SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os Estados Unidos e o Irã sinalizaram nesta sexta-feira (12) que podem estar mais próximos de um acordo para pôr fim à guerra no Oriente Médio, iniciada em fevereiro, após um dia marcado por disputas de narrativas em torno das negociações.

Na véspera, Donald Trump havia anunciado que os países haviam, enfim, chegado a um consenso para finalizar o conflito. Teerã, porém, não tardou em negar o suposto entendimento, especialmente em relação às questões nucleares, um dos temas mais sensíveis nas negociações.

O desentendimento levou Trump a dizer nesta sexta que o Irã é desonesto e advertiu que o país persa precisa "entrar nos eixos". Depois de uma série de versões contraditórias, os países começaram a dar sinais de alinhamento.

Trump afirmou que um acordo estava próximo, e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse que um entendimento "nunca esteve tão próximo". O primeiro-ministro do Paquistão, que atuou como mediador, avançou ainda mais, apontando que o texto final de um acordo já havia sido acertado.

Horas depois, o chanceler iraniano afirmou que, assim que finalizado, o texto pode ser assinado "remotamente". Em entrevista à televisão estatal, Araghchi ainda afirmou que Israel está tentando sabotar o possível acordo. "Devo dizer francamente que este acordo tem inimigos, sendo o principal deles o regime sionista, que busca pretextos para inviabilizá-lo", disse.

Araghchi disse que o projeto inclui o fim do bloqueio naval, que, segundo ele, "deve ser completamente suspenso". "Esse é o primeiro ponto mencionado no acordo", afirmou. "O Irã tomou a firme decisão de que a administração do estreito de Hormuz não será mais a mesma", observou, acrescentando que as discussões sobre o assunto estão em andamento com Omã.

A agência de notícias estatal iraniana Irna havia dito mais cedo nesta sexta que ainda não há um acordo entre as duas partes sobre o programa nuclear iraniano. E que as conversas sobre o tema só seriam realizadas em um prazo de até 60 dias após a assinatura.

Durante a entrevista desta noite, Araghchi afirmou: "Nossa posição sempre foi a de que a única maneira de lidar com o estoque de material enriquecido é diluí-lo dentro do Irã".

Um funcionário de alto escalão da Casa Branca, por outro lado, afirmou à agência AFP que o Irã teria aceitado desmantelar seu programa nuclear e destruir material nuclear.

Ainda de acordo com esse mesmo funcionário americano, o regime teria concordado em reabrir o estreito de Hormuz. Além disso, o desbloqueio gradual dos ativos iranianos ficaria condicionado ao cumprimento das obrigações previstas no acordo.

A interrupção do programa nuclear iraniano sempre foi um dos principais impasses entre os dois países, e o regime persa vinha demonstrando resistência em relação ao tema.

Teerã, porém, descreve os termos de forma distinta. Relatos de autoridades feitos à imprensa sustentam que o país fez poucas concessões nas questões nucleares e no controle do estreito de Hormuz. A via marítima está praticamente bloqueada desde o início do conflito.

Um funcionário de alto escalão do regime iraniano disse à Reuters mais cedo nesta sexta que o rascunho do acordo prevê a suspensão das sanções ao petróleo iraniano, o desbloqueio de bilhões de dólares em fundos do país e a exigência de cessação dos ataques, incluindo no Líbano.

O funcionário de alto escalão ouvido pela AFP rejeitou essa versão, alegando ser uma narrativa falsa para o público interno iraniano. Segundo ele, o acordo implicaria um alívio das sanções e o desbloqueio de ativos iranianos congelados, em troca da aceitação, por parte do Irã, de desmantelar seu programa nuclear e entregar seu urânio enriquecido.

O acordo também incluiria o fim dos ataques no Líbano, uma exigência de Teerã. A Casa Branca acredita que existe uma probabilidade de "entre 80% e 85%" de que o documento seja assinado nos próximos dias.

Genebra, na Suíça, seria o local mais provável para o encontro.

O vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, e o presidente do Parlamento do Irã, Mohammed Baqer Qalibaf, participariam da cerimônia. Após a assinatura, terá início um período de 60 dias de negociações sobre os aspectos técnicos do acordo.

Os termos do documento descritos por autoridades iranianas nesta sexta parecem oferecer a Teerã grande parte do que vinha exigindo, enquanto Trump aparenta obter pouco do que buscava, além da reabertura de Hormuz.

A agência iraniana Mehr informou que os termos também incluem outras concessões importantes dos EUA, como o compromisso de retirar suas forças das proximidades do Irã e apresentar um plano para reconstruir a economia iraniana, devastada pelo conflito.

O conflito tornou-se um problema político para a Casa Branca, com pesquisas mostrando queda na aprovação de Trump em meio à insatisfação dos eleitores com os altos preços da gasolina.

Alguns republicanos demonstraram preocupação de que a impopularidade da guerra possa lhes custar o controle do Congresso nas eleições legislativas de meio de mandato em novembro.