BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), recorreu a uma série de entrevistas à imprensa e a comentários públicos para rebater críticas à corte e defender suas posições.
No intervalo de menos de uma semana, o decano do tribunal falou com ao menos seis veículos de comunicação -três deles no intervalo de menos de 24 horas, de quarta (22) para quinta (23).
Gilmar respondeu a questões sobre a crise de imagem da corte quanto ao caso do Banco Master. Nesse ponto, afirmou que o envolvimento do Supremo é marginal e que o endereço central do escândalo não é a praça dos Três Poderes, mas a Faria Lima, em referência ao centro financeiro do país, em São Paulo.
Nas declarações, o ministro apontou o que afirma ser uma contradição nas críticas, como o fato de acusações de interferências indevidas nos demais Poderes acontecerem ao mesmo tempo em que há cobranças para que o STF atue em determinados temas.
Nas entrevistas, Gilmar defendeu a manutenção do inquérito das fake news, que já completou sete anos. Também buscou justificar a sua decisão de enviar ao relator, Alexandre de Moraes, uma notícia-crime contra o governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), conforme revelou a colunista Mônica Bergamo, e sua representação à PGR (Procuradoria-Geral da República) contra o relator da CPI do Crime Organizado, Alessandro Vieira (MDB-SE), após proposta de indiciamento de integrantes do Supremo.
Gilmar também abordou a proposta do presidente da corte, Luiz Edson Fachin, para a construção de um código de ética, que é alvo de resistência por parte do decano. Tratou, ainda, da proposta de Flávio Dino de uma reforma do Judiciário e defendeu um pacto mais amplo entre os Poderes.
Nos últimos dias, Gilmar deu entrevistas ao Jornal da Globo, Jornal da Record, ao portal Metrópoles, à Band, ao Correio Braziliense e ao veículo português Expresso. Fez ainda comentários no plenário na sessão desta quarta-feira (22) do STF.
"Há uma maldade em tentar transferir o caso Master para a praça dos Três Poderes. Eu acho que o Master continua residindo na Faria Lima. São bancos, não só o Master, mas bancos outros que venderam os créditos do Master, que emprestaram credibilidade, que têm que explicar. Todo o sistema, não só aqui ou acolá, o ministro usou do avião ou fez isso ou aquilo. Vamos investigar, vamos examinar, mas é preciso investigar o sistema como um todo", disse.
Nos bastidores, Gilmar integra uma ala do tribunal que gostaria de ver uma postura mais firme de Fachin na defesa do Supremo e de seus integrantes.
Nesta quinta, em entrevista ao Metrópoles, Gilmar comparou as críticas feitas à corte por Zema a retratar o ex-governador de Minas como homossexual.
Zema publicou um vídeo no mês passado satirizando Gilmar e Dias Toffoli. Nas imagens, o fantoche de Toffoli pede ao de Gilmar que suspenda a quebra de seus sigilos, determinada pela CPI do Crime Organizado. O boneco do magistrado então anula a decisão. Em troca, ele pede "só uma cortesia lá do teu resort que tá pago, 'tô' a fim de dar uma jogadinha essa semana", referindo-se ao Tayayá, que tinha participação de Toffoli e foi comprado por um fundo ligado a Daniel Vorcaro, do Banco Master.
"Se começamos a fazer piadas com coisas sérias, com as instituições, imagine que comecemos a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo? Ou se fizermos ele roubando dinheiro no estado, será que não é ofensivo? É correto brincar com isso? Homens públicos podem fazer isso? Só essa questão. É isso que precisa ser avaliado", afirmou o ministro.
Em resposta, Zema disse em publicação no X (ex-Twitter) que "só ofende quando tem fundo de verdade". "Pode fazer o que quiser, minha consciência tá tranquila", escreveu, após o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) questionar se a fala de Gilmar não teria sido homofóbica.
O ex-governador mineiro também reagiu com um emoji de risada a uma imagem gerada por IA (inteligência artificial) que mostra um boneco dele segurando uma bandeira da comunidade LGBTQIA+ e uma placa onde está escrito "Zema com orgulho".
Quanto à disputa com Zema, Gilmar afirmou que o político somente conseguiu governar o estado depois de decisões do STF pela suspensão do pagamento da dívida com a União por 22 meses.
Questionado se pedir a inclusão de Zema no inquérito das fake news não acirraria mais os ânimos, Gilmar negou e afirmou que "todos nós que atuamos na vida pública temos que ter responsabilidade" e "não podemos fazer esse tipo de brincadeira".
O ministro afirmou que o STF é elogiado internacionalmente por sua atuação na defesa da democracia e que eventual autocrítica deve ser feita internamente, em um processo interno e constante de autorreflexão.
No plenário da corte, Gilmar criticou editoriais da Folha de S.Paulo dizendo que, de um lado, há cobranças do jornal sobre exorbitância do STF e, de outro, falta de atuação em alguns temas. O ministro disse que "pouca gente vai poder colocar na biografia" o fato de vários editoriais na imprensa terem sido dedicados a ele.
