SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Arquidiocese de São Paulo recebeu, na última semana, dezenas de pedidos de punição e até mesmo de excomunhão do padre Julio Lancellotti. As reivindicações, em grande parte de fiéis, são motivadas pela participação do pároco como narrador do curta-metragem "São Marino", que faz uma releitura da história de santa Marina sob a ótica LGBTQIA+.

Apesar da ofensiva, que vem sendo estimulada por grupos católicos nas redes sociais, a possibilidade de uma pena grave ser aplicada contra Lancellotti é descartada pela arquidiocese. E, segundo pessoas próximas do comando da circunscrição eclesiástica, o assunto já é tratado como encerrado.

O próprio padre Julio Lancellotti nega que tenha compartilhado da interpretação sugerida pelo filme. "Nunca falei que a santa era LGBT", disse à coluna nesta semana. "A minha narração é a narração oficial da história da santa Marina", afirmou ainda.

A excomunhão é considerada a punição mais grave dentro da Igreja Católica. Ela presumiria um processo canônico de investigação e a ratificação da decisão pelo papa. Embora a participação de Lancellotti possa ser questionada dentro da instituição, a avaliação na arquidiocese é de que a sanção não cabe ao caso.

Na semana passada, a circunscrição eclesiástica publicou uma nota criticando o curta "São Marino". "A história dos santos católicos deve ser melhor conhecida, e não pode ser interpretada à luz de ideologias que em nada correspondem com o contexto em que viveram, tampouco com os valores e virtudes por eles testemunhados ao longo de suas vidas", disse. Uma nova manifestação sobre o caso não está prevista.

Santa Marina era uma jovem órfã de mãe que, para continuar a viver com o pai, decidiu ingressar em um mosteiro disfarçada de monge. O segredo em torno de seu gênero só foi descoberto após a sua morte.

"O documentário que vai fazer as suas interpretações, que não são minhas. O que eu relato é a vida oficial dela. De que ela, sendo uma mulher, assumiu a identidade masculina para ser monge, entrou como Marino no mosteiro e só depois de morta foi reconhecida [mulher]", afirmou Julio Lancellotti sobre o caso.

"Eu não falei nada diferente disso [da história relatada pela Igreja Católica]. O que fica sendo veiculado é que 'padre narra história de santa trans'. No tempo dela não existia essa nomenclatura e é difícil aplicá-la hoje. Existe um fato concreto, que é relido por determinados grupos", disse.