VIENA, ÁUSTRIA (FOLHAPRESS) - Forças do Irã lançaram neste domingo (7) o primeiro ataque com mísseis contra Israel desde o cessar-fogo acordado em 7 de abril entre Tel Aviv, Washington e Teerã.
A ação ocorreu após Israel atacar o Hezbollah em um subúrbio de Beirute também pela primeira vez desde a trégua, que havia suspendido a guerra lançada por Donald Trump e Binyamin Netanyahu em 28 de fevereiro.
Com isso, o já frágil equilíbrio vigente no Oriente Médio está sob ameaça de implosão. A região assiste a uma guerra abafada em que Estados Unidos e Irã trocam ataques pontuais e os israelenses já dominam 20% do território libanês, algo inédito desde a ocupação de 1982-2000.
A natureza do ataque do Irã, contudo, sugere uma escalada comedida: foram lançadas ao menos três barragens de mísseis contra posições militares israelenses no norte de Israel, de onde é executada a operação militar contra o Hezbollah. A Guarda Revolucionária afirmou ter mirado a base aérea de Ramat David, na região.
"Vocês lançaram seus mísseis, já chega. Voltem à mesa e façam um acordo", afirmou Trump em entrevista à Fox News. Segundo o Exército de Tel Aviv, os 11 projéteis rastreados foram interceptados e não houve danos.
Trump ligou para Netanyahu e disse que iria pedir que ele não retaliasse. Segundo a mídia israelense, o premiê reuniu-se com a cúpula da defesa do país na sequência, mas não há relatos ainda sobre o que foi decidido.
O presidente se queixou, à Fox, de que "estava tudo pronto para assinar um acordo na segunda, terça ou quarta, e agora isso". Não há evidências de que o acerto estava tão próximo, apesar da intensa movimentação dos últimos dias, que foi acompanhada de trocas de fogo pontuais entre os rivais.
Em seguida, ao Financial Times, Trump disse que Netanyahu "não terá escolha a não ser aceitar um acordo com o Irã".
Um dos mais radicais ministros israelenses, Itamar Ben-Gvir (Interior), já havia dito no tom de sempre que Teerã iria "queimar nesta noite". Antes, o negociador iraniano Mohammad Ghalibaf, o presidente do Parlamento, havia repetido a usual ameaça de atacar bases americanas em todo o Oriente Médio.
Não houve relato ainda de ataques a Tel Aviv, Jerusalém ou a bases aéreas do centro e sul do país, sugerindo uma sinalização de força de Teerã enquanto tenta romper o impasse das negociações com os EUA.
Trump as induz com o mesmo voluntarismo com que o presidente americano começou a guerra, apoiado pelo premiê israelense. O republicano foi e voltou diversas vezes na ameaça de retomar os ataques ao Irã, mas até aqui não conseguiu que a pressão lograsse seu primeiro objetivo: reabrir o estreito de Hormuz.
A via, que antes da guerra canalizava 20% do comércio mundial de petróleo e gás natural liquefeito, foi transformada por Teerãa em uma moeda de troca estratégica. Na prática, os iranianos estão conseguindo impor o pedágio que querem ter para a passagem de navios pelo local.
Pelo acordo que vinha sendo costurado com apoio de países árabes, o estreito seria reaberto e as hostilidades cessariam de vez. Um período de 60 dias seria usado então para negociar motivos de fundo de discórdia, como o temor de que o programa nuclear iraniano resulte em uma bomba atômica.
Os interesses israelenses são diversos. Após a trégua com Teerã, Netanyahu reforçou seus ataques contra o Hezbollah. Ao mesmo tempo, abriu uma negociação de paz com o Líbano, mas a situação é algo kafkiana, pois os extremistas pró-Irã não participam da conversa.
Assim, desde que foi acertado um cessar-fogo entre ambos os lados, ainda que Beirute não fosse uma beligerante, foram decretadas tréguas dentro da trégua para que Netanyahu se controlasse. Isso não aconteceu, e na semana passada ele e Trump tiveram uma dura conversa.
Nela, o americano o chamou de "louco para c...", algo que confirmou depois do relato vazar na imprensa dos EUA. Em seguida, Netanyahu buscou dizer que eram apenas divergências normais, ciente de que Trump não pode prescindir de seu maior aliado no Oriente Médio em meio a uma situação tão tensa.
Assim, o Estado judeu seguiu em frente. Os ataques deste domingo, que provocaram a retaliação do Irã, foram os primeiros também desde o cessar-fogo contra uma região majoritariamente xiita ao sul de Beirute, Dahiyeh, que é densamente povoada.
Segundo as Forças de Defesa de Israel, a ação respondia ao lançamento de foguetes contra o norte israelense, de resto uma rotina diária. Desde o cessar-fogo, os israelenses contam mais de 3.500 projéteis disparados naquela frente.
Além disso, os militares de Tel Aviv mantêm suas ações no sul libanês, que ultrapassaram a barreira usual do rio Litani, que sempre serviu de fronteira para a zona-tampão entre suas forças e as do Hezbollah nas tentativas anteriores de acordos de paz. Neste domingo, Israel emitiu um alerta de retirada de moradores para Tiro, no sul do vizinho.
Em outra frente do conflito no Oriente Médio, ataques militares israelenses na Faixa de Gaza mataram pelo menos nove pessoas e deixaram outras 20 feridas.
Um bombardeio atingiu um posto policial controlado pelo Hamas ao lado de um grande acampamento de tendas que abriga famílias deslocadas em Khan Yunis, no sul do território, matando cinco pessoas e ferindo outras 16, informaram médicos. Eles não especificaram quantas das vítimas eram policiais.
Horas depois, um novo ataque aéreo matou quatro pessoas e deixou outras quatro feridas ao atingir um veículo que trafegava pelo centro da Cidade de Gaza, de acordo com profissionais da saúde palestinos. Os militares israelenses não comentaram o caso.
Também neste domingo, o Exército israelense confirmou a abertura de um inquérito criminal para apurar a morte de um bebê palestino na Cisjordânia ocupada. Os militares reconheceram que Sam Fahd Abu Haikal, de sete meses, morreu após um soldado israelense abrir fogo contra o carro da família na sexta (5).
Segundo a versão inicialmente apresentada pelo Exército, um soldado efetuou um único disparo contra um veículo que os militares acreditavam avançar em sua direção.
O pai do bebê, Fahd Abu Haikal, que dirigia o carro em uma área próxima à cidade de Hebron, afirmou que já havia parado o veículo ao avistar soldados na estrada e que um militar, posicionado cerca de dez metros à frente, disparou através do para-brisa.
Os militares israelenses não identificaram os soldados que estavam no local nem informaram se eles continuam exercendo suas funções.
O jornalista viaja a convite da AIEA