SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A destruição causada pelos terremotos que atingiram a Venezuela mobilizou a população do país a criar uma rede de ajuda e de voluntários civis. A estrada que liga Caracas a La Guaira, região litorânea que ficou parecendo uma zona de guerra, foi tomada por motoqueiros transportando pessoas, mantimentos e água.
O publicitário Carlos Blanco, 45, esteve em La Guaira na quinta-feira (25) para ajudar nas buscas e conversou com a Folha de S.Paulo por telefone antes de retornar à região nesta sexta-feira (26). Ele tenta localizar a mãe de seu meio-irmão, que morava em um edifício de oito andares que desabou completamente.
"O prédio virou um monte de escombros. Ainda não sabemos se ela conseguiu sair", afirma. A ONU estima que mais de 50 mil pessoas estejam desaparecidas, e o regime da líder interina Delcy Rodríguez informou que há pelo menos 920 mortos e 4.300 feridos.
A situação de calamidade, conta Blanco, despertou uma profunda onda de solidariedade no país. "Tem um grupo muito grande de motociclistas de Caracas e de outras partes do país que sobem e descem todos os dias", diz. "É mais rápido, e eles não pegam tanto trânsito."
Vídeos e imagens da mobilização se espalharam nas redes sociais, com mensagens de esperança. Segundo Blanco, chegar à cidade continua sendo um desafio.
"Você vai pela via desviando de pedaços de asfalto que desapareceram. Existem apenas duas vias para entrar e sair, e ambas sofreram danos. Como La Guaira é uma faixa costeira muito estreita, qualquer bloqueio provoca congestionamentos enormes. Por isso as motos são tão importantes."
Ao chegar à cidade, diz, o cenário é de completa destruição. "Está tudo em ruínas. Há bairros completamente destroçados."
Carlos afirma que, logo após o terremoto, boa parte do trabalho de apoio foi feita pela população civil. "Os policiais estão realizando um trabalho muito duro. Estão fazendo o que podem, mas dentro de suas limitações, porque são agentes de segurança, não equipes de resgate", diz. "Acredito que já deve haver mais pessoal especializado, porque chegaram equipes de El Salvador, dos EUA e de muitos outros países."
A região de La Guaira também está sem sinal de telefone devido à destruição causada pelo terremoto. Quem possui acesso à Starlink, serviço de internet via satélite da SpaceX, compartilha a conexão com outras pessoas. A empresa de Elon Musk anunciou que oferecerá internet gratuita por um mês nas áreas afetadas.
Em Caracas, a jornalista Alejandra Díaz, 33, passou a atuar como voluntária em um centro de recolha de doações. "As pessoas não querem ficar em casa sentindo que não estão ajudando. Talvez não tenhamos ferramentas, mas temos mãos e vontade."
Segundo Díaz, centros de arrecadação foram organizados na capital para receber alimentos, água, roupas e medicamentos. Além disso, muitos moradores da capital estão preparando refeições para que sejam levadas à região costeira. Ela cita o caso de uma colega que mora em Maracaibo e organizou uma viagem de van até La Guaira financiada por doações de amigos e conhecidos.
"Para nós, moradores de Caracas, La Guaira sempre foi sinônimo de praia, lazer e festa. Já vivemos a tragédia de 1999, e estamos revivendo aquele medo, mas em uma escala muito maior. Ver tudo destruído dói demais", afirma ela, em referência às chuvas torrenciais que provocaram deslizamentos de terra que deixaram milhares de mortos na região.
O apartamento onde Díaz vive na capital venezuelana sofreu danos e está com fissuras nas paredes e nos pisos. "Tenho muito medo de que, se acontecer outro terremoto tão forte, o prédio desabe. Ou uma parede caia", diz.
Ela diz que supermercados e comércios locais seguem abertos na capital e conta que não presenciou, por ora, problemas de abastecimento. "As pessoas estão comprando apenas o necessário para que haja produtos para todos. Não há compras por pânico. Quem está comprando em mais quantidades são as pessoas que levam doações para hospitais e abrigos. Nós, venezuelanos, somos muito solidários. Mas agora isso está muito acima do normal. A solidariedade transbordou."