SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há uma crise das direitas no Brasil. O campo conservador se deixou levar pela radicalização, passou a adotar a linguagem da extrema direita e viu a própria identidade política se confundir com ela.

Para Odilon Caldeira Neto, professor de história contemporânea da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), longe de uma tese conciliatória, a única saída para esse impasse é uma autocrítica.

Em entrevista à reportagem, o pesquisador do neofascismo e da extrema direita no país revela a simbologia cifrada que esse grupo usa para se comunicar, aborda a tendência do surgimento de figuras como o influenciador Pablo Marçal nas eleições de 2026 e defende a atualização do arcabouço de mapeamento dessas entidades antidemocráticas, da leitura, da análise e da resposta institucional.

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PERGUNTA - O que é extrema direita hoje e como ela se manifesta no Brasil?

ODILON CALDEIRA NETO - A extrema direita é um universo próprio. É definida pelo culto à autoridade e autoritarismo, pela xenofobia, pelo culto ao passado, pela defesa de um tipo bem específico de nacionalidade. Sobretudo, ela é, do ponto de vista ideológico, programático, discursivo e efetivo, antidemocrática. Tem a ambição de subverter a democracia, não de reformá-la. O caso brasileiro foi muito nítido recentemente.

Quando olhamos para o caso de Jair Bolsonaro, ou daquilo que podemos eventualmente chamar de bolsonarismo, vemos um padrão histórico consolidado, mas, ao mesmo tempo, Bolsonaro, no primeiro momento, se consolidou a partir de um processo eleitoral. Na reeleição, teve uma busca por uma ruptura antidemocrática.

Então, essas categorias, por mais que sejam úteis, analiticamente, são tênues e finíssimas linhas na realidade política. Se a utilizarmos uma categoria interpretativa para o primeiro Bolsonaro, ele estaria mais no campo da direita radical. Depois, não há dúvida que é uma figura de extrema direita. Precisamos olhar para a extrema direita a partir desse jogo de passado e presente e das mutações ao longo dos anos.

P - O sr. balançou a cabeça quando falou de bolsonarismo. Dá para falar em bolsonarismo, como conceito?

OCN - Do ponto de vista acadêmico, está em aberto. Em alguma medida, se consolidou utilizar o bolsonarismo como uma categoria analítica, mais do que um conceito. É minimamente viável quando vamos entender como Bolsonaro consegue estabelecer um ponto de convergência entre diversos atores políticos, [como] vai amalgamar facetas diversificadas da extrema direita, da direita radical brasileira, do conservadorismo católico, do conservadorismo neopentecostal, do agronegócio, dos militares, dos antifeminismos, da misoginia. Esse universo tão plural acaba sendo involucrado pelo Bolsonaro ?já não sei se é tanto pela capacidade política do próprio Bolsonaro ou não.

O mais importante é o fato de que Bolsonaro, ou o bolsonarismo, é um fenômeno da extrema direita. Do ponto de vista analítico me parece mais importante pontuar essas categorias que são menos associadas a figuras políticas eventuais. Não falamos em janismo para falar de Janio Quadros, de malufismo, do ponto de vista da academia, de eneísmo para falar de Enéas. O mais importante é uma categoria que consiga nos auxiliar a olhar o quadro de uma maneira mais ampla. Extrema direita e seus correlatos são mais úteis à curta, média e longa duração.

P - Com o ex-presidente preso, a tendência é que permaneçamos com o discurso extremista ou podemos pensar uma direita moderada nos próximos anos? Devemos nos acostumar com o extremismo?

OCN - Nunca podemos nos acostumar com o extremismo... Uma questão muito necessária, embora pouquíssimo provável, é a necessidade de uma autocrítica imensa das direitas brasileiras, porque o descrédito aos processos políticos eleitorais, à inviolabilidade das urnas eletrônicas antecedem? Foram naturalizados mesmo antes da ascensão de Bolsonaro. Isso, paulatinamente, se intensifica, sobretudo após o processo de chegada de Bolsonaro à liderança do campo político e, posteriormente, à eleição, levando a uma radicalização do campo conservador.

O campo conservador brasileiro começa a falar a partir de uma linguagem de extrema direita. Até a identidade política direita no Brasil se confunde com a identidade política de extrema direita. É pouco provável, mas necessário que a direita faça uma autocrítica para entender o que se perdeu, o que é necessário fazer daqui em diante. Podemos almejar esse retorno a uma normalidade. Existe uma crise das direitas no Brasil que se deixaram levar à sua própria radicalização, e é necessário que essa crise seja resolvida com uma série de autocrítica.

P - O sr. acredita que uma figura como Pablo Marçal pode surgir nas eleições presidenciais de 2026 ou nas proporcionais, com esse perfil digital, disruptivo?

OCN - É uma tendência, por diversas razões. Do ponto de vista majoritário, me parece pouco provável. O arranjo que se tem do campo bolsonarista é a tentativa de manter uma coesão. A estratégia política que parece estar sendo adotada por Jair Bolsonaro e pelas figuras-chave do clã Bolsonaro é uma tentativa de manutenção do poder. Neste momento, uma figura mais disruptiva, não somente para o centro nevrálgico do bolsonarismo, mas do ponto de vista estratégico, não fará frente à figura do campo bolsonarista.

Agora, se olharmos para o universo mais amplo, para o campo de deputados estaduais, federais, sem dúvida alguma vamos ter uma pulverização do repertório da extrema direita por pautas associativas das mais diversificadas, que podem estar associadas ao universo do ultraliberalismo, fazendo aceno não apenas aos expoentes do próprio campo bolsonarista, mas tendo as estratégias de figuras como Javier Milei.

A lógica do ultraliberalismo, do self-made man, que já foi tão trazida por Pablo Marçal nas eleições mais recentes, tendem a se intensificar. Do ponto de vista da política local, das pautas de identidade, das questões dos direitos reprodutivos, do conservadorismo moral e religioso, são questões mais intensificadas.

P - Neste ano, ganhou muita proeminência a série "Adolescência", com a questão de adolescentes usarem simbologia de red pills. Também houve o caso do vídeo do Felca, em que [foi revelado que] pedófilos usavam uma linguagem para ficar fora do radar. O sr. tem um trabalho nesse sentido [de estudo da simbologia], a Topografia do Extremismo. Existem símbolos políticos sendo usados fora do radar?

OCN - Nesse universo da radicalização online, existe um espaço de simbologia, de discurso, identidade política muito fluido. É aquilo que prefiro chamar de universo do próprio neofascismo, que transcende a política institucional. São organizações, tendências políticas que olham com absoluto descrédito e ojeriza às instituições políticas democráticas e passam a fazer tanto um resgate do passado, do nacional-socialismo, do integralismo brasileiro, do fascismo italiano, como atualizar os seus repertórios.

Logo, esses grupos anti-institucionais, esses grupelhos de extrema direita neofascista vão utilizar simbologias que estão fora do mainstream da política. Seja porque são simbologias que foram usadas há dezenas de anos no universo do fascismo histórico, seja porque vão utilizar simbologias cifradas que fazem referência a esse universo, como alguns emojis. Por exemplo, a caveira, pode significar a ideia tanto do culto à morte quanto a ideia de uma identidade do aceleracionismo, que é uma subvertente das extremas direitas mais recentes. A ideia da espada, do copo de leite, da taça de vinho, dos relâmpagos, fazendo referência, duplicado, com as SS nazista.

P - A legislação brasileira proíbe explicitamente a simbologia nazista, da suástica, apologia ao nazismo. Que outros símbolos e correntes de extrema direita o senhor adicionaria a esse rol?

OCN - O problema da extrema direita, como pensado no Brasil, deu conta de responder às urgências da transição democrática, quando começou a existir no Brasil a formação de um neofascismo tardio: neonazismo, neofascismo, e neointegralismo. Na atualidade existe um universo simbólico muito distinto. Será que apenas uma questão de atualização da proibição de símbolo: em vez de ter um símbolo, seria necessário ter 30 símbolos a serem proibidos? Esse é um debate, mas não se exaure dessa maneira, porque as simbologias vão sendo construídas.

É importante a manutenção e a ampliação pelos órgãos de segurança da percepção sobre a complexidade desse universo. Ou seja, mais do que fixar apenas o ponto de vista jurídico, é necessária a ampliação no cenário de mapeamento dessas entidades antidemocráticas, da leitura, da análise e da resposta institucional. Se a questão fosse solucionada exclusivamente do ponto de vista jurídico, pela discussão de quais símbolos são ou não proibidos, quais são legalizados com ressalvas, deixamos de pensar na prevenção e na leitura do fenômeno. Mas, sem dúvida, é necessário também um debate sobre a atualização dessas simbologias e olhar para casos de sucesso, como o da Alemanha e de outros países.

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Raio-X | Odilon Caldeira Neto, 41

Historiador, professor de história contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora e pesquisador do CNPq, é coordenador do Observatório da Extrema Direita e do Laboratório de História Política e Social da UFJF e autor de "Neofascism and the Far Right in Brazil" (Cambridge University Press, 2025) e coautor de "O Fascismo em Camisas Verdes" (FGV Editora, 2020).

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