MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - Uma mulher yanomami fotografada em condições severas de desnutrição, cuja imagem foi divulgada para denunciar as condições de saúde dos indígenas na maior terra indígena do Brasil, morreu na semana passada em sua comunidade. A informação foi divulgada por Júnior Yanomami, presidente do Condisi (Conselho Distrital de Saúde Indígena) dos Yanomami e Ye'kuana.

Júnior é uma das lideranças locais que vêm denunciando o quadro de desassistência em saúde na terra indígena, com explosão de casos de malária e ampliação dos casos de desnutrição de crianças e idosos.

As principais imagens que circularam nas redes sociais com o retrato do estado de saúde de indígenas partiram do presidente do Condisi.

Nas redes sociais, Júnior Yanomami pediu que a imagem da mulher desnutrida deixasse de ser replicada e disse que a morte ocorreu na semana passada.

A constatação do óbito ocorreu em visita à comunidade Kataroa, segundo ele. "Por questões culturais, a sua imagem não poderá mais ser divulgada", afirmou.

"Na cultura yanomami, após o falecimento, não pronunciamos o nome da pessoa, queimamos todos os seus pertences, e não permitimos que fotografias permaneçam sendo divulgadas", disse o presidente do Condisi.

Na sexta-feira (20), o Ministério da Saúde declarou emergência em saúde pública, por meio de uma portaria, no território yanomami, como forma de assegurar atendimento em saúde em caráter de urgência.

Além da declaração, houve a instalação de um Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública. Uma equipe técnica está em Roraima há uma semana, e há a previsão de funcionamento de um hospital de campanha para atendimento aos indígenas.

No sábado (21), acompanhado de ministros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) visitou unidades de saúde indígena na capital Boa Vista, o que deu visibilidade à crise de saúde no território, agravada pela presença ilegal de 20 mil garimpeiros na reserva.

Lula disse ter se impressionado com as imagens, como a da mulher que morreu na semana passada.

Os indicadores de mortes e enfermidades, as fotos de crianças e idosos desnutridos, a constatação da falta de medicamentos básicos e a desassistência em saúde na terra yanomami não são novidades e foram denunciados ao longo de todo o governo Jair Bolsonaro (PL).

O problema se agravou ao longo da gestão passada, houve inúmeros alertas e pedidos de socorro e até mesmo uma operação foi feita pela PF (Polícia Federal) para tentar reverter um processo de desabastecimento de medicamentos básicos contra verminoses. A viagem de Lula evidenciou o problema.

De acordo com o MPF (Ministério Público Federal), 52% das crianças yanomamis estão desnutridas. Nas comunidades mais isoladas, o índice chega a 80%. Esses indicadores são piores do que os registrados em países do sul da Ásia e da África Subsaariana, onde estão os países com mais desnutrição infantil, conforme a recomendação do MPF.

O quadro crítico é notado também com a malária. Foram 44 mil casos da doença em menos de dois anos, e o cenário é de que toda a população yanomami, de 28 mil indígenas, foi infectada, com descontrole do surto, como descreve o MPF na recomendação em novembro de 2021.