SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quem não tem Tarcísio caça com Flávio. É essa a fórmula adotada por líderes evangélicos que costumam apitar no jogo eleitoral, na linha de frente ou nos bastidores.
A pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência ainda é vista com cautela entre muitos pastores que apoiaram com muito mais entusiasmo seu pai, Jair Bolsonaro (PL), no passado.
Porém, o nome favorito dessa turma, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), é carta fora do baralho presidencial. Para concorrer a um cargo diferente do atual, chefes do Executivo devem renunciar seis meses antes da eleição. O prazo era 4 de abril, e Tarcísio não o fez. Tentar a reeleição é a opção que lhe resta.
Se há consenso de que Flávio superou as expectativas nas pesquisas, também há o temor de que esse desempenho não se sustente ao longo da campanha. Pesa a avaliação de que eventuais escândalos associados ao senador possam ganhar tração e corroer seu capital político. Soma-se a isso a percepção de que lhe falta o carisma mobilizador do pai, o que dificulta a transferência automática de apoio.
O mais recente levantamento do Datafolha mostra que, a depender apenas do eleitorado evangélico, Flávio lidera com folga a intenção de votos. Consideremos os dois grandes grupos demográficos do recorte religioso, que respondem por 78% dos 2.004 eleitores ouvidos em 137 cidades na semana passada.
Na pesquisa espontânea, sem candidatos apresentados de antemão, Lula tem 29% da preferência de católicos, e Flávio, 13%. Entre os evangélicos, o cenário se inverte: o senador aparece com 24%, e Lula, com 15%.
Quando o entrevistado se depara com uma tabela de nomes que já se colocaram como presidenciáveis, o petista mantém a vantagem entre católicos -43% contra 30% de Flávio. Já entre os crentes, o filho de Jair lidera com 49%, e o rival atinge 25%.
A tendência de polarização religiosa se mantém nas projeções para um segundo turno. Os fiéis subordinados ao Vaticano preferem Lula (51%) a Flávio (41%). No outro nicho cristão, o saldo é de 61% contra 30% a favor do senador.
A margem de erro é de três pontos para mais ou menos entre católicos, que são 49% dos entrevistados, e de quatro pontos no recorte evangélico, 29% da amostra. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral com o código BR-03770/2026.
É verdade que a candidatura de Flávio está saindo melhor que a encomenda. Em dezembro, o pastor Silas Malafaia disse à Folha de S. Paulo que alertou Bolsonaro filho sobre uma possível decepção eleitoral: "Você não tem musculatura".
Como tantos outros líderes de porte nacional, ele simpatizava com uma chapa encabeçada por Tarcísio, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na vice. O disco virou. Mesmo Malafaia já se conformou e deve selar o endosso a Flávio num culto no dia 3 de maio.
O deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara e ex-presidente da bancada evangélica, tem ajudado o senador na costura com igrejas evangélicas. Pastor licenciado da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, a igreja de Malafaia, ele minimiza movimentos internos na Assembleia, uma denominação que comporta diversas correntes que muitas vezes divergem umas das outras politicamente.
Refere-se especificamente ao apoio dado pelo bispo Samuel Ferreira, do poderoso Ministério Madureira da Assembleia de Deus, a Ronaldo Caiado (PSD-GO), outro pré-candidato que corre na raia direitista.
Acontece que esse galho assembleiano é conhecido por navegar entre mares políticos distintos.
Também ex-líder da bancada evangélica, Cezinha de Madureira já andou na garupa do então presidente Bolsonaro durante uma motociata. Quando Lula venceu a eleição de 2022, passou a ter boa interlocução com membros do governo.
O bispo Manoel Ferreira, liderança nonagenária, posou em foto com Lula quando a maioria dos líderes estava fechada com Bolsonaro cinco anos atrás, inclusive os do Ministério Madureira. A fama é a de manter um pé em cada canoa eleitoral, para estar perto daquela que vingar.
Hoje essa parte da Assembleia de Deus está assim: o bispo Samuel, filho de Manoel, diz que apoia Caiado, mas tanto o deputado federal Cezinha de Madureira quanto o estadual Oseias de Madureira, que disputam eleições carregando o nome da igreja, migraram recentemente do PSD para o PL.
O bispo Robson Rodovalho, da igreja Sara Nossa Terra, aposta suas fichas na união dos pastores em torno de Flávio, a opção à frente nas pesquisas. "Nenhum exército prevalece dividido. De uma forma ou de outra, vamos ter que nos afinarmos", diz ele, que dava suporte religioso a Bolsonaro na prisão.
O problema seria ter um apoio não empolgado, contrário ao que foi dado ao pai. Isso pode desmobilizar a base de fiéis.
Mesmo Jair, nas palavras de um líder que esteve ao seu lado em 2018 e 2022, "deu uma banana" para pleitos caros a esses líderes.
Exemplos: André Mendonça não era o "terrivelmente evangélico" favorito para emplacar no STF (Supremo Tribunal Federal). Tampouco prosperaram indicações para o Ministério da Educação na gestão Bolsonaro. Evangélicos até aqui também não emplacaram candidaturas ao Senado por São Paulo (o nome do deputado Marco Feliciano, do PL-SP, sempre circula) nem a vice de Bolsonaro pai. Quem sabe a do filho.
Oficialmente, ninguém admite fazer qualquer demanda para o clã Bolsonaro. Mas nos bastidores muitos as assumem.
Feliciano, aliás, esteve no culto em que o pastor José Wellington Bezerra das Costa, da influente Assembleia de Deus Ministério Belém, orou por Flávio. Cobrou ali, conforme reproduz à reportagem, que o senador e seu grupo político cumprissem promessas feitas diante da bancada evangélica. "Também os relembrei que, na eleição de 2022, quando os coordenadores da campanha de Bolsonaro tinham como certo pelo menos 90% dos evangélicos, descobriram que cerca de 30% não votaram nele".
Se eles tivessem conseguido virar 10% dos crentes que esnobaram Bolsonaro, "teríamos conseguido a vitória", diz Feliciano, que se declara leal ao ex-presidente, "ainda que não cumpram o que me prometeram". Ele tenta de novo concorrer ao Senado com aval do PL.
Na avaliação de pastores, Jair Bolsonaro não é perfeito, mas tem mais "licença para errar". Já Flávio ainda é visto mais como um preposto do pai do que como um líder autônomo, fragilidade que, em uma disputa nacional, pode limitar seu alcance e consolidar resistências. Quem não tem Jair, contudo, caça com Flávio.
