BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Senado aprovou, nesta quarta-feira (8), a indicação do deputado federal Jhonatan de Jesus (Republicanos-RR) para o TCU (Tribunal de Contas da União). A aprovação se deu por 72 votos "sim", dois votos "não" e uma abstenção.
O deputado foi indicado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), e é filho do senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR). A indicação vai à promulgação.
Jhonatan e o pai são padrinhos políticos dos últimos três coordenadores da saúde indígena Yanomami no governo Bolsonaro, período em que a crise sanitária na região se agravou.
O deputado federal substituirá a ministra Ana Arraes, que deixou o cargo em julho passado. Formado em medicina, ele está em seu quarto mandato na Câmara.
Um dos pontos que pesavam contra o deputado é o longo período que ele ficará no TCU: 36 anos ?a aposentadoria na corte também se dá aos 75 anos.
Investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal apontam que os coordenadores do Distrito de Saúde Indígena Yanomami foram indicados ao posto por Jhonatan e Mecias. A terra indígena localizada entre Roraima e Amazonas está em emergência sanitária desde o mês passado.
Major da reserva, Francisco Dias Nascimento foi chefe do distrito entre julho de 2019 e junho de 2020, conforme consta no Portal da Transparência. Meses depois, em dezembro de 2020, foi nomeado auxiliar parlamentar no gabinete de Mecias e lotado para trabalhar na presidência do Republicanos.
Após sua saída, quem assumiu a saúde yanomami foi Rômulo Pinheiro, que ficou no cargo entre julho de 2020 e o início de 2022. Ele é filho de Socorro Pinheiro, que em 2018 concorreu a deputada estadual por Roraima junto com pai e filho ?inclusive, todos eles promoveram eventos reunidos e dividiram santinhos, como mostram fotos nas redes sociais.
A principal fornecedora para a campanha de Socorro foi a empresa J. Pereira de Jesus, que está no nome das filhas de Mecias, irmãs de Jhonatan.
Ramsés Almeida sucedeu Rômulo no cargo na terra indígena, de janeiro a novembro de 2022, justamente o período de forte agravamento na situação sanitária da Terra Indígena Yanomami.
Em 2020, tentou se reeleger vereador em Mucajaí (RR) pelo Republicanos de Jhonatan e Mecias, mas acabou como suplente. Os três aparecem juntos em fotos de eventos públicos e reuniões.
Questionado pela reportagem sobre as indicações, o deputado não respondeu.
A indicação de Jhonatan fez parte de um acordo feito por Lira com o presidente do Republicanos, Marcos Pereira (SP), ainda quando o deputado de Alagoas buscava sua primeira eleição ao comando da Câmara.
A candidatura do deputado teve uma série de obstáculos, com resistência dentro do TCU e entre colegas de Jhonatan. Nos bastidores, houve incômodo porque Lira também teria prometido a indicação à deputada Soraya Santos e ao deputado Hugo Leal (PSD-RJ). Leal acabou deixando a disputa, contemplado com a relatoria-geral do Orçamento de 2022 e após assumir a Secretaria de Óleo, Gás e Energia do Rio de Janeiro.
Sem votos, Lira adiou a eleição para o TCU. O presidente da Câmara chegou a enviar a líderes uma convocação para que a votação ocorresse em agosto de 2022, mas desistiu e decidiu fazer o pleito apenas neste ano, após as eleições para presidente e depois da escolha da Mesa Diretora, no dia 1º.
Na articulação para sua recondução, Lira direcionou esforços para que Jhonatan fosse eleito. O parlamentar participou de reuniões realizadas pelo presidente da Câmara com bancadas estaduais e pediu voto para sua candidatura.
Na Câmara, Jhonatan se envolveu em controvérsias. O deputado gastou R$ 70,4 mil fundo eleitoral em um posto de gasolina que pertence às suas irmãs. Ele negou irregularidades nos pagamentos, declarados em sua prestação de contas e aprovados pelo Tribunal Regional Eleitoral de Roraima.