SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ex-ministro dos Direitos Humanos Silvio Almeida publicou um vídeo em suas redes sociais na noite desta terça-feira (31) no qual voltou a defender sua inocência diante da acusação de importunação sexual à ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco.
A nova manifestação pública ocorre após a PGR (Procuradoria-Geral da República) ter denunciado Almeida ao STF (Supremo Tribunal Federal) neste mês, em processo que corre sob sigilo e é conduzido pelo ministro André Mendonça.
"Eu sou um homem inocente. O que tenho a dizer sobre esse caso eu direi no lugar certo, na justiça. E é lá que eu poderei me defender de verdade, apresentando provas e mostrando como uma causa tão importante foi usada para me tirar da vida política. Durante o inquérito, na prática, eu não pude me defender", diz Almeida no vídeo.
O indiciamento de Silvio Almeida ocorreu em novembro de 2025 pela PF e foi embasado pela suspeita de importunação sexual contra Anielle e a professora Isabel Rodrigues. A denúncia da PGR, no entanto, aborda apenas o caso de Anielle. O segundo caso foi enviado à primeira instância para seguir a jurisprudência do STF, já que, à época dos fatos relacionados à professora, Almeida não era ministro.
Apresentada no dia 4 de março pelo procurador-geral, Paulo Gonet, a denúncia afirma que há indícios que respaldam o relato de Anielle. Dentre os depoimentos que corroboram as declarações da ministra está o do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Silvio Almeida chegou a dizer, em entrevista ao UOL, em 2025, que Anielle teria "se perdido no personagem" e caído em uma armadilha política. A postura de Silvio Almeida desde a revelação das informações foi a de repudiar as acusações e negar que tivesse cometido os supostos crimes.
Nesta terça, voltou a afirmar que continuará na vida pública apesar das "acusações irresponsáveis".
"Criou-se também sobre mim a imagem de um homem poderoso. Mas o homem poderoso, convenhamos, não é demitido em 24 horas e sem direito à defesa. Acusações irresponsáveis têm lugar e hora certa para serem respondidas à justiça. Eu tenho livros a publicar, artigos e projetos nas áreas de educação e também na advocacia. Nas próximas semanas voltarei a falar do que sigo fazendo", afirmou.
Após a denúncia da PGR ter vindo a público, Anielle afirmou que a nova etapa do processo é um estímulo para que mulheres que vivem ou que viveram episódios de violência denunciem os agressores e "não sofram em silêncio". Procurada na ocasião, a defesa do ex-ministro afirmou que o caso permanecia sigiloso e reafirmou declarações anteriores de que as acusações não têm materialidade e que são ilações.
Sem citar diretamente o nome de Anielle, Almeida afirma no vídeo publicado nesta terça que "há movimentações muito previsíveis a quem não tenha nenhuma realização para mostrar, nenhuma proposta para oferecer e que, por isso, chega ao ponto de incriminar uma pessoa inocente apenas para eliminar aquele que considera um adversário. Ou para erguer sobre uma mentira uma bandeira eleitoral."
A ministra da Igualdade Racial está entre os integrantes do governo Lula que devem deixar suas pastas para concorrer às eleições deste ano. Ela deve sair candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro.
As acusações contra Almeida foram recebidas inicialmente pela organização Me Too Brasil. As vítimas relataram casos de assédio e importunação sexual. Dois inquéritos foram abertos para investigar o caso, um pelo MPT (Ministério Público do Trabalho) e outro no STF, a pedido da PF.
O caso levou o presidente Lula a demitir Almeida um dia após a revelação das denúncias, em setembro de 2024. Antes da decisão, o petista se reuniu separadamente com Almeida e, após publicar a demissão, com Anielle Franco. Desde então a pasta dos Direitos Humanos é comandada por Macaé Evaristo.
Anielle confirmou as acusações em depoimento à PF em outubro de 2024. Segundo seu relato, as "abordagens inadequadas" de Almeida, como definiu, começaram no fim de 2022, quando os dois passaram a fazer parte do grupo de transição de governo nomeado por Lula antes da posse dele como presidente da República.
À revista Veja a ministra disse que houve "atitudes inconvenientes" por parte de Almeida, como toques inapropriados e convites impertinentes, mas que ela não reportou os episódios por "medo do descrédito e dos julgamentos", além da sensação de que a culpa era da vítima, não do agressor.
No caso da professora, ela publicou um vídeo acusando o ex-ministro de tê-la tocado sem consentimento durante um almoço na presença de outras pessoas, em 2019, antes de ele se tornar ministro.
