SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As empresas de transporte marítimo esperavam que essa sexta-feira (19) fosse uma referência para saber como seria a retomada do tráfego no estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e gás. Mas a desistência do vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, de viajar para a Suíça, onde teria início as negociações de paz com o Irã, colocou em dúvida novamente a volta das embarcações.
"A logística dessas negociações nunca foi simples nem previsível", afirmou um porta-voz da Casa Branca ao comunicar a desistência da viagem para iniciar as discussões, marcadas para o resort suíço de Burgenstock. A Suíça confirmou o adiamento e o Irã já havia exposto que só faria a viagem após os norte-americanos darem os primeiros sinais de que já estavam implementado o acordo provisório assinado na última quarta-feira (17).
Enquanto a reunião não ocorre, o órgão iraniano responsável por Hormuz anunciou nesta sexta que dispensará as taxas previstas para o uso do estreito durante o período de negociação de 60 dias.
Os navios que desejarem passar enquanto o acordo provisório estiver em vigor deverão apresentar pedidos de trânsito pelo menos 48 horas antes da chegada, informou a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA), do Irã.
O Irã isentará as taxas relativas a segurança, proteção, serviços ambientais e seguros relacionados durante o período, exigindo, porém, que as embarcações coordenem rotas e horários de trânsito com antecedência devido às áreas afetadas por minas e para garantir a navegação segura.
Porém a PGSA emitiu um comunicado, divulgado pelo jornal Financial Times, que deve exigir, após o acordo temporário, que os navios que queiram passar por Hormuz tenham uma apólice de seguro que seja aprovada pela entidade, que admite a possibilidade de cobrar por sua emissão. Os EUA já afirmaram que não concordam com a cobrança de qualquer taxa.
As empresas de dados de navegação Kpler e AXSMarine divulgaram que 25 navios comerciais cruzaram o estreito de Hormuz na quinta-feira (18). "É o maior número de embarcações que realizou o trajeto desde 18 de abril e cinco vezes mais do que média diária registrada nos dez primeiros dias de junho", afirmou a AXSMarine.
Porém esse volume ainda está distante da média de 145 navios que cruzavam Hormuz antes de a guerra começar em 28 de fevereiro. A OMI (Organização Marítima Internacional) estima de 500 navios-petroleiro seguem bloqueados no golfo Pérsico à espera da liberação de Hormuz. Segundo a agência de notícias Bloomberg, 40 dessas embarcações transportam juntas 80 milhões de barris de petróleo.
Duas das principais empresas do setor, Mitsui OSK Lines e Hapag-Lloyd comunicaram que aguardam que sejam estabelecidas condições de segurança que garantam o tráfego das embarcações.
"O que terá que ser estabelecido não é apenas um simples acordo entre os países envolvidos, mas ele precisa ser concreto e traduzido em situações reais no estreito de Hormuz, para que as empresas de navegação possam se sentir confortáveis para atravessar", comentou Jotaro Tamura, presidente-executivo da Mitsui OSK Lines, ao jornal Financial Times.
O adiamento das negociações fez com que os negociadores adotassem a cautela e o preço do barril Brent, referência mundial, está oscilando nesta sexta. Ele começou em queda de 1,29%, cotado a US$ 78,82 (R$ 406,50), às 21h de quinta-feira (horário de Brasília), mas passou a subir, atingiu US$ 80,80 (R$ 416,71), alta de 1,19%, por volta das 13h45 de sexta-feira e estava a US$ 80,38 (R$ 414,54), valorização de 0,66%, às 15h45.
O petróleo WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, era negociado a US$ 76,51 (R$ 394,59), queda de 0,12%, por volta das 15h45.
Além da preocupação com a segurança e o estabelecimento de uma rota, já que minas estão espalhadas na parte central do estreito, as empresas ainda devem enfrentar problemas com o excesso de cracas e criaturas marinhas que cresceram nos cascos dos navios durante esses três meses de espera. Segundo o jornal New York Times, essa situação reduz a velocidade e pode até impedir o tráfego de algumas embarcações.