BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) prioriza consolidar uma maioria de senadores pró-impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) em 2027 ao escalar os nomes da direita que devem disputar as eleições de outubro, na contramão do discurso oficial adotado por seu filho na corrida ao Planalto.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem evitado expor desgaste com a corte e tentado pregar a estratégia de moderação, apesar de seu passado político.
Questionados pela reportagem a respeito de metas se eleitos ao Senado, pré-candidatos bolsonaristas falam em reequilibrar os Poderes e em impeachment de magistrados, especialmente de Alexandre de Moraes, relator da ação em que o ex-presidente foi condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Bolsonaro recebeu alta médica na sexta-feira passada (27) e, após autorização de Moraes, foi transferido para prisão domiciliar. O ex-presidente está desde então em casa, depois de duas semanas de internação e de ter permanecido desde janeiro na Papudinha, onde recebia visitas para articular as candidaturas do PL nas eleições.
A eleição para o Senado e o controle da Casa são prioridade para Bolsonaro, segundo quem o visitou nos últimos meses. O ex-presidente discutiu com políticos sua lista de nomes favoritos para o cargo de senador. Ele quer emplacar inclusive sua família no Senado -Michelle (PL) no Distrito Federal e Carlos (PL) em Santa Catarina.
O PL definiu que Bolsonaro é responsável por escolher os candidatos do partido para a Casa Alta, enquanto Valdemar Costa Neto, presidente da legenda, está encarregado de governadores e deputados.
Levantamento da reportagem mostra que o PL já tem 35 nomes lançados ou cogitados ao Senado. Desses, a reportagem conversou com 5 que apoiam a saída de Moraes e apurou que ao menos outros 24 já defenderam publicamente o impeachment do ministro ou assinaram pedidos pela instauração do processo.
Considerando também aliados de Flávio de outros partidos, há mais de 50 possíveis candidatos da direita bolsonarista.
De acordo com cálculos do ex-presidente, a direita bolsonarista (seja apenas o PL ou somando outras siglas aliadas, como o Novo) poderia eleger até 35 candidatos e, portanto, ultrapassar 41 senadores em 2027, garantindo a maioria da Casa.
Neste ano, cada estado elege dois representantes. Ou seja, serão eleitos 54 dos 81 senadores, cujo mandato é de oito anos. O PL tem atualmente 17 senadores, sendo que 7 estão no fim do mandato e 10 vão permanecer em 2027.
O partido pretende ter ao menos um candidato próprio ao Senado em cada estado --até agora, só não há opções de filiados para lançar no Amapá.
Com o controle do Senado, a ideia é eleger o presidente e fazer avançar pautas antes travadas pela cúpula da Casa, como o impeachment de ministros do STF.
Na sexta, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) explicitou os planos da família. "Os futuros senadores vão 'impichar' o Alexandre de Moraes. Vamos chutar para fora esses juízes corruptos. No dia seguinte, eu vou processá-lo pelos crimes que ele cometeu", disse em evento conservador nos EUA.
O deputado federal Sanderson (PL-RS), que vai disputar o Senado, diz que obter maioria é importante para Bolsonaro "porque ele é a vítima da maior perseguição da história do Brasil".
"A Suprema Corte está fora de controle, e quem pode fazer o controle é o Senado, só que nunca fez. Nós vimos que a maneira de tentar corrigir os rumos do Brasil era vencermos o Senado", afirma. Sanderson diz ver justa causa para impeachment de Moraes e Dias Toffoli.
Flávio, por sua vez, não tem fomentado o discurso anti-STF, algo que deve ficar a cargo de seus apoiadores e candidatos ao Legislativo. A estratégia do presidenciável é mirar o governo Lula (PT) e priorizar propostas.
A avaliação do entorno do senador é que a retórica beligerante do pai e o seu enfrentamento com os demais Poderes pesaram na derrota de 2022 e que esses erros não devem ser repetidos. Aliados de Flávio dizem também que ele, na condição de filho, quer evitar atrito com Moraes, que pode suspender a prisão domiciliar do pai.
Quando questionado, porém, Flávio faz críticas ao STF e defende o impeachment de ministros de forma protocolar. Ele também esteve, no início do mês, na manifestação bolsonarista contra Moraes e Toffoli.
"Vou defender sempre que, se comprovado crime de responsabilidade, sofra impeachment. No meu ponto de vista, houve infringência, como participação político-partidária e decisões sem embasamento legal onde o magistrado deveria se declarar impedido. Manterei minha postura favorável ao impeachment de ministro que descumpra a lei; isso não é antidemocrático", respondeu à CNN, na semana passada.
Pré-candidatos afirmaram à reportagem que não veem problema em Flávio evitar o embate com o STF. "Vejo ele focado na futura gestão à frente do Planalto", disse Sanderson.
Signatária de diversos pedidos contra Moraes, a deputada Bia Kicis (PL-DF), que deve disputar o Senado, afirmou que Flávio defende o impeachment, mas "tem que agir com cautela, porque ele já é alvo e vai ser cada vez mais".
O tom contra Moraes também foi atenuado entre postulantes ao Senado. O coronel Hélio Oliveira (PL-RN) disse que o impeachment é um instrumento legal, mas evitou mencionar nomes de ministros à reportagem, embora tenha publicações a favor da saída de Moraes.
A respeito de Flávio, afirma que ele "não precisa falar de impeachment de ministros, porque não é papel de presidente da República falar disso".
O ex-ministro Marcelo Queiroga (PL), que vai concorrer na Paraíba e também já tratou de impeachment nas redes, diz que isso "não é obsessão".
"Eu não vou ser candidato ao Senado para vir aqui e fazer impeachment de Alexandre de Moraes ou de qualquer um. Agora, existindo indícios de crime de responsabilidade, cabe a abertura de um processo, não com o intuito de se vingar de quem quer que seja, mas dentro do devido processo legal."
O deputado Filipe Barros (PL-PR), também postulante ao Senado, diz que o impeachment "é uma pauta, mas é inevitável uma reforma do Judiciário". "Esse é um debate que tem que ser feito de forma sóbria, com juristas, com todo o Senado envolvido, com os próprios ministros."
