BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A cúpula do Congresso deve desfalcar do ato organizado pelo presidente Lula (PT) para marcar os três anos dos ataques às sedes dos Poderes em 8 de janeiro de 2023.

Tanto o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), como o do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), indicaram a aliados que não pretendem comparecer à solenidade, que será realizada na quinta-feira (8) no Palácio do Planalto.

Além de promover um ato de repúdio aos ataques, Lula quer, no mesmo evento, vetar o projeto que o Congresso aprovou para reduzir as penas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de outros condenados no processo da trama golpista.

As sedes dos Poderes foram atacadas em 8 de janeiro de 2023 por grupos descontentes com a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro na eleição presidencial do ano anterior. A reação às depredações uniu a cúpula da República em torno do chefe do governo. Nos anos seguintes, esse poder de aglutinação mingou.

As ausências ocorrem em um momento de reaproximação entre Lula e o Legislativo. O petista e Alcolumbre estão reconstruindo a relação depois de o presidente do Senado ter ficado contrariado com a indicação, pelo chefe do Executivo, de Jorge Messias para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal). Alcolumbre e outros senadores gostariam que o indicado fosse Rodrigo Pacheco (PSD-MG), ex-presidente da Casa.

Motta e Lula terminaram 2025 com uma relação mais fluida. Aliados do presidente da Câmara, porém, afirmam que ele não deve comparecer à solenidade porque o ato tende a acirrar a disputa entre petistas e bolsonaristas. Motta chegou ao comando da Casa com apoio dessas duas forças e prefere não tomar parte nos principais choques entre elas.

Em 2023, no dia seguinte aos ataques, Lula conseguiu reunir governadores e a cúpula dos Poderes em um ato logo após a destruição causada na Praça dos Três Poderes. O então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), participou. Rodrigo Pacheco, que na época presidia o Senado, foi representado pelo senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), que era seu vice e exercia a presidência da Casa naquele momento.

Em 2024, foi organizada uma primeira cerimônia para lembrar o primeiro aniversário do 8 de janeiro. À época, o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou que tinha problemas familiares e não compareceu. Pacheco, que comandava o Senado, esteve presente. Em seu discurso, Lula disse que o perdão aos envolvidos nos ataques soaria como impunidade.

Em 2025, o comparecimento da cúpula do Congresso foi ainda menor que no ano anterior. Lira e Pacheco não foram, tampouco Motta e Alcolumbre ?os dois seriam eleitos presidentes da Câmara e do Senado semanas depois, e já eram favoritos nas respectivas disputas.

"Os responsáveis pelo 8 de janeiro estão investigados e punidos. Ninguém foi ou será preso injustamente. Todos pagarão pelos crimes que cometeram, todos", disse Lula na ocasião, meses antes de o STF condenar Bolsonaro e seus principais aliados.

As condenações dos envolvidos no 8 de Janeiro foram um dos principais temas do Congresso no fim do ano passado, quando o Legislativo aprovou um projeto que reduz as penas de Bolsonaro e de seus aliados punidos no mesmo processo.

Lula confirmou a jornalistas dias depois que vetaria o texto. Integrantes da oposição já falam abertamente em rejeitar o veto anunciado pelo presidente da República e fazer valer a redução de penas. Mesmo políticos de partidos aliados ao governo confirmam, reservadamente, que é grande a possibilidade de o veto ser derrubado.

"Se vetar, vai forçar reunião do Congresso, porque vamos derrubar", disse o líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ). "Assim que a gente voltar vamos trabalhar para derrubar, sim", disse Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido na Câmara. O Congresso está em recesso e só retorna a funcionar normalmente no começo de fevereiro.

A possibilidade de o veto ser derrubado foi mencionada pelo próprio Lula no dia em que falou em barrar o projeto de lei. "O Congresso tem o direito de fazer as coisas. Eu tenho o meu direito de vetar. Depois, eles têm o direito de derrubar meu veto ou não. É assim que é o jogo", declarou o presidente da República, na ocasião.

O Congresso pode derrubar um veto presidencial se a maioria dos deputados e a maioria dos senadores votar nesse sentido.

A rejeição do veto à redução de penas é quase certa na Câmara, onde a proposta foi aprovada por 291 votos a favor e 148 contrários. No Senado, a votação foi menos elástica ?48 a 25?, mas ainda assim a análise mais recorrente é de que o veto seria derrubado.

Alguns governistas acreditam que há chance de a conjuntura política mudar até a volta dos trabalhos do Congresso, o que abriria a possibilidade de uma manutenção do veto.