BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Comprovantes de pagamento e extratos bancários de Gardênia Morais, ex-funcionária do deputado Mario Frias (PL-SP) na Câmara dos Deputados, indicam que ela devolveu parte do salário a pessoas ligadas ao parlamentar enquanto trabalhava no gabinete.
A prática é conhecida como "rachadinha", manobra que consiste no repasse, por parte de um servidor público ou prestador de serviços, de parte de sua remuneração a políticos e assessores.
A informação foi revelada pelo G1 e confirmada pela Folha de S.Paulo.
Procurada, Gardênia Leite disse que não falaria mais sobre o assunto. O deputado também não respondeu aos pedidos de posicionamento da Folha enviados para assessores.
O antigo chefe de gabinete do deputado, Raphael Azevedo, também não respondeu às perguntas enviadas por email. O atual chefe de gabinete dele, Diego Ramos, disse ao G1 que desconhecia as suspeitas, de período anterior ao trabalho dele, e que tinha convicção de que Mario Frias também não sabia.
Gardênia Leite trabalhou para Mario Frias de fevereiro de 2023 a maio de 2024. De acordo com outro funcionário do gabinete, ela ficava baseada em São Paulo.
Os documentos acessados pelo G1 somam R$ 35.116 em repasses, mas Gardênia disse que mais dinheiro foi devolvido. As transferências foram feitas a Raphael Azevedo, a ex-esposa dele e outra familiar dos dois.
Além disso, a ex-funcionária também teria feito um Pix de R$ 1.000 para Maria Lucia Frias, mãe do parlamentar, em janeiro de 2024, e pagado uma fatura de cartão de Juliana Frias, esposa do deputado, no valor de R$ 4.832,32.
Os registros também apontam que ela tomou cinco empréstimos consignados em seu nome, totalizando R$ 174.886 -apenas um deles seria para uso pessoal.
Gardênia afirmou ao G1 que mais pessoas devolviam o salário e que isso era parte de acordo que envolvia o chefe de gabinete com conhecimento do deputado. Ela seria orientada a transferir o valor entre diversas contas para dificultar o rastreamento dos valores.
"O meu salário foi subindo gradativamente. Lá na Câmara a gente tem os 'steps'. No final, estava girando em torno de R$ 20 mil. Me restavam, em média, de R$ 6.000 a R$ 7.000. Eu devolvia todos os meses, de acordo com o meu 'step'", disse Gardênia ao portal.
Ao longo dos 15 meses em que trabalhou na Câmara, ela passou por cinco modalidades dentro do cargo de secretária parlamentar.
"O deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado", afirmou ao G1.
Raphael deixou o cargo em fevereiro de 2024. Antes de se tornar chefe de gabinete de Mario Frias, ele já havia trabalhado como assessor do deputado estadual Gil Diniz (PL-SP) e do PSL, antigo partido de Jair Bolsonaro.
O deputado Mario Frias é o produtor-executivo do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro. De acordo com mensagens reveladas pelo Intercept Brasil, ele participou das negociações de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o banqueiro Daniel Vorcaro em busca de dinheiro para financiar o filme.
Vorcaro transferiu R$ 61 milhões à empresa Entre Investimentos, e o valor acabou indo para o fundo Havengate com o intuito de custear o longa-metragem.
O termo "rachadinha" se popularizou em 2020, quando surgiram acusações contra Flávio Bolsonaro. Em novembro daquele ano, a Procuradoria-Geral de Justiça do Rio de Janeiro denunciou o político sob acusação de liderar uma organização criminosa para recolher parte do salário de seus ex-funcionários em benefício próprio. A prática teria desviado R$ 6 milhões de recursos públicos da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).
O senador negou as suspeitas. As investigações foram encerradas em 2021 após o STF (Supremo Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça) anularem as provas coletadas.
Outro caso do tipo envolveu o deputado André Janones (Avante-MG), que em março de 2025 admitiu a prática ao firmar acordo com PGR (Procuradoria-Geral da República), no qual se comprometeu a pagar R$ 131,5 mil à Câmara dos Deputados como reparação de danos.
