SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Carros 100% elétricos não resolvem o problema do trânsito e, a depender do modo de produção e da origem da energia para recarga, ainda deixam suas pegadas de carbono por aí. Apesar disso, contribuem para a redução das emissões de gases e da poluição sonora. Essas vantagens são conhecidas por poucos, e a maior barreira é o preço: já há bastante interesse pela tecnologia.

Segundo o portal Webmotors, as buscas por esse tipo de veículo cresceram 23% na comparação entre o primeiro semestre deste ano e o mesmo período de 2021. Esse consumidor, contudo, não tem encontrado pechinchas.

O carro elétrico mais em conta à venda no Brasil é o Renault Kwid e-Tech, que custa R$ 147 mil. É um modelo diminuto, que não traz ajuste de altura do volante nem luxos como ar-condicionado automático ou partida por botão. Por esse valor, é possível comprar um SUV flex da moda com todos esses itens e mais espaço.

Esse Kwid que não queima gasolina é ruim? Se for comparado a outros subcompactos, a resposta é não. A conclusão veio após dois dias ao volante do modelo, que tem câmbio automático e se comporta muito bem no trânsito pesado. Mas diante de rivais de mesmo preço, fica muito atrás em conforto. O "luxo" é não emitir fumaça.

O custo elevado não é exclusividade do Brasil. A falta de componentes gerada pela crise sanitária atrasou os planos de eletrificação das montadoras em um momento de maior interesse pelos produtos. Há desejo, mas faltam opções.

Em maio de 2021, a Transport & Environment (federação europeia de transporte e meio ambiente) divulgou um estudo que apontava para a redução acentuada dos preços de acordo com o ganho de escala.

Segundo a pesquisa, um automóvel compacto elétrico seria mais barato que seu equivalente a gasolina já em 2027. O agravamento da crise dos semicondutores colocou a previsão sob dúvida, mas ainda há esperança.

Quem já investiu em micromobilidade elétrica tem obtido bons resultados. Laurent Barria, responsável pelo marketing global da marca Citroën, disse que a produção do compacto elétrico Ami não está dando conta da demanda na Europa.

Trata-se de um modelo de dois lugares que nem é chamado de carro, mas atendeu aos desejos tanto de quem deseja comprar como dos que querem apenas compartilhar. O preço ajuda: na França, custa o equivalente a R$ 40 mil.

Segundo o executivo, a série especial Ami Buggy teve seu estoque de 50 unidades esgotado em 18 minutos. As vendas foram feitas pela internet.

Esse é um raro caso em que veículo elétrico não é associado ao topo do mercado. Essa elitização dos produtos é vista também na disponibilidade dos pontos de recarga.

Davi Bertoncello, CEO da Tupinambá Energia, lembra que muitas das tomadas estão em shoppings premium, em que se veem carros que custam mais de R$ 600 mil plugados em pontos gratuitos. O preço cobrado é basicamente o valor do estacionamento.

Ele calcula que o Brasil tem um déficit de 4.000 carregadores públicos, e o aumento da oferta deve vir acompanhado da tarifação do serviço.

Hoje a Tupinambá tem alguns carregadores que funcionam mediante pagamento, mas o preço não ultrapassa os R$ 2 por kWh. Dessa forma, reabastecer as baterias de um Porsche Taycan Turbo S (R$ 1,1 milhão) custaria, no máximo, R$ 187. No caso do Renault Kwid E-Tech, a recarga que permite rodar cerca de 290 km sairia por R$ 54.