BRASÍLIA, DF E ÉVIAN-LES-BAINS, FRANÇA (FOLHAPRESS) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou seu homólogo dos Estados Unidos, Donald Trump, durante uma conversa com o líder da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, na cúpula do G7 em Évian-les-Bains (França). O brasileiro disse não suportar o comportamento do governo americano.

Lula e Lee, ambos participando como convidados no bloco, conversavam na sala principal da reunião nesta quarta-feira (17). A conversa ocorreu sem que os demais líderes estivessem na sala, num contexto informal. Eles foram filmados por uma equipe da agência de notícias Associated Press, e é possível escutar apenas parte do diálogo.

Em um dos trechos, Lula diz que o Brasil "não tem divergência com nenhum país" e que "não gosta de briga". Em seguida, emenda: "Eu não suporto o comportamento do governo americano".

Após um trecho inaudível, é possível ouvir uma menção de Lula a "imperador" ?como ele já se referiu a Trump em outras ocasiões, embora não o cite nominalmente no que é possível compreender do áudio.

Ele também critica o comportamento de quem "acha que pode levantar de manhã e dar ordem para o mundo todo", em outra referência ao americano semelhante a críticas que ele já fez no passado. Nesse contexto, ele finaliza dizendo tratar-se de um "mau exemplo para a democracia".

Em abril, em entrevista ao El País, Lula disse que "Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país". No ano passado, durante cúpula de líderes do Brics no Rio de Janeiro, o brasileiro comentou o que era então uma ameaça de imposição de tarifas de Trump. "O mundo mudou, não queremos imperador. Nós somos países soberanos. Se ele achar que ele pode taxar, os países têm o direito de taxar também."

De acordo com o que é possível ouvir da transmissão desta quarta, o sul-coreano escuta em silêncio os comentários de Lula. Depois, muda de assunto e faz uma pergunta sobre o número de turistas no Brasil.

Lula participa com convidado da reunião do grupo formado por Estados Unidos, França, Reino Unido, Canadá, Itália e Alemanha. Além dele e do sul-coreano, há outras nações convidadas, como Egito, Índia e Ucrânia. Trump também compareceu, mas não houve conversa bilateral formal com Lula. Os dois presidentes se cumprimentaram durante evento social na noite de terça-feira (16).

Em seu discurso no mesmo dia, Lula cobrou os países ricos pelo que chamou de omissão diante da crise global de desenvolvimento. Também criticou, sem citar nomes, tanto o neoliberalismo quanto o protecionismo que marca a política comercial do governo Trump.

"Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe", afirmou o presidente brasileiro em Évian. Lula defendeu ainda o combate ao crime organizado transnacional, mas com a condição de que ele leve em conta "o respeito à soberania dos Estados".

Disse que o narcotráfico "aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas" e que seu enfrentamento "não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas."

Em 28 de maio, o Departamento de Estado americano designou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida foi tomada dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL), provável adversário de Lula nas eleições presidenciais de outubro, reunir-se com Trump na Casa Branca e pedir pessoalmente a medida.