SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - O esquerdista Roberto Sánchez aparece numericamente à frente de Keiko Fujimori no segundo turno presidencial do Peru, mas a proclamação oficial pode levar de duas semanas ao fim do mês.
Roberto Sánchez lidera a contagem parcial, com diferença apertada sobre Keiko Fujimori. Com 97% das urnas apuradas, ele tem 50,07% dos votos, contra 49,93% da candidata de direita.
Autoridades eleitorais dizem que o resultado final pode demorar duas semanas ou mais. O chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), Bernardo Pachas, afirmou que a apuração pode ir "entre duas semanas e até o fim do mês", a depender das contestações registradas nas atas.
Centenas de milhares de votos ainda precisam passar por verificação por causa de contestações. Para declarar um vencedor, as autoridades ainda têm de revisar atas impugnadas que somam cerca de 400 mil a 450 mil votos, um processo que pode levar vários dias.
Parte do que falta contar vem do exterior e de áreas rurais, que costumam chegar por último. A autoridade eleitoral não descartou que a contagem se estenda até o início de julho, dependendo da rapidez com que cheguem as atas de fora do país e de zonas rurais.
Os dois candidatos evitaram se declarar vencedores enquanto a apuração segue voto a voto. "Eu acredito que é muito prematuro declarar um vencedor, cabe a mim esperar", disse Fujimori à imprensa, ao afirmar que ainda faltam atas e que elas podem "reduzir a diferença".
Atas contestadas podem passar por mais de uma instância antes de entrar na totalização. Segundo as informações divulgadas, 1.513 atas pendentes precisam ser enviadas aos júris eleitorais especiais (JEE) para decisão em primeira instância, e parte pode seguir ao Júri Nacional de Eleições (JNE), que dá a palavra final.
A logística do voto fora do país também alonga o calendário. O Ministério das Relações Exteriores do Peru informou que a chegada das atas do exterior deve ser concluída três dias após as votações e elas correspondem a 2.506 mesas eleitorais em 73 países.
O Peru já teve uma apuração longa em disputa apertada envolvendo Keiko Fujimori. No segundo turno de 2021, Pedro Castillo venceu Fujimori por 50,12% a 49,87%, e o resultado final foi conhecido seis semanas após a votação.
Uma crise política e o uso frequente de impeachment pelo parlamento fizeram o Peru trocar nove presidentes em 10 anos. O período de instabilidade começou em 2016, após fim do mandato de Ollanta Humala. Mesmo tendo sido o último presidente a concluir o mandato, Humala entregou o cargo com popularidade entre 11% e 15%, situação que o Parlamento aproveitou para ganhar influência.
O cientista político americano Steven Levitsky define o Peru como uma "democracia sem partidos". No país não existem partidos políticos sólidos, históricos ou ideológicos, e por isso funcionam como "veículos eleitorais" temporários ou "empresas de aluguel" criadas apenas para disputar uma eleição em torno de uma figura popular.
Essa característica enfraquece o presidente. Quando um presidente é eleito, ele quase nunca tem uma bancada forte ou fiel no Congresso. Ele governa isolado, sem coalizões reais, tornando-se um alvo fácil para a oposição desde o primeiro dia de mandato.
Quem vencer terá de governar com um Congresso hipertrofiado. Desde 2016, o país viu uma sucessão de presidentes, com renúncias e quedas impulsionadas por um Legislativo que ganhou protagonismo no sistema presidencialista.
O Congresso peruano volta a ter duas Casas, o que pode mudar a dinâmica de crises políticas. A volta do Senado, prevista para julho, reforça o peso do Legislativo e divide especialistas sobre se o modelo trará mais estabilidade ou ampliará o poder de bloqueio.
O partido de Keiko, Força Popular, aparece como a principal bancada nas duas Casas após o primeiro turno. A sigla elegeu 41 de 130 cadeiras na Câmara e 22 de 60 no Senado, enquanto o Juntos pelo Peru, de Sánchez, ficou com 32 de 130 e 14 de 60.
Sánchez diz que quer limitar o uso da "incapacidade moral permanente" para derrubar presidentes. "Temos que recuperar o equilíbrio de poderes, a separação dos poderes, regular a vacância por incapacidade moral permanente no cargo do presidente", afirmou.
Analistas acreditam que um resultado apertado pode aprofundar a instabilidade. "Ainda existe um forte antifujimorismo, embora menor; e Sánchez, pouco conhecido, é uma incógnita. Quem vencer vai deslegitimar o resultado se for apertado. Isso traz mais instabilidade", avalia o analista David Sulmont à agência de notícias AFP.
A Justiça decidiu enviar Sánchez a julgamento por suposta declaração falsa de financiamento partidário. A acusação cita inconsistências nos informes financeiros do partido Juntos pelo Peru entre 2018 e 2020 e menciona mais de US$ 57 mil em aportes não declarados ao Escritório Nacional de Processos Eleitorais.
Sánchez afirma que o caso foi usado para tentar desacreditá-lo politicamente e que vai recorrer. "Durante anos tentaram instalar uma mentira para me desacreditar politicamente", escreveu o candidato em abril, ao comentar o processo.
Na reta final, o candidato de esquerda disse que quer uma relação "respeitosa" com Washington. "A boa vizinhança, as relações respeitosas entre as nações (...) é uma prioridade sempre", afirmou.
Eleitores relatam cansaço com o caos político e pedem transparência na apuração.
"Espero que todo o processo seja realizado com transparência, que o voto do povo seja respeitado", diz Evelyn Pasos, de 43 anos, eleitora.