BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Lula (PT) confirmou nesta terça-feira (31) Geraldo Alckmin (PSB) como seu vice na chapa para a disputa eleitoral deste ano e preparou o terreno com seus ministros que sairão candidatos para um embate direto contra Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Em reunião com os titulares das pastas que se afastarão para disputar cargos e os sucessores dos ministérios, Lula afirmou que, se eleito, Flávio irá entregar o Brasil aos Estados Unidos. Segundo participantes, o petista voltou a chamar o adversário de "traidor da pátria".

Nesta terça, 14 novos ministros foram anunciados. A maioria das pastas deve ficar sob o comando de seus secretários-executivos, enquanto outras aguardam decisões, como é o caso das Relações Institucionais, posição de Gleisi Hoffmann (PT), que segue em aberto.

Ainda nos recados contra Flávio, o presidente criticou a recente viagem do senador aos Estados Unidos e afirmou que até mesmo minerais raros seriam entregues aos americanos, em um eventual governo do opositor. Lula também disse que a população brasileira precisa saber da ameaça do que chamou de entreguismo, segundo os relatos.

Prestes a deixar o governo para concorrer ao Senado pela Bahia, o chefe da Casa Civil, Rui Costa (PT), fez um balanço das ações da gestão petista e enfatizou que a população deveria ter conhecimento das entregas do governo, direcionando a fala ao ministro-chefe da Secom (Secretaria de Comunicação Social), Sidônio Palmeira.

"A minha dúvida é se o povo sabe disso, Sidônio. Acho que a gente tem que colocar como foco comparar e mostrar. O povo tem o direito de conhecer esses números e esses dados, porque houve uma mudança da água para o vinho, de um deserto de projetos, obras e governança, para um governo que tem um líder que montou uma equipe com vontade de trabalhar e produzir esses resultados", declarou.

A fala foi interpretada como uma cobrança pública do chefe da Casa Civil. Em sua apresentação, Sidônio atribuiu as dificuldades ao fato de o governo não ter explicitado, desde o início, o estado em que herdou a administração de Bolsonaro.

Sidônio só assumiu a comunicação em janeiro de 2025. Ainda em sua fala, ele rebateu Rui, afirmando que é necessário fazer uma síntese das informações na hora de comunicar as entregas.

Durante a explanação de Rui, Sidônio interveio e perguntou se agora o chefe da Casa Civil estava jogando a culpa para ele. Neste momento, o ministro Guilherme Boulos (PSOL) comentou para Gleisi: "Eles que são baianos que se entendam". A brincadeira do chefe da Secretaria-geral da Presidência foi ouvida pelos colegas.

Em sua apresentação, Rui também destacou as principais bandeiras da gestão mirando a reeleição do petista, como a isenção do IR (Imposto de Renda) para quem recebe até R$ 5.000 mensais e a ampliação do Minha Casa, Minha Vida.

Nas falas à equipe, o presidente também reforçou as defesas à soberania que devem nortear não somente sua campanha, como a de seus ministros. Nessa linha, aliados de Lula já afirmavam que a tendência seria repetir a parceria com Alckmin, após resultados obtidos pelo vice, que esteve à frente das tratativas do tarifaço, terem agradado ao presidente.

"O companheiro Alckmin vai ter que deixar o Mdic [Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços] porque ele é candidato a vice-presidente da República outra vez", declarou.

A equipe do petista chegou a cogitar que o posto de vice fosse ocupado por um nome do MDB, em gesto à sigla, o que acabou descartado. Pessoas próximas a Lula, como o ministro Camilo Santana (Educação), chegaram a afirmar publicamente que o partido seria a saída "mais viável" para a vice, com menção a nomes como o do ministro Renan Filho (Transportes) e o governador do Pará, Helder Barbalho.

Tentativas de aproximação também foram feitas por parte do presidente do PT, Edinho Silva, mas o próprio partido apontou resistências a se aliar a Lula -mais da metade dos diretórios estaduais do MDB assinou manifesto a favor da neutralidade do partido nas eleições presidenciais.

O chefe do partido afirmou recentemente que essa aliança com a sigla se daria apenas nos estados, o que deve se manter.

Na reunião, o petista também pediu aos ministros que se afastarão que atuem para mudar a "promiscuidade" presente na política.

"O importante é que vocês sejam convencidos da importância da participação de vocês e da importância do cargo que estão disputando e, mais ainda, que estejam dispostos a entrar na vida congressual, parlamentar, para ajudar a mudar a promiscuidade que está estabelecida na política mundial e brasileira", declarou.

Segundo Lula, alguns sairão do governo "por missões muito mais importantes nos próximos meses".

"A política piorou muito. Hoje ainda tem muita gente séria, que faz política com P maiúsculo, mas a verdade é que, em muitos casos, a política virou negócio. Quem está sendo candidato sabe: os cargos têm um preço muito alto", disse Lula.

"Chegamos hoje a uma situação, inclusive, de degradação de algumas instituições. Daí a necessidade de vocês serem candidatos, porque é possível mudar e só vai mudar se convencer o povo de que ele, e somente ele, tem condições de mudar o quadro político."

Na despedida, Lula recomendou defesa de seu governo, além de agradecer pelo trabalho dos ministros. Um dos novos nomes da Esplanada confirmados foi o do secretário especial de Análise Governamental da Casa Civil, Bruno Moretti. Como mostrou a Folha de S. Paulo, ele assumirá o Planejamento e Orçamento no lugar de Simone Tebet (PSB), que vai concorrer ao Senado em São Paulo.

O objetivo do encontro também foi instruir que a equipe leve o legado e entregas de toda a Esplanada, e não apenas de seus ministérios. O presidente disse esperar que os ministros sejam sua voz, pernas e braços nos estados

"Tomei como decisão não colocar ministro novo. Temos uma máquina que funciona há três anos e três meses. Não quero que nenhum ministério comece tudo outra vez. Não tem novo plano de governo. Temos muita coisa para concluir até 31 de dezembro, e a obrigação de quem fica é concluir, fazer com que a máquina fique sem nenhuma paralisação. Temos confiança na equipe que vocês montaram e que vão deixar trabalhando", disse Lula.