listras vermelhas e gola azul. Os apoiadores respondiam a um chamado de Espriella, que adotou a estratégia no comício de encerramento da sua campanha, há pouco mais de uma semana.

Ao longo dos últimos dias, encorajou seus eleitores a irem votar com a veste tricolor. "Isso é um sentimento de patriotismo, uma demonstração de amor pela nossa nação e de união entre os colombianos", afirmou o candidato na semana passada, causando desconforto na esquerda, que vê apropriação de um símbolo nacional.

A situação é uma cápsula do tempo para 2018 no Brasil, quando a amarelinha, usada em protestos da direita desde 2013, passou a ser associada ao então candidato à Presidência Jair Bolsonaro, na época mergulhado em sua vitoriosa campanha contra Fernando Haddad (PT).

Desde então, o uniforme e a própria bandeira do Brasil já passaram por muito. Primeiro, pessoas de esquerda reclamaram do apoderamento desses símbolos; em seguida, passaram a evitá-los a todo custo, sob o risco de serem confundidas com seus adversários; por fim, organizaram uma ofensiva para voltar a usar o verde e amarelo, com direito a camisas da seleção com o 13, número do PT, estampado nas costas para votar.

A Colômbia parece estar agora na primeira etapa.

"Por que a camisa da seleção colombiana está sendo usada para fins eleitorais?", escreveu Cepeda na rede social X nesta segunda-feira (1º), em uma espécie de carta aberta para a Federação Colombiana de Futebol. "A seleção colombiana pertence a todos os colombianos. Seu uniforme é um símbolo nacional e está sujeito a restrições comerciais e políticas", continuou, pedindo que a organização se pronuncie.

"Cepeda não consegue compreender a simbologia deste tempo", afirma Omar Rincón, professor de comunicação na Universidade de los Andes, em Bogotá. "Vem dessa esquerda que tem muita dificuldade de compreender toda a nova simbologia, e é isso que o afasta das pessoas. A direita, por sua vez, tem capacidade de usar o fenômeno do futebol, do pop, das redes sociais, do show."

Espriella parece dominar todas essas áreas, em uma grande miscelânea dos políticos de ultradireita que passaram pelo poder na América Latina nos últimos anos.

Em sua campanha, sai o leão do ultraliberal argentino Javier Milei e entra o tigre, animal que aparece em telões, outdoors e publicações nas redes sociais. De Bolsonaro, além da camisa da seleção, Espriella absorveu o gesto de continência e a retórica violenta contra seus adversários: em vez de falar em fuzilá-los, como fez o brasileiro em 2018, o advogado ameaçou estripá-los.

Mas é com Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que o colombiano mais se parece, inclusive fisicamente. Tal qual o salvadorenho, Espriella adotou o boné como marca registrada e usa a barba cuidadosamente alinhada. Em suas redes sociais, vídeos com trilhas sonoras triunfantes e linguagem messiânica disputam espaço com fotos de sua família, assim como as páginas de Bukele.

Também como o líder de El Salvador, o advogado faz de seus comícios um show ?há jogos de luzes, geradores de faíscas em frente ao palco e até chegadas triunfantes pela água, a bordo de um barco. Durante o ato de encerramento de campanha do advogado, um tigre formado por drones iluminou o céu de Barranquilla; em 2024, os mesmos dispositivos formaram um "N" no centro de San Salvador, palco da festa pela reeleição de Bukele.

De acordo com um levantamento da última semana de maio da empresa Invamer, o presidente de El Salvador é o líder mais admirado pelos colombianos: são 55,9% aqueles que afirmaram ter uma visão favorável do líder. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marcou apenas 37,6%. Lula, 22,4%.

Bukele conquistou popularidade dentro e fora de El Salvador com uma política linha-dura quase sem limites ?o presidente governa há quatro anos com um estado de exceção que derrubou o índice de homicídios, ao custo de transformar o país no que mais prende no mundo. A joia de sua coroa é o Cecot (Centro de Confinamento do Terrorismo), prisão que se tornou uma espécie de vitrine da sua gestão.

Em seu plano de governo, o "Propostas do Tigre", Espriella determina que o crime é "o principal inimigo da liberdade, da verdadeira paz e da estabilidade do país". Para atacar o problema, ele defende o direito de portar armas e quer construir megaprisões onde os detentos fiquem "dez andares abaixo da terra" e sejam alimentados "com pão e água".