SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Oi, pessoas do mundo. Podem me ouvir? Eu sou do Irã!"

O cartaz escrito em português, empunhado por uma imigrante iraniana nesta sexta-feira (23) na avenida Paulista, tentava chamar a atenção de quem passava para uma causa que vem levando milhares de pessoas às ruas no Irã e em outros países.

A morte de Mahsa Amini, uma mulher de 22 anos que foi detida na capital iraniana supostamente por deixar parte do cabelo à mostra sob o véu islâmico, gerou uma convulsão social, com protestos acontecendo desde o último sábado em várias cidades do país.

Acusada de usar trajes inadequados pela polícia moral, Amini foi detida sob argumento de que deveria ser "convencida e educada", mas saiu da prisão diretamente para o hospital, onde morreu três dias depois. A diáspora iraniana, muito numerosa nos EUA e na Europa, também vem organizando manifestações pedindo respeito aos direitos das mulheres em seu lugar de origem.

No Brasil, são poucos os imigrantes vindos do Irã, mas um grupo de cerca de 30 pessoas quis expor sua insatisfação com o regime fundamentalista que comanda o país há mais de 40 anos. Reunidos no vão-livre do Masp, eles seguravam cartazes com fotos de Mahsa Amini e mensagens como "Revolta contra o véu islâmico", "abaixo a ditadura" e "freedom in Iran" (liberdade no Irã, em inglês).

Também levaram uma grande foto do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do regime, com os dizeres "abaixo Khamenei assassino!".

Três mulheres iranianas se revezavam ao microfone, contando a história de Mahsa e pedindo liberdade e direitos femininos. Elas gritavam, principalmente, uma sequência de três palavras: "Mulher. Vida. Liberdade". Em alguns momentos, se emocionaram.

"Meu pai, minha mãe, meu irmão estão nas ruas [no Irã]. Não posso ficar quieta aqui", gritava uma delas, a cantora Mahmonir Nadim. "Cortaram a internet no Irã. Nós somos as vozes dessas mulheres", dizia a irã de Mahmonir, Mahsima.

A iraniana Marjan, que pediu para não ter o sobrenome divulgado, foi à manifestação acompanhada dos pais, também imigrantes. "A situação no Irã está muito ruim. Estão matando mulheres e meninas. Temos que levantar nossas vozes para todo mundo ajudar."

Muitos pedestres pararam para observar, curiosos em relação ao protesto. Quem não conhecia a história de Mahsa Amini ficou sabendo dela naquele momento.

Um casal que atravessava a avenida tentava explicar às filhas pequenas o que acontece no país do outro lado do mundo. "Elas precisam usar véu no casamento?", perguntou uma das crianças. "Não, elas precisam usar véu o tempo todo", respondeu o pai, diante da expressão incrédula da menina.

Alguns brasileiros também participaram do protesto. "Não tem como não se solidarizar com o que está acontecendo", disse Marina Reinoldes, diretora pedagógica da ONG Educação sem Fronteiras, que tem alunos iranianos nos cursos de português. "Nós, brasileiros, não estamos lá, mas podemos ajudar a amplificar as vozes dessas pessoas, que são potentes e têm muito a dizer."