BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Mais da metade dos diretórios estaduais do MDB assinou manifesto a favor da neutralidade do partido nas eleições presidenciais. O documento será entregue nesta terça (3) ao presidente nacional da legenda, o deputado Baleia Rossi (SP), com a intenção de mostrar que a ala que defende que aliança com o presidente Lula (PT) é minoritária.
"Esse manifesto, com todas essas assinaturas, mostra que é absolutamente zero a chance de o MDB se coligar com o PT em nível nacional", afirma o vice-governador e presidente do MDB de Goiás, Daniel Vilela.
Os petistas têm falado abertamente em oferecer a vaga de vice-presidente ao MDB, de forma a ampliar a aliança para a reeleição e reforçar o aceno ao centro político, como ocorreu com a escolha do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (um ex-tucano hoje no PSB) para o cargo.
O manifesto contra a aliança nacional com o PT é assinado pelos presidentes da Fundação Ulysses Guimarães e dos diretórios do MDB de 16 estados, incluindo São Paulo, que é comandado por Baleia.
Outro a assinar é o presidente do diretório de Minas Gerais, o deputado federal Newton Cardoso Jr, apesar das tratativas dentro do PT para que o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD) se filie ao partido e concorra ao governo mineiro dando palanque a Lula no segundo maior colégio eleitoral do país.
Também endossam o texto três vice-governadores que assumirão o governo até abril e vão concorrer à reeleição: Vilela em Goiás, Gabriel Souza no Rio Grande do Sul e Ricardo Ferraço no Espírito Santo. O trio rejeita o alinhamento ao PT em seus estados. São signatários, ainda, os prefeitos de 2 das 5 capitais governadas pelo MDB: Ricardo Nunes (São Paulo) e Sebastião Melo (Porto Alegre).
O grupo do MDB contrário à coligação com o PT defende que os diretórios estaduais devem ter autonomia para escolher a melhor aliança para fortalecer o partido e, por isso, cobram que a direção nacional adote postura de independência em relação aos candidatos à Presidência.
Cada seção estadual ficaria livre para apoiar quem melhor representar os interesses locais -em geral, Lula nos estados do Nordeste e parte do Norte e candidatos de direita no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
A confecção do manifesto que reúne apoio de mais da metade dos diretórios foi liderada por Vilela, que assumirá o Governo de Goiás nos próximos dias, com a renúncia de Ronaldo Caiado (PSD) para tentar concorrer à Presidência. O emedebista disputará a reeleição e pretende manter o partido afastado do PT.
Ele entregou uma carta própria a Baleia na semana passada, com críticas ao governo Lula e o pedido para que a Executiva nacional já se posicione sobre a posição do MDB na eleição presidencial. No texto, ele defende que a maioria da sigla e dos votantes na convenção "é frontalmente contrária a uma aliança eleitoral com o PT", e que "a indefinição gera ruídos desnecessários ao nosso partido".
"Temos de ser claros quanto ao que defendemos para nosso país. Entendo que é inconcebível que um partido com a história e o tamanho do MDB seja alvo de ataques desarrazoados, taxado como golpista até em desfile de Carnaval patrocinado pelo atual governo do PT, sem manifestar sua profunda insatisfação", diz o documento do diretório goiano.
O movimento é uma reação a declaração de líderes do PT e da ala encabeçada pelos diretórios de Alagoas, do ministro Renan Filho (Transportes), e do Pará, do governador Helder Barbalho, que discutem a possibilidade de aliança nacional entre os partidos. Helder e Renan Filho são cotados para ocupar a vice, conforme o próprio ministro petista Camilo Santana (Educação) admitiu em entrevista à Folha.
Pai do ministro, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) tem dito que a coligação terá mais votos na convenção do partido em junho.
Essas declarações, na opinião de Vilela, atrapalham o partido. "Da parte do diretório estadual do MDB de Goiás, além de reafirmar com clareza nossa posição contrária a uma aliança com o PT, vamos iniciar um movimento de mobilização com outros estados para que o nosso partido assuma de forma clara e contundente aos brasileiros que não está e jamais estará aliado a um governo que promove o retrocesso", avisou, no documento entregue ao presidente nacional da sigla na semana passada.
De acordo com três emedebistas, a carta mais ampla, apoiada por outros 15 presidentes estaduais, é mais suave do que o documento do diretório goiano e não prega abertamente a oposição ao PT, mas também deixa claro que a maioria dos diretórios é a favor da independência, para que cada um escolha o candidato que achar mais conveniente para a estratégia regional.
Vilela, por exemplo, faz campanha por Caiado, seu aliado. Gabriel Souza defende o nome do governador Eduardo Leite, que trabalha para ser o candidato do PSD à Presidência. Outros diretórios, como o do Rio de Janeiro, vão pedir votos para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), enquanto a maioria dos do Nordeste defende a reeleição de Lula.
Mais do que apontar um candidato, a carta assinada pela maioria dos presidentes estaduais busca mostrar que o grupo contrário ao PT é maior do que a ala favorável a apoiar Lula. O movimento ocorre às vésperas da abertura da janela para que deputados troquem de partido. A percepção de lideranças emedebistas é de que a possibilidade de aliança com a esquerda estaria afastando filiações.