BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Interlocutores do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) criticaram de forma reservada a resposta da pré-campanha à crise deflagrada pela reportagem do site Intercept Brasil que expôs o contato entre o presidenciável e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, na negociação de R$ 134 milhões para bancar a produção do filme "Dark Horse", a respeito de Jair Bolsonaro (PL).
No momento de maior tensão da pré-campanha de Flávio até aqui, a avaliação de parte dos aliados do senador é de que a declaração de resposta demorou, o vídeo gravado por ele acabou fora do tom, pontas soltas ficaram sem explicação e houve um erro inicial de transparência.
Despreparo, amadorismo, bateção de cabeça e falta de comando foram expressões usadas para descrever o contra-ataque. Segundo três pessoas ouvidas pela reportagem, a resposta foi pior para Flávio do que a crise em si.
Por outro lado, defensores da estratégia dizem que ela foi efetiva e que a maneira como a história eclodiu gerou uma criminalização que não faz sentido. Eles afirmam ser vítimas da máquina do governo federal e de um vazamento seletivo da Polícia Federal.
Apesar disso, a análise preliminar de pessoas ligadas à equipe a partir de dados de redes sociais é de que os efeitos para Flávio não foram tão graves --ou seja, sua candidatura deve sobreviver. Aliados afirmam que o senador não cometeu crime ao pedir dinheiro a Vorcaro.
Nas bolhas petista e bolsonarista, o resultado foi o esperado, de ataque e defesa, respectivamente. Mas, entre usuários menos politizados, que podem decidir a eleição, restaram dúvidas sobre o caso --por exemplo, se realmente não houve contrapartidas, como diz Flávio, e qual foi o montante liberado, de onde ele partiu e para quem foi pago.
A opinião definitiva desse grupo depende, portanto, do que ainda pode ser revelado contra Flávio. Esse é o receio de políticos bolsonaristas, como mostrou a Folha de S.Paulo. Dado que o senador omitiu sua relação com o ex-banqueiro, há apreensão de que novos diálogos sejam revelados.
Um dos pontos de crítica diz respeito aos fios desencapados da história. Enquanto Flávio admitiu que Vorcaro financiou a realização de "Dark Horse" (azarão em inglês), a produtora do filme negou ter recebido dinheiro do ex-banqueiro, o que demonstrou falta de planejamento e de comunicação entre auxiliares do senador e bolsonaristas ligados às filmagens, como Eduardo Bolsonaro (PL) e Mario Frias (PL-SP).
A verba para a produção teria sido paga por meio de uma empresa ligada a Vorcaro, mas sem relação formal com o dono do Master, a Entre Investimentos e Participações, o que levou a produtora a negar o vínculo com o ex-banqueiro, divergindo de Flávio.
A resposta oficial deveria ter sido combinada entre todas as partes, segundo esses interlocutores, sob pena de alimentar a suspeita de que o dinheiro tenha sido usado pela família Bolsonaro. A PF investiga se os recursos bancaram despesas de Eduardo nos Estados Unidos, onde o ex-deputado vive desde fevereiro de 2025.
A demora no posicionamento de Flávio também foi criticada -a reportagem foi publicada às 14h31 desta quarta-feira (13), enquanto a nota foi enviada às 17h44. Nesse intervalo, houve uma reunião no escritório político da pré-campanha com a cúpula da equipe, incluindo o coordenador Rogério Marinho (PL-RN), o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), além de advogados e marqueteiros. O clima, segundo participantes, foi de tensão.
Como a resposta era de que não houve ilegalidade na ação de Flávio, o contra-ataque poderia ter sido mais rápido, sem envolver uma operação de guerra, dizem envolvidos. Enquanto políticos da direita esperavam a declaração de Flávio para orientar seu discurso, os adversários do PT partiram para o ataque sob o slogan "BolsoMaster".
Flávio também divulgou um vídeo com o mesmo teor da nota, e a gravação acabou malvista por parte de seus aliados. Eles afirmam que o senador não transpareceu seriedade e, pelo contrário, pareceu acuado, abatido e desconfortável, reforçando uma imagem de fragilidade eleitoral.
Há ainda uma crítica generalizada a respeito de transparência, que extrapola a equipe e chega a deputados bolsonaristas. Segundo eles, Flávio poderia ter minimizado o desgaste se tivesse admitido, quando teve a oportunidade em março, que conhecia Vorcaro e que o ex-banqueiro estava financiando o filme sobre seu pai.
Mais grave do que ter escondido isso do público, dizem esses integrantes da direita, foi não ter dito a verdade para a equipe da pré-campanha, o que levaria a alguma estratégia prévia. Os auxiliares de Flávio foram criticados, de toda forma, por não terem vasculhado a vida do senador e mapeado possíveis escândalos.
O comando do contra-ataque desta quarta ficou a cargo do coordenador de comunicação da pré-campanha, o publicitário Marcello Lopes, amigo de Flávio, com ajuda do jornalista Alexandre Oltramari. Marcello foi procurado pela reportagem, mas não respondeu. A assessoria de Flávio afirmou que só caberia a ele dar um posicionamento.
A avaliação de que a resposta teve erros apenas ampliou o desgaste interno do publicitário. Nesta terça-feira (12), a Folha revelou que Marcello consta como um dos estrategistas do plano de ataques coordenados contra o Banco Central contratado por Vorcaro.
Ele diz ter sido surpreendido com a inclusão de seu nome no plano, que chegou a ser convidado para um projeto, mas disse que não poderia participar porque estaria em viagem para os EUA.
