BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A Polícia Federal trocou a coordenação dos inquéritos da Operação Sem Desconto, que apura um esquema de fraudes envolvendo o INSS e motivou a quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula (PT).

A mudança motivou a oposição no Congresso Nacional a acionar a PGR (Procuradoria-Geral da República) e a protocolar um requerimento de convocação do diretor-geral da PF para dar explicações.

As investigações da Sem Desconto eram coordenadas pelo delegado que chefiava a Divisão de Repressão a Crimes Previdenciários da PF. Agora, os casos foram transferidos para a Coordenação-Geral de Repressão à Corrupção, Crimes Financeiros e Lavagem de Dinheiro. Por isso, o delegado que chefiava o caso foi trocado.

Segundo a PF, a mudança dá maior estrutura para a investigação e, fora a coordenação, os delegados que atuavam nos inquéritos foram mantidos.

A nova chefia dos casos se reuniu na manhã desta sexta-feira (15) com o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), relator dos casos.

Mendonça cobrou explicações a respeito da troca. Na reunião, o ministro afirmou que não foi informado anteriormente da substituição e ficou incomodado.

Pessoas que acompanham as investigações vinham relatando nas últimas semanas um receio de que poderia haver pressões sobre a equipe responsável pelas investigações.

Segundo relatos feitos por uma autoridade que participou da reunião, Mendonça teria cobrado independência no trabalho da nova equipe e que não haja perseguições, mas que também não ocorram atrasos nas investigações.

A PF justificou no encontro desta sexta que o movimento foi burocrático, apenas de alteração da coordenação responsável pelo tema, e que os delegados que tocam os inquéritos do INSS seguirão os mesmos.

Entre auxiliares de Mendonça, há o temor de que esse departamento fique sobrecarregado, uma vez que é também responsável pelo caso do Banco Master, o que poderia retardar os trabalhos.

Em nota, o gabinete do ministro disse que a reunião teve como pauta a "atualização do andamento das investigações e apresentação da nova coordenação que cuida da operação sem desconto (caso do INSS)".

A Operação Sem Desconto começou em 2025 e já levou à prisão integrantes do alto escalão do INSS e à criação de uma CPI.

Uma das linhas trabalhadas na apuração, de acordo com investigadores, é a possibilidade de que Lulinha tenha sido sócio oculto do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.

Com a mudança da coordenação, o senador Carlos Viana (Podemos-MG), que presidiu a CPI do INSS, enviou um ofício ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

No documento, o parlamentar questiona a motivação da alteração, pergunta se o STF foi avisado antes e se houve preservação integral das linhas investigativas, das provas já produzidas e do restante da equipe.

Em nota, Viana afirmou que qualquer situação que gere dúvida ou suspeita sobre a condução de investigações dessa magnitude é extremamente grave. "Trocas dessa natureza, em momentos delicados da investigação, exigem explicações claras e imediatas à sociedade brasileira", disse.

A CPI do INSS terminou no fim de março, com a vitória da base governista, que conseguiu rejeitar o texto do relator Alfredo Gaspar (União Brasil-AL) com a sugestão de indiciamento de 216 pessoas, entre elas Lulinha.

O líder da oposição na Câmara, cabo Gilberto Silva (PL-PB), em requerimento à PGR, também pediu que o órgão apure a regularidade da mudança e garanta que as provas sobre as fraudes sejam preservadas.

"O Brasil inteiro exige respostas. Estamos falando de um dos maiores escândalos contra aposentados da história recente do país. E a sociedade brasileira não aceitará qualquer tentativa de interferência, blindagem ou enfraquecimento das investigações", escreveu ele, em publicação no X (ex-Twitter).

Já o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), disse ter protocolado um pedido de convocação para que Andrei vá à Casa prestar informações sobre o episódio. Caso seja aprovado, o requerimento torna obrigatória a presença do diretor-geral da PF.