RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Uma construtora ligada ao empresário Renato Araújo, pré-candidato a deputado federal pelo PL no Rio de Janeiro, firmou ao menos R$ 16 milhões em contratos para reforma de escolas públicas na gestão Cláudio Castro (PL).
As obras das unidades de ensino são alvo de inquérito da Polícia Federal contra o ex-deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia Legislativa. A investigação levou à prisão do deputado Thiago Rangel (Avante).
Irregularidades na contratação das reformas em escolas também levaram o TCE (Tribunal de Contas do Estado) a determinar, em abril, a suspensão de pagamentos às empresas envolvidas, entre elas a Bravo Construções, da mulher de Araújo.
Em nota, a Bravo Construções afirmou que "apresentou propostas de preços de forma criteriosa e em estrita conformidade com os elementos técnicos disponibilizados pelas entidades contratantes". A empresa disse também que as contratações foram um "desdobramento natural de uma trajetória sólida e anterior a qualquer vinculação política".
A defesa de Bacellar declarou que desconhece o tema e disse que o ex-deputado não cometeu crimes. A Secretaria de Educação disse que as obras de manutenção das escolas estão passando por uma revisão administrativa para ampliar a transparência e eficiência na aplicação de recursos públicos.
Nos cadastros da Receita Federal, a Bravo Construções está apenas em nome de Tainá Nóbrega de Souza, mulher de Araújo. O empresário, contudo, fazia parte do quadro societário da empresa ao menos até 2024, quando se candidatou a prefeito de Angra dos Reis (RJ). Nos documentos entregues à Secretaria de Educação, em 2025, ele assina como diretor-geral da construtora.
O empresário mantém proximidade com a família de Jair Bolsonaro (PL). Foi o responsável por supervisionar a reforma da casa do ex-presidente na Vila Histórica de Mambucaba, distrito de Angra, realizada em 2023. Também foi um dos que solicitaram ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorização para visitá-lo na Papudinha.
Ele também construiu vínculos políticos fortes com a família. Contou com a presença de Jair e Flávio Bolsonaro ?hoje pré-candidato do PL à Presidência? em seu último dia de campanha e havia sido indicado pelo ex-presidente como vice na chapa de Bacellar, pré-candidato ao Palácio Guanabara com o apoio do clã até ser preso pela PF, no fim de 2025.
Atualmente é pré-candidato a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PL.
Até 2023, a Bravo Construções não havia firmado qualquer contrato com o governo fluminense. Nesse ano, primeiro do segundo mandato de Castro, a empresa assumiu duas obras. Os acordos foram rescindidos antes de sua conclusão.
Em 2025, a construtora foi escolhida para realizar a reforma de 15 unidades escolares, ao custo total de R$ 16,2 milhões. A forma de contratação, porém, se tornou alvo do TCE e da Polícia Federal.
O TCE identificou que a Secretaria de Educação passou a usar para grandes reformas de suas unidades um expediente destinado à realização de pequenos reparos.
Uma lei estadual prevê o repasse de recursos do Tesouro estadual para Associações de Apoio à Escola (AAEs) a fim de agilizar a manutenção emergencial das unidades de ensino. Esses reparos são realizados sem licitação, com uma simples cotação de preços. As associações assinam os acordos, que não são publicados em Diário Oficial nem constam na lista de fornecedores do Portal Transparência.
Nos últimos anos, a secretaria passou a usar esse trâmite para realizar reformas estruturais nas escolas, em intervenções de grande vulto. Levantamento do deputado Flávio Serafini (PSOL), responsável pela representação no TCE, aponta que os repasses às AAEs saíram de R$ 79 milhões em 2020 para R$ 630 milhões em 2024 e R$ 513 milhões em 2025.
"Tais constatações constituem fortes indícios de burla ao regime constitucional e legal das licitações públicas, uma vez que obras de grande vulto e sem caráter de urgência, as quais extrapolam o conceito de pequenos reparos ou intervenções emergenciais, estão sendo executadas através da descentralização de recursos, em detrimento da adoção de procedimento licitatório", escreveu a conselheira substituta Andrea Siqueira Martins, ao determinar a suspensão dos repasses.
A PF suspeita que as contratações pelas AAEs eram um meio de Bacellar ter maior controle sobre as empresas escolhidas para tocar essas obras.
O inquérito apura possível repasse de valores dessas firmas para o ex-deputado, que tinha controle sobre nomeações na Secretaria de Educação e as distribuía para aliados. Thiago Rangel foi preso sob suspeita de desviar recursos sobre as obras realizadas em escolas do Norte Fluminense, sua base eleitoral.
Relatório do TCE apontou que a ampliação das obras partia de uma decisão da secretaria, e não de demandas apresentadas pela direção da escola.
Num dos casos apontados por auditores, os representantes de um colégio em Nova Iguaçu descreveram "problemas recorrentes de alagamento, os quais demandariam intervenção hidráulica estrutural". Segundo o relatório, a Secretaria de Educação direcionou "a contratação para a substituição do telhado da escola, com custo elevado, estimado em mais de R$ 2 milhões".
Essa foi uma das obras assumidas pela Bravo Construções. A construtora ligada a Araújo assumiu por meio das AAEs obras em cidades da região metropolitana do Rio de Janeiro. Não é possível saber quanto de fato a empresa já recebeu.
CONSTRUTORA DIZ TER TRAJETÓRIA SÓLIDA E ANTERIOR A VINCULAÇÃO POLÍTICA
A Bravo Construções afirmou, em nota, que as contratações feitas durante a gestão Castro foram um "desdobramento natural de uma trajetória sólida e anterior a qualquer vinculação política".
"A empresa atua no mercado da construção civil há mais de 15 anos, com CNPJ registrado desde 2011 e histórico comprovado de obras em diversas cidades e estados. Sua experiência com o setor público remonta a 2015, quando executou a construção de uma unidade do Sebrae em Angra dos Reis e, no mesmo ano, realizou obras para a Andrade Gutierrez durante a construção da Usina Nuclear de Angra", afirma a nota.
"Os contratos celebrados com as Associações de Apoio às Escolas estaduais foram obtidos por meio de procedimentos licitatórios regulares, nos quais a Bravo apresentou propostas de preços de forma criteriosa e em estrita conformidade com os elementos técnicos disponibilizados pelas entidades contratantes. A empresa não detinha conhecimento prévio acerca de quaisquer outras limitações dos certames, inexistindo qualquer indício nos autos que sugira o contrário."
A empresa declarou ainda que executou 90% dos 15 contratos e foi aprovada por diretores e coordenadores regionais.
A Bravo também disse que a família Bolsonaro "jamais teve qualquer tipo de relação com a empresa".
A Secretaria de Educação disse que "vem realizando uma revisão administrativa dos procedimentos relacionados às obras de manutenção e reparo nas unidades da rede estadual". Uma das mudanças, segundo a pasta, é limitar as compras das AAEs a um teto de R$ 130 mil.
A defesa de Bacellar declarou desconhecer o tema. "Mas podemos garantir que nosso cliente não cometeu qualquer ilicitude", afirmaram os advogados Daniel Bialski, Marcos Crissiuma e Rodrigo Mudrovich, em nota.
