SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A coalizão Juntos pelo Peru, que apoia o candidato Roberto Sánchez, anunciou hoje que pedirá a anulação de atas de votação provenientes da Argentina, em meio à disputa apertada pela Presidência do país.
Aliados alegam ter identificado supostas irregularidades. A base afirma que os recursos fazem parte da estratégia para revisar os resultados da disputa presidencial, segundo informou o jornal La República.
Sigla também questiona votação registrada em centenas de mesas nos EUA. Foi neste país onde a candidata conservadora Keiko Fujimori obteve ampla vantagem entre os eleitores residentes no exterior.
Diferença entre os dois concorrentes é de apenas 3.509 votos. Keiko Fujimori assumiu a liderança e ultrapassou Roberto Sánchez na apuração dos votos do segundo turno das eleições peruanas.
Órgão eleitoral do país processou pouco mais de 98% das urnas até o momento (20h04, horário de Brasília). A virada de Keiko aconteceu ontem por volta da 1h.
Votação no Peru (à 20h04):
Keiko: 9.041.604 votos
Sánchez: 9.038.095 votos
Candidatos evitaram se declarar vencedores antes do fim da contagem. Keiko afirmou que "teremos dias longos pela frente", enquanto Sanchez disse a apoiadores que a disputa estava em "empate técnico" e que tudo ainda estava em aberto.
Pesquisas de boca de urna e contagens rápidas também não indicaram um vencedor claro. Os levantamentos divulgados após o fechamento das urnas apontavam um cenário de forte equilíbrio, com os dois candidatos tecnicamente empatados.
Parte do eleitorado esperava que a eleição encerrasse um período de instabilidade política no Peru. Nos últimos anos, o país viu presidentes serem presos, destituídos ou sofrerem impeachment.
Keiko Fujimori foi derrotada nas duas últimas eleições por percentual mínimo. Em 2021, Pedro Castillo derrotou a direitista por 0,26 pontos percentuais. Em 2016, o vencedor foi Pedro Kuczynski, por uma diferença de 0,24 pontos percentuais.
Uma crise política e o uso frequente de impeachment pelo parlamento fizeram o Peru trocar nove presidentes em 10 anos. O período de instabilidade começou em 2016, após fim do mandato de Ollanta Humala. Mesmo tendo sido o último presidente a concluir o mandato, Humala entregou o cargo com popularidade entre 11% e 15%, situação que o Parlamento aproveitou para ganhar influência.
O cientista político americano Steven Levitsky define o Peru como uma "democracia sem partidos". No país não existem partidos políticos sólidos, históricos ou ideológicos, e por isso funcionam como "veículos eleitorais" temporários ou "empresas de aluguel" criadas apenas para disputar uma eleição em torno de uma figura popular.
Essa característica enfraquece o presidente. Quando um presidente é eleito, ele quase nunca tem uma bancada forte ou fiel no Congresso. Ele governa isolado, sem coalizões reais, tornando-se um alvo fácil para a oposição desde o primeiro dia de mandato.
Quem vencer terá de governar com um Congresso hipertrofiado. Desde 2016, o país viu uma sucessão de presidentes, com renúncias e quedas impulsionadas por um Legislativo que ganhou protagonismo no sistema presidencialista.
O Congresso peruano volta a ter duas Casas, o que pode mudar a dinâmica de crises políticas. A volta do Senado, prevista para julho, reforça o peso do Legislativo e divide especialistas sobre se o modelo trará mais estabilidade ou ampliará o poder de bloqueio.
O partido de Keiko, Força Popular, aparece como a principal bancada nas duas Casas após o primeiro turno. A sigla elegeu 41 de 130 cadeiras na Câmara e 22 de 60 no Senado, enquanto o Juntos pelo Peru, de Sánchez, ficou com 32 de 130 e 14 de 60.
Sánchez diz que quer limitar o uso da "incapacidade moral permanente" para derrubar presidentes. "Temos que recuperar o equilíbrio de poderes, a separação dos poderes, regular a vacância por incapacidade moral permanente no cargo do presidente", afirmou.
Analistas acreditam que um resultado apertado pode aprofundar a instabilidade. "Ainda existe um forte antifujimorismo, embora menor; e Sánchez, pouco conhecido, é uma incógnita. Quem vencer vai deslegitimar o resultado se for apertado. Isso traz mais instabilidade", avalia o analista David Sulmont à agência de notícias AFP.
A Justiça decidiu enviar Sánchez a julgamento por suposta declaração falsa de financiamento partidário. A acusação cita inconsistências nos informes financeiros do partido Juntos pelo Peru entre 2018 e 2020 e menciona mais de US$ 57 mil em aportes não declarados ao Escritório Nacional de Processos Eleitorais.
Sánchez afirma que o caso foi usado para tentar desacreditá-lo politicamente e que vai recorrer. "Durante anos tentaram instalar uma mentira para me desacreditar politicamente", escreveu o candidato em abril, ao comentar o processo.
Na reta final, o candidato de esquerda disse que quer uma relação "respeitosa" com Washington. "A boa vizinhança, as relações respeitosas entre as nações (...) é uma prioridade sempre", afirmou.
Eleitores relatam cansaço com o caos político e pedem transparência na apuração.
"Espero que todo o processo seja realizado com transparência, que o voto do povo seja respeitado", disse Evelyn Pasos, de 43 anos, eleitora.