BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Uma juíza da Colômbia derrubou nesta quinta-feira (11) a decisão de uma colega que proibia Abelardo de la Espriella de usar a camisa da seleção em atos de campanha. A medida se deu enquanto a Copa do Mundo começava no México e dez dias antes do segundo turno das eleições presidenciais que o ultradireitista vai disputar contra Iván Cepeda, aliado de Gustavo Petro.
A ordem inicial, emitida há uma semana, atendia a uma solicitação do cidadão Wilman Ramiro Bocanegra Calderón, que afirmou se sentir discriminado e estigmatizado pelo uso da camiseta por Espriella. A estratégia foi adotada pela campanha do candidato pouco antes do primeiro turno, no qual diversos apoiadores usaram a tricolor.
Na decisão, a magistrada ordenava a interrupção imediata do uso dos símbolos da seleção sob a justificativa de que o ato "cria uma identificação da seleção com uma candidatura específica e compromete a neutralidade dos símbolos nacionais" e confere ao item "um símbolo diferente daquele para o qual foi criado e desenhado".
Para a juíza María Isabel Ferrer, porém, assumir que o item tem uma única função é um argumento falacioso, e a "falta de clareza" em relação ao alcance da proibição "cria um cenário de incerteza jurídica".
Na prática, a decisão não terá muito efeito. O candidato nunca deixou de usar a vestimenta em entrevistas, redes sociais e comícios, mesmo quando a ordem anterior estava em vigor. A proibição, na verdade, pode ter tido o efeito contrário.
"Não conseguiram deter o fenômeno Tigre, porque ele está no coração do povo colombiano", afirmou uma seguidora ao citar a medida nesta quarta (10), usando o apelido de Espriella em uma mensagem compartilhada pelo candidato no X.
Ele também optou por ignorar uma outra decisão da Justiça colombiana: a de remover todos os símbolos pátrios de sua campanha, como a bandeira da Colômbia, o escudo nacional e até mesmo a palavra pátria de seu slogan, "Firmes pela pátria". Em vez de um duro golpe em sua comunicação nacionalista, a ordem parece fortalecer a mensagem antissistema do candidato.
"A partir de hoje, preciso da ajuda de todos: cada celular, cada camisa da seleção nacional que você veste, cada vídeo que você publica dizendo 'Firmes pela Pátria' é um grito por liberdade. Cada vez que você compartilha 'Defensores da Pátria', você faz parte deste movimento de libertação", afirmou o advogado, que nunca havia participado de uma eleição, em um discurso em Cartagena, na noite de terça (9).
Esta última medida havia sido ordenada naquele dia por Rafael Chavarro, do Tribunal Superior de Bogotá, para defender, de acordo com o magistrado, "a preservação da equidade entre os concorrentes, a conservação dos valores que representam o sentimento de pertencimento à nossa nação e a dignificação dos eleitores".
A estratégia de Espriella parece ter provocado bate-cabeça também na campanha de seu adversário.
"O senhor Espriella é acostumado a roubar as coisas. Agora rouba a camisa da seleção colombiana. Desde quando a seleção da Colômbia é patrimônio da campanha do senhor Espriella?", afirmou Cepeda a jornalistas no dia seguinte à eleição na qual ficou atrás do ultradireitista, surpreendendo analistas e institutos de pesquisa de opinião. "Não seja ladrão. Não roube as coisas que pertencem à nação."
Questionada pelo senador, a Federação Colombiana de Futebol pediu para manter a seleção, seus atletas e seus símbolos "fora dos debates políticos ou eleitorais". "A organização tem feito repetidos apelos públicos através de seus canais de mídia social para que suas marcas e logotipos não sejam usados para fins que não sejam esportivos", afirmou.
A crítica, porém, mostrou-se prematura. Nos dias seguintes, apoiadores do senador adotaram a estratégia de também usar a vestimenta, mas com estampas de ícones de esquerda, e distribuir adesivos que simulam figurinhas de álbum com fotos do candidato. Até mesmo membros do partido de Cepeda, o Pacto Histórico, incentivaram o uso do item como uma forma de confrontar a candidatura adversária.
David Racero, membro da Câmara de Representantes pela sigla, publicou uma foto vestindo a tricolor no dia seguinte ao pleito. "A camisa não pertence a nenhuma campanha; muito menos à do candidato que abusa da palavra 'pátria' enquanto vive na Itália", afirmou.