SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Itamaraty só dá voto no Burundi", diz o aforismo atribuído a Ulysses Guimarães (1916-1992). A citação do ex-presidente da Assembleia Constituinte ao longínquo país africano resume um pensamento que vicejou à maneira de um consenso desde a redemocratização: política externa não influencia eleição no Brasil.

Essa sentença parece, no entanto, não corresponder mais à realidade atual, com a disputa entre dois pré-candidatos ao Planalto, o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por uma interlocução favorável com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Outros temas devem vir à tona na eleição.

Segundo analistas internacionais, pesam contra o petista sua postura em relação à Venezuela e a forma de apoio à causa palestina. Em contraste, o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro, que apoia Israel, não tem a mesma presença no mundo e pode ser visto como subserviente aos interesses dos EUA.

O professor de relações internacionais da USP Feliciano de Sá Guimarães pesquisa há uma década, no grupo de estudos "O Brasil, As Américas e O Mundo", em parceria com o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), o comportamento da opinião pública em relação à política externa.

"Concluímos que temas internacionais se tornam importantes porque pesam na discussão de valores", diz Guimarães. "O eleitor é progressista ou conservador também a partir do que está acontecendo no mundo."

A metodologia se alicerça em "surveys" quantitativos, levantamentos feitos para colher as impressões dos entrevistados sobre os temas salientes, aqueles que mobilizam a atenção. As sondagens foram realizadas de 2010 a 2023, com um ponto de inflexão em 2018, com a vitória de Bolsonaro, que aconteceu numa onda mundial de ascensão de líderes da ultradireita.

No pleito deste ano, a relação dos pré-candidatos com os EUA já é um capítulo à parte.

"Quem conseguir lucrar com o relacionamento com Trump sai na frente. O que é lucrar? Criar uma condição favorável em relação à Casa Branca", afirma Guimarães, para quem o nível de intervenção dos EUA será uma variável determinante. Na semana passada, os EUA classificaram as facções criminosas Comando Vermelho e PCC como terroristas, dias depois do encontro entre Flávio e Trump na Casa Branca.

Na ocasião, o senador tratou do combate ao crime organizado com o presidente americano. A reunião se deu em um momento de crise na sua pré-candidatura, abalada pelo caso "Dark Horse". Desde o início do ano, Flávio viaja periodicamente aos EUA, expondo o alinhamento do bolsonarismo com o trumpismo.

Professor de relações internacionais da Faap (Centro Universitário Armando Alvares Penteado), Lucas Leite afirma que a recepção de um senador sem experiência executiva no Salão Oval mostra que Washington prefere uma alternativa ao PT. Todavia, essa decisão de tratar as facções como terroristas pode ter o efeito contrário ao esperado. "O eleitor indeciso brasileiro não é ideológico, mas é ciumento da soberania nacional de forma difusa e emocional", diz Leite.

Na sexta (29), Lula disse que Flávio é traidor e atua por uma intervenção estrangeira. No início do mês, o petista foi recebido na Casa Branca, em uma reunião que terminou sem anúncios concretos, mas aliados do governo viram, na ocasião, um gesto para mostrar que a interlocução com Washington não é exclusividade da família Bolsonaro. Em seu terceiro mandato, Lula teve com Trump uma relação de altos e baixos.

No ano passado, Trump escreveu nas redes sociais que o Brasil estava fazendo uma "coisa horrível" com Bolsonaro, em referência ao processo da trama golpista. Em seguida, anunciou uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, o que fez o petista adotar a retórica da soberania nacional, amealhando o apoio da população.

Em setembro, os chefes de Estado tiveram um breve encontro na ONU (Organização das Nações Unidas), de onde apareceu uma "excelente química", nas palavras de Trump.

Para Paulo Velasco, professor de relações internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), a classificação do PCC e do CV como terroristas deixa o presidente em uma situação incômoda para tentar rebater a decisão e se posicionar na corrida eleitoral.

Segundo ele, a classe média vê a esquerda como mais conivente com o crime organizado. "Ter uma boa relação com Trump mostra que Flávio é defensor da tradição do Ocidente e da matriz judaico-cristã, e Lula quer se vender como o líder pragmático, que não precisa estar alinhado."

Sob o ponto de vista eleitoral, a guerra entre Israel e Hamas e a Venezuela representam outros pontos críticos à candidatura do petista. A partir dos anos 2000, Lula construiu relação próxima com o chavismo e ganhou a pecha de defensor de ditaduras. Não por acaso, a oposição ao PT alardeia que o Brasil estaria virando uma Venezuela. No terceiro mandato, Lula teve uma postura mais hesitante em relação a Maduro.

Em 2024, não reconheceu a reeleição do ex-ditador venezuelano e cobrou transparência nas eleições. Só que, no mesmo ano, evitou dizer que o país vizinho vivia uma ditadura, falando em "regime desagradável". No terceiro dia deste ano, os EUA invadiram a Venezuela e capturaram Maduro, agora preso em Nova York.

Delcy Rodríguez assumiu o poder interinamente. "Lula ainda tem um passivo muito grande no eleitorado de centro por sua relação com ditaduras. O fato de Maduro não estar mais no poder é até bom para ele, porque não vai ter de se explicar por isso", avalia Guilherme Casarões, professor da Florida International University.

Quanto a Israel, uma fala de Lula em Adis Abeba tornou-se representativa da posição do governo. Há dois anos, ele foi à capital da Etiópia e, durante a Cúpula da União Africana, comparou o massacre em Gaza ao Holocausto. Foi declarado persona non grata pelo governo israelense.

"A maneira como ele lidou com Israel pesou muito para certos segmentos do eleitorado, como evangélicos, judeus e as pessoas de centro", diz o professor. "Para essas pessoas, Lula deu incentivos para o antissemitismo de esquerda."

Flávio iniciou o ano eleitoral com uma visita a Israel, onde se batizou pela segunda vez no rio Jordão. Dois meses depois, foi até a posse de José Antonio Kast como presidente do Chile e lá se encontrou com outro aliado, o presidente argentino Javier Milei.

"Falta a Flávio experiência internacional, o que muitos políticos têm antes de disputar a eleição", diz Casarões, para quem o senador enfrenta a lembrança da política isolacionista do seu pai. "A imprensa internacional tratava o Brasil como pária."

Tags:
Trump