BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Primeira mulher a ocupar o posto de general de brigada do Exército brasileiro, Claudia Lima Gusmão Cacho, 57, afirmou que sua promoção oficializada nesta quarta-feira (1º) não aconteceu "nem tarde nem cedo" e disse que "responsabilidade e competência não têm gênero".
"Foi o tempo necessário, desde a minha entrada até chegar hoje", afirmou a militar após a cerimônia em Brasília, onde ela recebeu a espada de general e o bastão de comando, símbolos de autoridade exclusivos dos oficiais-generais da ativa.
"É o reconhecimento do Exército Brasileiro a uma trajetória de quase 30 anos dentro da Força, desde aspirante oficial-médica até, hoje, chegar a esse cargo de oficial-general. Eu me sinto reconhecida pelo trabalho, o mérito que me acompanhou durante essa trajetória. É o meu sentimento maior: gratidão. E muita disponibilidade e aumento da responsabilidade", completou.
Natural do Recife, Claudia Gusmão é médica pediatra e ingressou no Exército em 1996. Agora, ela irá assumir a direção do HMAB (Hospital Militar de Área de Brasília).
A posição de general de brigada figura entre as principais da hierarquia do Exército, que completará 378 anos em 19 de abril. O ingresso feminino em turmas oficiais da linha militar bélica ?o que permite a promoção ao cargo? foi autorizado apenas em 2012.
Em entrevista a jornalistas, a general afirmou que as mulheres têm potencial para ocupar diferentes posições ao mesmo tempo e destacou a importância de a família ser uma rede de apoio nesse processo.
"Nós temos a característica, o potencial de ser tudo isso ao mesmo tempo. Médica, mãe, militar. Eu consegui ser médica, ser militar, fazer os cursos que eu quis e nunca deixei de ser mãe, de ser aquela pessoa que estava presente ao lado das minhas filhas e ao lado do meu esposo", disse.
Questionada sobre a influência que pode ter para a entrada de outras mulheres no Exército, a primeira general de brigada afirmou que aquelas que se interessarem pela carreira militar devem se capacitar e se preparar.
"Que elas acreditem nelas mesmas, que elas têm competência, têm responsabilidade. Elas podem chegar. Como a gente diz, responsabilidade e competência não têm gênero. Hoje há inúmeras possibilidades de ingresso nas Forças Armadas, seja como militar de carreira, como temporário. A profissão militar tem as peculiaridades. A gente precisa estar preparado para isso", afirmou.
A solenidade no Clube do Exército promoveu 17 coronéis ao posto de general de brigada, 11 generais de brigada ao de general de divisão e 2 generais de divisão ao de general de Exército ?que passarão a integrar o Alto Comando.
Única autoridade a discursar no evento, o chefe do Estado-Maior do Exército, general Francisco Humberto Montenegro Junior, afirmou que a promoção de Claudia Gusmão tem "especial significado histórico" e representa "a maturidade de um Exército que reconhece seus talentos de forma justa".
O comandante do Exército, general Tomás Paiva, disse que a Força também pretende incluir mulheres em armas mais combatentes. "Aos poucos, elas estão se integrando em todas as nossas atividades operacionais. A nossa ideia é continuar os estudos e a gente faz tudo com muita tranquilidade para poder se preparar para recebê-las bem", declarou.
"Com o tempo, vocês vão ver mulheres no alto comando do Exército Brasileiro. Vai acontecer", afirmou o ministro da Defesa, José Múcio, que esteve presente na cerimônia e articulou para que o presidente Lula (PT) assinasse na terça (31) o ato de promoção dos generais.
Múcio citou que o Ministério da Defesa incorporou no início de março 1.467 mulheres ao serviço militar inicial. Ao todo, foram 157 na Marinha, 1.010 no Exército e 300 na Força Aérea.
Segundo dados das Forças Armadas brasileiras, em 2023, havia cerca de 13 mil mulheres no Exército, correspondendo a 6% do contingente. Marinha e Aeronáutica tinham, respectivamente, 11% e 22%.
QUEM É A PRIMEIRA GENERAL DE BRIGADA DO EXÉRCITO
Após entrar na Força, Claudia Gusmão passou a fazer parte, como oficial temporária, do 42º Batalhão de Infantaria Motorizada, em Goiânia.
Posteriormente, foi aprovada na Escola de Saúde do Exército e concluiu, em 1998, o Curso de Formação de Oficiais Médicos. A matrícula da primeira turma de oficiais médicas, dentistas, farmacêuticas e enfermeiras de nível superior nessa escola aconteceu um ano antes, em 1997.
Ao longo dessas três décadas, Gusmão chefiou o Escalão de Saúde do Comando da 1ª Região Militar, foi subdiretora de Legislação e Perícias Médicas da Diretoria de Saúde e esteve à frente da Divisão de Perícias Médicas da Inspetoria de Saúde do Comando Militar do Nordeste. Ela também foi inspetora-adjunta de saúde do Comando da 9ª Região Militar.
Gusmão também fez parte da diretoria de três instalações hospitalares do Exército: o Hospital de Guarnição de Natal, o Hospital Militar de Área de Campo Grande e o Hospital Central do Exército. Entre as condecorações, já recebeu a medalha da Ordem do Mérito Militar no grau de oficial, a Medalha do Pacificador, entre outras.
