BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Após ser cotada por PT, PSOL e PSB para compor o palanque de Lula (PT) em São Paulo, a agora ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva diz que não conversou com o presidente para decidir permanecer na Rede.

Em sua primeira entrevista desde o anúncio, ela reconhece à Folha que a definição sobre seu papel no pleito passará necessariamente pelo petista, mas reitera o plano de concorrer ao Senado ?ao lado de Simone Tebet (PSB) e aliada a Fernando Haddad (PT), que tentará o governo paulista pela segunda vez contra Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O ex-ministro Márcio França (PSB), que já governou São Paulo, disputa com ela esse posto na chapa. Ele anunciou recentemente sua pré-candidatura para senador.

A decisão de concorrer pela federação Rede-PSOL se dá enquanto, paralelamente, Marina busca na Justiça anular o resultado da última eleição interna da sigla que ela fundou em 2013.

O pleito foi vencido por Heloísa Helena, sob acusações de perseguição e interferência, e gerou uma debandada.

Em nota, o porta-voz da Rede, Paulo Lamac, disse que as acusações são uma "política destrutiva" do grupo de Marina, que "tenta enfraquecer eleitoralmente o partido", e que as intervenções feitas durante as eleições respeitaram o estatuto da sigla.

"As candidaturas serão definidas nas convenções partidárias. A Rede prioriza nacionalmente as candidaturas a deputados federais e as exceções deverão ser aprovadas nacionalmente. Continuamos aguardando a manifestação da ex-ministra, que vem se recusando ao diálogo com o partido. Marina, em nenhum momento, manifestou à direção nacional sua intenção de se candidatar ao Senado", disse.

CANDIDATURA AO SENADO

Não conversei com o presidente Lula [antes]. A minha decisão é aquela desde o início: estou disposta a ajudar no processo de manter o coeficiente civilizatório em São Paulo e no Brasil. Tive uma conversa com o ministro Fernando Haddad sobre as melhores alternativas para São Paulo, já que graças a Deus temos definido o vice-presidente [Geraldo] Alckmin e Simone ao Senado. Agora é discutir a melhor chapa para vice [ao governo] e, na segunda vaga ao Senado, tanto eu quanto o Márcio França estamos colocando o nosso nome à disposição.

A gente tem que estar aberto para construção coletiva, é isso que está sendo feito em São Paulo. Sei que tenho um potencial de contribuição, que se expressa nas pesquisas e nas relações ao longo de todos esses anos, mas temos também uma outra trajetória, do ministro Márcio França, uma pessoa que historicamente tem uma dedicação política e pública em São Paulo, e é legítimo também que se coloque.

É preciso ter um balanço nessa disputa. Defendo a ideia do bioma e do ecossistema: esse grande bioma da defesa da democracia não existe forte, usando a linguagem da biologia, se for homogêneo. Quanto mais diversificado de ecossistemas, mais ele é forte. Foi isso que deu a vitória ao presidente Lula em 2022, com uma frente ampla.

Portanto, quando eu decidi ficar na Rede, mesmo reconhecendo que há diferenças, que estão sendo tratadas judicialmente, estou advogando que o ecossistema Rede-PSOL, que é uma força política relevante, deva estar representado também na chapa majoritária. E no meu caso, todos reconhecem que há uma contribuição que vai além da própria federação.

OUTRAS POSSIBILIDADES DE CANDIDATURA

Vou fazer a campanha de Haddad e de Lula sendo candidata ou não.

[A vice de Haddad] é uma coisa que ele tem que pensar e ter toda a liberdade para isso. Essa não é uma questão que está posta.

[Ao mesmo tempo] me sinto muito honrada com o mandato de deputada que me foi dado [em 2022], mas é uma contribuição que já foi dada. Há pessoas ótimas, como Marina Helou, Rodrigo Agostinho, Sonia Guajajara, Nabil Bonduki ou Paulo Teixeira. Excelentes candidatos, quero que todos eles sejam eleitos. Nesse momento, entendo que a forma de contribuir é me colocando à disposição para a segunda vaga no Senado, a partir de elementos que são muito legítimos: o combate às desigualdades, defesa da diversidade, o debate da sustentabilidade, do desenvolvimento econômico em novas bases, em um momento tão desafiador em que a mudança do clima é uma realidade terrível e que um estado como São Paulo corre o risco de um colapso hídrico.

[A definição final será dada] num diálogo com os partidos que compõem o nosso bioma. Eu entro como parte do ecossistema.

PERMANÊNCIA NA REDE

Permaneço tentando dar coerência a essa tese que eu tenho do bioma. Ainda bem que [Guilherme] Boulos tomou a decisão de não sair [do PSOL], foi uma sábia decisão. É impossível que todas as nuances do campo de esquerda, da centro-esquerda, possam estar em um único partido.

Estamos numa federação. Quem vai assegurar a candidatura é a federação. Não vi ninguém da Rede dizer que não aceita que eu seja candidata. Essa é uma casa que eu ajudei a construir: sempre disse que eu era mais uma, mas mais uma que não abre mão de fazer parte dela.

Quando a Rede foi fundada era uma outra perspectiva. Houve uma mudança no estatuto, no programa do partido, e legitimamente, democraticamente, gostaria que a gente pudesse restaurar o que foi um espaço plural onde tinha lugar para todo mundo. É até difícil entender por que agora é assim.

A Rede reconhecia os diretórios democraticamente eleitos, não tinha como prática intervenções e foi criada para que as filiações, se guardassem coerência com programa e estatuto do partido, não fossem negadas.

Em função dessas mudanças, as pessoas tiveram que fazer uma espécie de diáspora, [o partido] foi enfraquecido. Por que de repente não tem lugar para elas?

Nós estamos no mesmo campo, todo mundo apoia o presidente Lula. Divergências são naturais, eu mesmo vivi dentro do PT durante 25 anos com diferenças políticas.

Relação com Tarcísio de Freitas

[Estivemos juntos] no combate aos incêndios de 2024. Temos alguns problemas. São Paulo é de longe o estado que tem mais base tecnológica, mais recursos financeiros para contribuir com um novo ciclo econômico. E me assusta ver a ameaça de mais uma vez ?mesmo depois de tudo que passamos em 2013, com escassez hídrica, racionamento? o risco para a segurança hídrica do estado.

GUERRA E MUDANÇA DO CLIMA

O Brasil é um dos países que não está imune à crise, mas anda atravessando melhor, em função de ter apostado em uma fonte renovável de energia, como é o caso dos biocombustíveis. A guerra está denunciando que nós precisamos urgentemente de mapas do caminho para sair da dependência do uso de combustíveis fósseis. O presidente Lula teve uma visão política que beira o profético na COP30.

Agora os cientistas estão dizendo que, no caso do Brasil, nós poderemos ter uma terrível onda de calor, crise hídrica, energética, de abastecimento. A realidade não muda porque as decisões políticas são tomadas contrárias a ela.

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Marina Silva