BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Sem citar diretamente Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o pré-candidato à Presidência Romeu Zema (Novo) afirmou nesta quarta-feira (20) que governar e "mudar o Brasil" exigem credibilidade, na esteira da crise que afeta a campanha do bolsonarista após a revelação de contatos do senador com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.
"Prefeitos e prefeitas, vereadores e vereadoras: governar, vocês sabem, exige coragem, mas exige, principalmente, credibilidade. Quem quer mudar o Brasil precisa, acima de tudo, ter credibilidade. Credibilidade para liderar, para unir, para tomar decisões difíceis", afirmou o ex-governador mineiro.
Zema falou a uma plateia de prefeitos e gestores municipais durante a 27ª Marcha dos Prefeitos, evento organizado pela CNM (Confederação Nacional dos Municípios) anualmente em Brasília. Na terça (19), Flávio participou de debate. Ele foi ovacionado, mas também ouviu vaias e gritos de "Vorcaro".
Rivais na corrida ao Palácio do Planalto, Flávio e Zema se afastaram após, na semana passada, o ex-governador classificar como "imperdoável" a negociação do senador com Vorcaro para o filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), revelada pelo site The Intercept Brasil.
Na ocasião, em vídeo publicado nas redes sociais, o pré-candidato do Novo afirmou que "não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa". "Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável", acrescentou.
Em resposta, o senador criticou Zema e disse que o mineiro foi "precipitado" e "se equivocou". "Ele [Zema] é novo na política e precisa entender que tem a grande responsabilidade de ajudar os brasileiros a se livrarem do PT. Eu merecia, pelo menos, o benefício da dúvida da parte dele após meus esclarecimentos. Ele se equivocou em se antecipar e me pré-condenar, eu jamais faria isso com ele", declarou.
A jornalistas após sua fala aos prefeitos, Zema confirmou que recebeu uma ligação de Flávio depois do atrito, mas disse que estava voltando de Nova York, onde participou de eventos, e que retornou a chamada quando pousou, mas o senador estava voando para o Rio.
"Nós nos desencontramos. Mas falei a ele que estou disponível. Quando ele quiser ligar, estou à disposição", disse.
O candidato do Novo também repetiu que ficou decepcionado com Flávio e que as explicações apresentadas ainda não foram convincentes, mas disse que a direita estará unida em um eventual segundo turno contra o PT, que lançará o presidente Lula para tentar a reeleição.
Na terça, Flávio Bolsonaro também confirmou que visitou Daniel Vorcaro depois da primeira prisão do ex-banqueiro, no fim de 2025. Mais cedo, ele se reuniu com as bancadas do PL na Câmara e no Senado para dar explicações sobre o escândalo.
Questionado sobre o encontro, Zema não comentou diretamente o episódio. Apesar disso, ele afirmou durante a entrevista que Vorcaro foi atrás de que ele via que "seria bem recebido". "Ele sabia muito bem para quem está aparecendo."
O senador pediu dinheiro a Vorcaro para financiar o filme sobre seu pai. O ex-banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões para a produção. Desde então, Flávio vem tentando conter os danos para a pré-campanha à Presidência e enfrenta uma crise de confiança entre aliados.
Segundo a coluna Painel, aliados de Zema dizem que o recado foi dado: a candidatura à Presidência não tem mais volta e o vídeo confirmou que ele não cogitava ser eventual vice de Flávio. Questionado sobre o tema nesta terça, o nome do Novo disse que vai levar sua campanha "até o final".
Romeu Zema também voltou a criticar o que tem chamado de "farra dos intocáveis", em referência a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e setores do Congresso Nacional.
Na última semana, ele foi denunciado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) sob a acusação de calúnia pela série de vídeos em que satiriza os ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli e, na ocasião, disse que não pretende recuar das críticas.
"Sabemos que o Brasil de verdade não vive nos palácios de Brasília e que o Brasil de verdade não é ouvido nos palácios de Brasília. O Brasil de verdade é roubado todos os dias pelos intocáveis que ficam aqui nessa cidade. O Brasil de verdade não anda em tapete vermelho, nem fala português rebuscado. Fala esse português que eu, aqui mineiro do interior, falo", disse aos prefeitos.
O ex-governador de Minas ainda criticou a proposta do fim da escala 6x1, atualmente em discussão no Congresso com o apoio do governo Lula, e defendeu um regime de trabalho por horas em que o trabalhador decida "se quer trabalhar 50 horas, 40 horas ou 30 horas".
"Temos um governo intervencionista querendo ditar as regras. A CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] já deu o que tinha que dar. Chega de tutela do Estado, que fica definindo o que patrão e empregado têm de fazer, como se fossem duas crianças. Quem quiser trabalhar por hora, que trabalhe e faça o seu horário", afirmou.
