SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O historiador Marc Bloch (1886-1944) entrou no Panteão francês nesta terça-feira (23), em Paris, na mais recente de uma série de imortalizações concedidas pelo presidente Emmanuel Macron, cujo critério tem sido a "herança dos iluministas" e o significado da universalidade da humanidade.
Ao celebrar os 80 anos da libertação de Estrasburgo do domínio nazista, no período entre as grandes guerras, o governo francês decidiu levar ao Panteão o historiador, colocando-o ao lado de uma lista de heróis nacionais. Ele se torna um imortal por seu papel como combatente da pátria na Primeira Guerra Mundial (1914 - 1918), mas também por contribuições como pensador sui generis da história mundial.
Bloch encarna a síntese de todas as lutas contra os nacionalismos que resumem o século 20. Sua escolha segue os critérios usados pelo governo Macron. Há dez anos no comando do país, o presidente escolheu esse francês de origem judaica por sua participação na Resistência antinazista, e sobretudo por considerar que ele está entre aqueles que mudaram o rumo das coisas na década de 1930.
A cerimônia em Paris incluiu o cortejo que levou os dois caixões, o de Bloch e o de sua esposa, Simonne, pela rua Soufflot até a praça do Panthéon, onde estavam dispostos uma série de quadros ilustrativos da vida do historiador. Seus descendentes, no entanto, pediram que os restos do patriarca não fossem transferidos do cemitério original da família no departamento de Creuse, no coração da França; em vez disso, os caixões continham livros e objetos pessoais do casal.
Em carta a Macron, o bisneto do historiador, Mathis Bloch, pediu que Simonne figurasse ao lado do marido como imortal devido à estreita parceria entre ambos, inclusive na construção da obra intelectual. Outra exigência: que ninguém da extrema direita francesa estivesse presente à cerimônia. O argumento é que a presença seria um ultraje à memória do historiador e da esposa.
A Presidência também fez inovações visuais e tecnológicas na cerimônia: os retratos do homenageado, tradicionalmente exposto entre as colunas do Panteão, ganharam vida em um telão gigante instalado no local.
O Panteão de Paris era, originalmente, uma igreja dedicada a Santa Genoveva, construída no século 18. Trata-se de um edifício monumental inspirado tanto na arquitetura antiga quanto nas igrejas cristãs, com uma impressionante cúpula. Na Revolução Francesa, o monumento foi dessacralizado e transformado em templo laico destinado a homenagear os "grandes homens" da França, simbolizando assim uma ruptura com a monarquia e a influência da Igreja.
O prédio sofreu os vaivéns da história, oscilando entre servir de igreja e de monumento cívico, conforme os regimes políticos, antes de tornar-se definitivamente um mausoléu republicano.
O local encarna hoje os valores da República Francesa, com seu lema inscrito na fachada: "Aos grandes homens a pátria reconhecida". Lá são celebradas figuras maiores do iluminismo como Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Denis Diderot, além de mestres da filosofia e da literatura universal, como Victor Hugo e Émile Zola.
Progressivamente, o Panteão tornou-se um lugar de memória nacional, onde a República Francesa constrói sua narrativa e homenageia aqueles que contribuíram para seu brilho. Pouco a pouco, entraram perfis mais diversificados, como mulheres e ativistas de direitos civis.
Bloch combateu ao lado do Exército francês em 1914. Como parte da resistência aos nazistas, teve de fugir de Estrasburgo, onde lecionava, para sua cidade natal, Lyon. Ali, no entanto, foi preso pela Gestapo, a polícia secreta de Adolf Hitler, em março de 1944, para que entregasse nomes dos colaboracionistas do movimento antifascista.
Em 16 de junho de 1944, já iniciada a libertação da França, Bloch foi metralhado pelas costas, após meses de tortura. Sua esposa morreu pouco depois, vítima de um câncer de estômago; hospitalizada sem sua verdadeira identidade, o corpo nunca foi reconhecido. O casal deixou seis filhos.