BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - As supostas mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, criaram uma nova crise na corte, afastando a sensação de trégua que havia sido observada quando Dias Toffoli deixou a relatoria do caso.
A avaliação manifestada à reportagem por dois ministros influentes do tribunal, assim como por outros auxiliares e interlocutores dos magistrados, é de que o desgaste volta a deixar o Supremo vulnerável perante a opinião pública, mas agora com um peso ainda maior. Isso porque Moraes, além de ser o atual vice-presidente, é tido pela maioria dos colegas como um pilar da corte na defesa da democracia.
A situação é descrita nos bastidores como mais grave do que a crise envolvendo Toffoli, considerado um ministro com menos protagonismo na engrenagem do STF.
O presidente do tribunal, Edson Fachin, já manifestou a auxiliares seu incômodo com as menções a Moraes no celular de Vorcaro.
Fachin sinalizou a esses interlocutores um lamento de ter de enfrentar um novo problema em tão pouco tempo. Desde que Toffoli deixou o caso Master, o ministro vinha demonstrando otimismo com a recomposição da imagem do STF. Ele chegou a celebrar a unidade que se desenhava na corte em torno do debate sobre os penduricalhos salariais.
A leitura é de que Fachin volta a estar em um fogo cruzado sobre como lidar com o novo capítulo da crise. Se ele fizer uma defesa pública de Moraes, estará contrariando o seu próprio discurso a favor da ética, uma prioridade da sua gestão. O presidente do STF deve iniciar mais uma rodada de conversas internas para avaliar os próximos passos.
Uma ala do STF avalia que resgatar a confiança da sociedade no Judiciário, um mantra que Fachin repete tanto nos bastidores quanto em manifestações públicas, se tornou uma missão quase impossível, e que o presidente da corte terá de ser habilidoso na interlocução com o Senado Federal para frear eventuais processos de impeachment contra ministros.
Já há uma expectativa de que o bolsonarismo use o suposto diálogo entre Moraes e Vorcaro como "munição anti-STF" e coloque em dúvida a atuação do ministro até em questões não relacionadas ao Master, como a condução dos inquéritos da trama golpista e das eleições de 2022, quando era presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
O desgaste se soma ao fato de o escritório da advogada Viviane Barci, esposa de Moraes, ter firmado com o Master um contrato de R$ 3,6 milhões mensais para representar os interesses da instituição financeira. O ministro disse publicamente que magistrados estão formalmente impedidos de julgar qualquer caso para o qual seus parentes advoguem.
Segundo o jornal O Globo, foram nove mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes entre as 7h19 e as 20h48 de 17 de novembro, dia em que o banqueiro foi preso. O jornal relata, a partir de dados obtidos do celular do executivo, que o empresário narrava negociações para tentar salvar o Master e que o ministro respondia por mensagens de visualização única.
Em nota, Moraes diz que não recebeu as mensagens descritas na reportagem. "Trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal", afirma. A defesa de Vorcaro pediu ao STF que investigue os vazamentos e destacou que as conversas com autoridades foram "talvez editadas e tiradas de contexto".