SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Evo Morales, ex-presidente da Bolívia, anunciou nesta segunda-feira (22) a suspensão temporária dos últimos bloqueios de rodovias impostos por manifestantes na região de Cochabamba há cerca de 50 dias. Nas últimas semanas, o país vive uma onda de protestos contra o atual presidente, Rodrigo Paz, e sua condução da economia boliviana.

"Por enquanto, estamos observando uma trégua. Isso não é uma rendição", declarou o ex-chefe de Estado durante uma reunião com líderes de sindicatos de produtores de coca na região de Chapare, no centro do país.

Na última sexta-feira (19), o governo de Paz assinou um acordo com a Confederação dos Trabalhadores da Bolívia (COB) para encerrar as manifestações que paralisaram o país. "Acredito que isso seja um raio de esperança para todos os bolivianos", disse o presidente ao anunciar o pacto. "Se quisermos avançar, precisamos trabalhar juntos. Não há donos. Todos devem fazer a sua parte."

Desde o início dos bloqueios de estradas -realizados pelos manifestantes como parte dos protestos-, os bolivianos enfrentam longas filas para abastecer os carros e dificuldades de acesso e abastecimento de alimentos e medicamentos.

"Há um país esperando que a fumaça branca apareça", disse o secretário-executivo da COB, Mario Argollo, após o anúncio do acordo. "Acreditamos que devemos começar a resolver nossas diferenças; devemos começar a construir um país baseado no consenso, com a participação dos trabalhadores nas decisões."

Os manifestantes, formados principalmente por trabalhadores, camponeses, mineiros e professores, organizaram protestos e, no início do mês, chegaram a montar barricadas com contêineres de lixo nas proximidades do palácio do governo. A polícia respondeu com bombas de gás lacrimogêneo, e pelo menos cinco pessoas foram detidas, segundo a imprensa local.

O acordo de sexta visava encerrar os conflitos. Até esta segunda, no entanto, muitas estradas que ligam o principal centro produtivo do país seguiam sob o controle de associações rurais alinhadas a Evo, que não participaram das negociações e continuam protestando, principalmente na região de Cochabamba.

Ainda durante o final de semana, no sábado (20), Paz declarou estado de emergência no país. A declaração abriu a possibilidade do uso de forças militares para limpar bloqueios e restaurar a ordem.

Na prática, deu ao presidente ferramentas constitucionais mais amplas para lidar com os protestos. O número de bloqueios de estradas caiu para nove nesta segunda, após a implementação do dispositivo legal.

O conflito da população com o governo teve início com o corte nos subsídios de combustíveis implementado de maneira abrupta por Paz, em uma tentativa de diminuir déficit após conversas com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Medidas posteriores que tentaram estabilizar o valor dos combustíveis e reverter reformas impopulares relativas a terras não deram conta de reverter os protestos, que escalaram com demandas como aumento de salários por parte de sindicatos e a renúncia de Paz.

O presidente afirmou que os protestos configuram uma tentativa orquestrada de desestabilizar a democracia e que o decreto de emergência tem como objetivo restaurar a ordem, proteger os cidadãos e garantir o fluxo de bens essenciais, além de consequências legais para aqueles que seguirem com as manifestações.