BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Ainda não é Copa, mas os peruanos acompanham angustiados o placar. No começo da noite desta terça-feira (9), eram 8.925.345 para Roberto Sánchez e 8.897.395 para Keiko Fujimori --quase 30 mil votos de diferença entre os dois candidatos à Presidência que se enfrentaram no último domingo (7), no segundo turno das eleições.
Ao contrário do que aconteceu no primeiro turno, quando o caos da jornada eleitoral daquele 12 de abril se estendeu para a contagem de votos, o ritmo inicial da apuração chegou a nutrir esperanças de que o novo presidente seria anunciado em no máximo dois dias.
Na noite de domingo, mais da metade dos votos já haviam sido computados. Naquele momento, a filha do ditador Alberto Fujimori estava à frente de Sánchez, mas com pouca vantagem. Foi apenas no começo da tarde da segunda-feira (8), com mais de 90% das atas apuradas, que o aliado do ex-presidente Pedro Castillo passou a adversária e assumiu a liderança.
Desde então, porém, a contagem desacelerou drasticamente.
No começo da noite desta terça, 96,125% das atas haviam sido apuradas. Uma declaração do chefe do Onpe (Escritório Nacional de Processos Eleitorais) nesta terça foi o balde de água fria que faltava. "Pode demorar entre duas semanas até o fim do mês", afirmou Bernardo Pachas à agência de notícias AFP.
Segundo ele, para declarar um vencedor, deverão ser revisadas atas impugnadas que contêm cerca de 450 mil votos, o que poderia levar vários dias. Além disso, a contagem depende da velocidade com que vão chegar votos das zonas rurais e do exterior --dois grupos de eleitores fundamentais para os presidenciáveis em uma disputa tão acirrada.
Levantamentos de empresas de pesquisa não ajudam muito. A boca de urna do instituto Ipsos mostrava Keiko com 50,7% dos votos, ante 49,3% de Sánchez. A da Datum dá 50,53% para a presidenciável do Força Popular e 49,47% para o candidato do Juntos pelo Peru. Já as projeções com base nas atas apuradas nas primeiras horas de contagem mostram Sánchez na frente: 50,3% a 49,7%, no caso da Ipsos, e 50,14% a 49,86%, nos cálculos da Datum.
Todos os levantamentos citados apresentam apenas diferenças numéricas, dentro da margem de erro.
Os votos que faltam são justamente os que devem fazer a diferença para os candidatos. Em 2021, Keiko, que disputa o segundo turno pela quarta vez seguida, conquistou 66% dos eleitores do exterior, ante 33% que optaram por Castillo. Ao todo, foram mais de 300 mil votos, um número nada desprezível para uma eleição que deve ser definida na casa dos décimos.
A população rural, por sua vez, é a base de apoio de Sánchez, que fez da sua campanha um remake da de Castillo, figura ainda popular no interior do país, há cinco anos.
Diante do cenário incerto, ambos os presidenciáveis se mantêm cautelosos. "Eu acredito que é muito prematuro declarar um vencedor, cabe a mim esperar", disse Keiko nesta terça, frisando que ainda faltam várias atas a serem contabilizadas e que elas poderiam "reduzir a diferença" em relação ao seu adversário.
Já o secretário-geral do partido Juntos pelo Peru, Ernesto Zunini, afirmou que aguarda o fim da contagem e que "respeitará os resultados do processo eleitoral".
Quem não se conteve e parabenizou Sánchez antes dos resultados foi o presidente da Colômbia, Gustavo Petro. "O progressismo acaba de ganhar a Presidência do Peru e derrotou a força mais à extrema direita desse país, aquela representada pela família Fujimori", afirmou o líder no X, ao compartilhar a mensagem de um internauta. "Restabelecerei completamente as relações diplomáticas e solicitarei ao novo presidente que iniciemos uma fusão entre o Pacto Andino e o Mercosul."
Em seguida, publicou um vídeo em que Keiko pede para que Petro não meta seu "nariz vermelho" no Peru. "O Peru derrotou o terrorismo, e não vamos aceitar o terrorismo exterior", diz ela. A gravação, porém, é de fevereiro de 2023, quando Petro criticou a destituição de Castillo.
"Se você perder as eleições no Peru, não será por causa da cor da minha pele. Se você perder, será por causa do seu pai, que foi um criminoso contra a humanidade", afirmou o colombiano no X.