SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A ida de Jair Bolsonaro (PL) para a Papudinha, em Brasília, expôs uma divisão entre apoiadores do ex-presidente sobre as eleições deste ano e resultou em embate público entre estrategistas ligados a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a Tarcísio de Freitas (Republicanos) nesta sexta-feira (16).

Bolsonaro deixou a sala em que estava na sede da Polícia Federal, em Brasília, por decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. Familiares do ex-presidente reclamavam que o espaço não era adequado às suas necessidades médicas. A mudança foi determinada nesta quinta-feira (15), após Moraes se reunir com Michelle Bolsonaro e em meio a relatos de que Tarcísio procurou ministros da corte.

O governador confirmou que fez contatos sobre o tema durante entrevista nesta sexta-feira (16), em Cubatão, na Baixada Santista, mas sem entrar em detalhes. "Fiz contato sobre esse assunto desde o final do ano passado. Nosso interesse, nosso pedido, era para que Bolsonaro possa ir para a prisão domiciliar", disse.

Nem Tarcísio nem Michelle comemoraram a decisão. Ele, na entrevista, e ela, nas redes sociais, destacaram que o ideal seria que o ex-presidente estivesse em casa. Outros aliados, porém, elogiaram a dupla.

Na manhã de sexta, o pastor Silas Malafaia, organizador de manifestações bolsonaristas na avenida Paulista, escreveu em letras maiúsculas "parabéns a Michelle e Tarcísio" em uma publicação em rede social. "Souberam articular para tirar Bolsonaro da PF para um lugar melhor. Certas vitórias se conquistam por etapas", afirmou, ao ressaltar que a nova prisão não era "ideal" e que Bolsonaro era, segundo ele, um perseguido político.

"A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o governador Tarcísio de Freitas estão se mostrando gigantes na defesa da saúde do presidente Jair Bolsonaro. Cada um no seu estilo, tenho acompanhado de perto como eles estão incansavelmente lutando pela prisão domiciliar", disse em rede social o ex-secretário de Comunicação do ex-presidente Fabio Wajngarten.

Nos bastidores, parte dos aliados de Bolsonaro, em especial dirigentes de partidos da direita e do centrão, ainda alimenta a expectativa de que Flávio desista de tentar a Presidência para abrir espaço a Tarcísio, visto como um nome com menos rejeição e com chance de vencer Lula (PT) na eleição.

Tarcísio tem dito publicamente que disputará a reeleição. Integrantes do clã Bolsonaro, contudo, ficaram incomodados com notícias de que o governador articulou a mudança de local de custódia do ex-presidente. Eles afirmam que a divulgação das conversas do governador com ministros, ocorrido poucas horas antes de Bolsonaro deixar a PF, teve o objetivo de atribuir a Tarcísio o mérito da decisão.

"Tenho convicção absoluta, diante dos fatos mais recentes, de que o objetivo jamais foi medir forças com os filhos de Jair Bolsonaro. Isso sempre foi apenas a superfície do jogo. O verdadeiro intento, ainda que de forma dissimulada, é medir forças com o próprio Jair Bolsonaro", disse o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL), também em rede social -a frase foi interpretada por aliados do governador como uma indireta a Tarcísio.

Ao fazer a publicação elogiosa a Tarcísio, Wajngarten também fez uma defesa indireta do governador. "Ao contrário de algumas ilações, tudo isso tem como único objetivo salvar a vida do presidente. Agradeço publicamente aos dois porque precisamos do maior líder que o Brasil já teve com saúde e livre", escreveu.

"Quanto aos parasitas já derrotados em eleições recentes, melhor procurarem outras agendas do que promoverem reuniões sem nexo, sem resultados e que visam à autopromoção exclusivamente", afirmou o ex-secretário, encerrando a mensagem.

A última frase foi uma indireta ao empresário Filipe Sabará, ex-coordenador da campanha de Pablo Marçal (PRTB) à Prefeitura de São Paulo, que tem feito reuniões com nomes do mercado financeiro e outros grupos tratando a candidatura de Flávio como irreversível. Sabará tenta consolidar o senador como candidato, mas tem atraído críticas de grupos entusiastas de Tarcísio e também de bolsonaristas que não o aceitam -ele foi secretário de João Doria na prefeitura da capital.

No começo da noite, embora não tenha sido citado nominalmente, Sabará divulgou uma nota rebatendo Wajngarten.

"De um lado, uma carta, escrita a próprio punho por Jair Bolsonaro, maior líder da direita, contendo uma missão ao seu filho mais velho", diz o texto. "De outro, uma 'forçação de barra' por grupos de interesse, usando a luta legítima de uma esposa, desesperada pelo alívio do seu marido, grupo que vem plantando notas e pesquisas e usando o governador Tarcísio como manobra, para tentarem minar a candidatura [de Flávio] que já se mostrou a mais forte e viável contra Lula", disse Sabará.

À reportagem ele confirmou que a nota era dirigida a Wajngarten.

A mudança de prisão de Bolsonaro ocorreu pouco depois de Tarcísio publicar nas redes sociais um vídeo com críticas à condução da política econômica do país. A publicação recebeu um comentário de sua mulher, Cristiane, dizendo que o país precisa "de um novo CEO, meu marido". Michelle curtiu a mensagem.

O gesto fez filhos de Bolsonaro criticarem Tarcísio e sua mulher. Ainda na quinta-feira, o governador foi questionado sobre os ataques a ela, mas preferiu não responder.