ÉVIAN-LES-BAINS, FRANÇA (FOLHAPRESS) - O balneário de Évian-les-Bains, encravado nos Alpes franceses à beira do lago Léman, recebe, a partir desta segunda-feira (15), a 52ª cúpula do G7 num momento em que o cenário geopolítico mudava enquanto os líderes ainda faziam as malas.

Nas últimas horas, o primeiro-ministro do Paquistão, mediador do conflito no Oriente Médio, anunciou que EUA e Irã estavam próximos de assinar um acordo para estender o cessar-fogo e reabrir o estreito de Hormuz --fechado há mais de cem dias, desde o início da guerra, em fevereiro.

Se confirmado, seria o desenvolvimento mais significativo desde o início do conflito. Mas a guerra na Ucrânia continua sem saída, as tensões tarifárias com Washington não diminuem, e o multilateralismo enfrenta sua mais severa crise de legitimidade em décadas. No centro de quase todas essas tensões, como de costume, está Donald Trump.

O otimismo com o Oriente Médio deve ser temperado pela história recente --e pelos acontecimentos das últimas horas. Mesmo após o anúncio paquistanês, Israel voltou a bombardear Beirute, e o Irã responsabilizou Washington por não conter os israelenses, afirmando que os EUA "carecem de vontade para cumprir suas obrigações".

Mesmo que o memorando seja assinado, sua durabilidade é incerta: as negociações sobre o programa nuclear iraniano prometem ser longas e difíceis, e o Irã já demonstrou disposição para voltar a bloquear o estreito. Para os líderes que chegam a Évian, a questão não é só se o acordo vai existir, mas se vai durar.

O G7 é composto pelos Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Japão e Canadá, além da União Europeia. A presidência é francesa, e o presidente Emmanuel Macron será o anfitrião. Como convidados, ele chamou os líderes de Brasil, Índia, Coreia do Sul e Quênia.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) embarcou para Genebra neste domingo (14) --será sua décima participação em uma cúpula do grupo.

A agenda reserva as sessões sobre Ucrânia e Oriente Médio aos membros plenos do G7 --no caso do Oriente Médio, com participação adicional de Egito, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

Os países convidados, entre eles o Brasil, participarão das sessões sobre desequilíbrios econômicos globais e parcerias internacionais de desenvolvimento, além de um almoço com os principais CEOs do setor de inteligência artificial.

A cidade está praticamente fechada: a Gendarmeria Nacional (força policial responsável pelo patrulhamento e pela segurança pública em determinadas regiões do país) instalou seu centro logístico a 50 km de Évian, e a Suíça implantou controles temporários em suas fronteiras com a França de 10 a 19 de junho.

Pano de fundo do encontro, a Guerra da Ucrânia continua sem perspectiva de solução, com o front relativamente estabilizado após avanços ucranianos que incluem ataques de drones cada vez mais profundos em território russo.

O presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, estará em Évian pressionando por mais sistemas de defesa aérea, por um compromisso financeiro plurianual dos aliados e pelo aperto das sanções contra o petróleo russo --Kiev precisa de US$ 95 bilhões em financiamento externo para o período 2026-27, metade ainda sem origem garantida.

E mesmo que o acordo dos EUA com o Irã se confirme, o Banco Mundial já reduziu sua previsão de crescimento global para 2,5% neste ano em razão do choque energético provocado pelo bloqueio de Hormuz.

O risco de escassez de fertilizantes continua ameaçando a segurança alimentar em países mais vulneráveis. Uma reabertura do estreito traria alívio, mas os efeitos de mais de cem dias de crise não se dissipam rapidamente.

Para Macron, organizar este G7 equivale a tentar manter uma reunião de família em que o convidado mais poderoso despreza as regras da casa. O presidente francês entrou na presidência do grupo com ambições claras: fazer de Évian um fórum de "reconvergência", capaz de discutir os desequilíbrios macroeconômicos globais e colocar a redução das desigualdades no centro do debate. São objetivos nobres. E amplamente incompatíveis com a agenda de Trump.

A solução foi pragmática. Em vez de um comunicado final conjunto, haverá ao menos sete declarações separadas, uma para cada sessão, divulgadas ao longo dos três dias --o mesmo modelo adotado na cidade francesa de Biarritz, em 2019, também com a presença de Trump.

A França adiou a abertura da cúpula por algumas horas para que ele pudesse organizar um evento de MMA na Casa Branca neste domingo, seu aniversário de 80 anos. Macron também substituiu a África do Sul pelo Quênia na lista de convidados, após sinais de boicote americano, e estuda um jantar de encerramento na quarta-feira (17) em Paris ou no Palácio de Versalhes para manter o líder republicano engajado até o fim.

"Macron fez tudo o que podia para acomodar o cronograma de Trump", disse Max Bergmann, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington. "A questão é se Trump ficará por toda a cúpula." No G7 do Canadá, em 2025, ele foi embora antes do encerramento, perdendo a sessão com Zelenski.

Lula, por sua vez, desembarca na manhã desta segunda em Genebra, de onde segue para Évian.

Ainda em Genebra, o brasileiro deve ter uma bilateral com o presidente da Confederação Suíça, Guy Parmelin, e com Macron na tarde de segunda --encontro praticamente confirmado. Na terça, há possibilidade de bilateral com a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, com o ditador do Egito e, se confirmada, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen --bilateral de especial interesse para o Brasil diante do impasse sobre as exportações de carne brasileira, recentemente barradas pelo bloco.

Já um encontro com Trump está, por enquanto, descartado pelo próprio Planalto: o governo brasileiro não solicitou a reunião e tampouco recebeu qualquer sinalização americana nesse sentido.

A avaliação do Planalto é de que não faria sentido promover um novo encontro apenas para reiterar posições já apresentadas --inclusive sobre o tarifaço, cujo prazo decisivo vence em 15 de julho.

Em seus discursos nas sessões, Lula deverá fazer críticas ao unilateralismo e ao protecionismo, mas sem menções diretas a Trump. O chanceler Mauro Vieira disse à Folha na sexta-feira (12) em Paris que o presidente vai levar "a palavra do Brasil, que é a defesa do multilateralismo, defesa da reforma das instituições internacionais, sejam políticas como a ONU, sejam as de Bretton Woods [o sistema que engloba o FMI e o Banco Mundial]".

As bandeiras brasileiras --reforma do Conselho de Segurança da ONU, maior representação do chamado Sul Global nas instituições de Bretton Woods, fortalecimento do multilateralismo-- chegam a Évian num momento em que o próprio G7 luta para se manter relevante.

O fórum que nasceu em 1975 para coordenar respostas a crises econômicas enfrenta hoje uma pergunta mais fundamental: o que vale um clube quando seu membro mais poderoso despreza as regras que o fundaram?